A Ideia de

Pátria

Urgente, nos tempos que vão correndo, a ideia de Pátria será, para os Portugueses divididos, a mística união necessária, o sentido missional de um Destino ainda a cumprir entre os demais povos do mundo.

No entanto, ao reflectirmos a genuína alma nacional, verificamos que esta já não é mais pensada através dos seus próprios dinamismos internos, nos quais se actualiza o seu carácter verdadeiramente inconfundível. Isto quer dizer que os nossos valores originários se vão lentamente obscurecendo, interferidos por um pensamento político que, fiel ao internacionalismo universalista, transporta consigo o sinal dissolvente dos mais lídimos sentimentos patrióticos.

Certamente que uma ideologia, que apregoe e defenda o abraço fraterno da Humanidade inteira deve ser o nobilitante desígnio de todos os homens de boa-vontade. Mas por traição premeditada ou estulta ignorância, este colectivismo, que não conhece fronteiras, pretendendo ser portador de uma nova plenitude, tem-se revestido, entre nós, das mais negativas formas de exploração doutrinária e política, negando aos Portugueses o acesso à sua própria natureza existencial.

Os que repudiam a História e, com ela, todo um passado, devem ter em conta que, se lhes é lícito e louvável abolir desse passado as injustiças e as servidões, não podem, no entanto, dissolver o tempo interior e anímico de um povo, aquele tempo eterno que representa o seu culto, a sua cultura, o seu modo de ser,  de sentir e de pensar.

Sabemos que é lugar comum dos idealismos levados ao extremo identificar o plano do ser com o plano da existência, numa ordem imutável de ideias que reclamam ser aplicadas numa concreta e progressiva generalidade. Porém, estas ideias não têm correspondência imediata com a esfera da vida objectiva, mas sim com a esfera da vida subjectiva.  Deste modo, sempre que são chamadas ao plano da existência, actuam como um sistema exteriorizado e uniforme, originando a negação da própria pessoa humana. Traduzidas em palavras vazias de conteúdo, em directrizes que o interese político planifica, afirmam-se como uma concepção deformada do papel que, perante as nações, o homem deve assumir em face da verdadeira consciência ontológica de si próprio.

Devemos sempre atender que essa consciência ontológica exige a personalidade e a liberdade que, como atributos existenciais, têm que estar em necessário conflito com essa genérica tendência, já que potenciam, não a semelhança entre os homens, mas sim a sua diferença e dissemelhança.

Quando os valores da pessoa empalidecem, em nome de qualquer abstracto colectivismo, toda a luta pela libertação fica sem sentido, nasce como uma abstracção já morta, porque mortos ou diminuídos estão já esses valores que a garantem.

Isto é válido tanto para os homens como para as nações e fácil é vaticinar para estas a alienação progressiva da sua identidade, assim como o crepúsculo inevitável da sua autonomia política.

Acontece que, para a ideia de Pátria ter sentido, é indispensável que a natureza anímica da pessoa humana livremente se constitua no ser singular de cada homem, e só quando o pensamento puder frequentar, sem osbtrutiva reserva, todo esse mundo de motivações imanentes, é que uma hermenêutica pode ser solidária na compreensão profunda de uma determinada personalidade criadora.

Enganam-se aqueles que julgam que a difusão da cultura venha a corrigir este declínio da consciência individual, e gerar uma humanidade desperta para os valores da alma e do espírito. Pode, com efeito, a cultura ser preservada e até enaltecida por qualquer tipo de governo, mas o certo é que esta segue o vulto espectral do seu próprio tempo histórico, e é em função deste último que tenta sempre explicar-se a si própria.

Neste consenso de valores ideais apátridas, são as academias e universidades o mais erudito expoente de uma espécie de socialização mental, que implica um modo de pensar submisso à mediocridade do senso comum?

Decorrente de tudo o que foi dito, ainda outra grave advertência se nos impôe; refere-se à nossa civilização industrial, que apoiada num totalitarismo materialista, repudia qualquer crítica que intencione estabelecer o lugar intermédio que lhe pertence entre a esfera da necessidade e a esfera da liberdade, entre o reino da Natureza e o reino do Espírito. A sua eficácia triunfante não se compadece com os valores subjectivos que podem ser embaraçosos e indesejáveis aos seus planos de desenvolvimento programado.

Estamos certos que todas as sociedades, por mais diferentes que sejam, na medida em que se apropriam da civilização industrial terão cada vez mais dificuldade em reconhecer o pensamento e a cultura que as distingue, já que desenvolvem formas de produção tendentes a uniformizar a sua vivência quotidiana.

O destino existencial dos povos, negociado no mercado comum das ideias e dos bens de consumo, parece pois inelutávelmente depender das categorias de uma materialismo económico que ideólogos proletários ou burgueses, embora em desacordo quanto à metodologia, apontam como via necessária e promissora. Entre nós, políticos há que constantes provas dão desta espécie de patriotismo quando se interrogam se Portugal é económicamente viável. Quando se aniquila o espírito, nada mais resta às Nações, como às empresas, senão estabelecer nestes termos o seu direito à existência.

Do que eu acabei de afirmar, estais vós, meus amigos, concerteza plenamente esclarecidos. Por dentro deste meu longo desabafo uma preocupação alimentou o meu discurso e para a qual vos devo uma franqueza – confesso que, quando fui interrogado sobre a ideia de Pátria, fiquei preplexo, não sabia como começar, a não ser ... a não ser que a minha razão, a frio, súbitamente por vós solicitada, organizasse um universo sistemático de ideias pretensamente próprias e impecáveis, mas no momento imunes e cindidas de toda uma potenciação da minha sensibilidade, neste aspecto imprescindível. Não quis incorrer no pecado, que é comum aos materialistas, e não estranho a alguns idealistas, de falar da Pátria tão somente pela cabeça – quis senti-la também no coração. Os primeiros, perdem-se logo quando interrogam, já que desprezam o apelo aos valores essenciais e subjectivos da alma. Os segundos, perdem-se depois, quando respondem, deslumbrados pela luz de uma lógica exemplar, esgotando a própria alma numa ordem imutável e eterna.

Quanto a mim, a razão em si mesma cinde e distancia, criando universos absolutos tanto na ordem natural como no reino das ideias, e só na qualidade de animada, isto é, sempre assistida no seu percurso pelas faculdades subjectivas, é que pode transitar todos os níveis da consciência e contemplar o próprio fundamento da nossa vida existencial.

A razão só se assume quando é impelida por dentro de si própria. Para além de si, ela situa-se e suspende-se, na contingência que lhe é reservada, diante do infinito que procura.

Foi-me dado compreender, deste modo, que é para aquém da minha razão que se fundamenta e enraiza a ideia de Pátria, mas uma vez ideia assumida, é para além da minha razão que ela, do espaço e do tempo, transborda e ganha sentido em si mesma!

Sentido a que só o misticismo dá sentido. Nesta transcendente universalidade, só a mistica é que tem o poder coalescente de fundir, num momento único e incomparável, todo um conjunto de vivências naturais de simbolos do mundo orgànico e inorgânico, que são valores do povo a que eu pertenço, realidades que me frequentam e que eu frequento, seja com a minha sensibilidade, seja com o meu entendimento.

Se meditarmos no presságio dos poetas saberemos defender o culto dos heróis. No desafio mortal que enfrentamos, devemos imaginar sempre o que fariam os nossos grandes mortos, se vivos fossem.



in «Leonardo, Revista de Filosofia Portuguesa», Abril 2009