A Janela

Nunca a humanidade esteve tão mergulhada no mundo da cultura! Hoje, todos somos cultos só porque nos civilizamos, só porque julgamos que o progresso, em si mesmo, se encarregará de fazer por nós mais do que aquilo que representa o nosso desempenho no viver afadigado e quotidiano. Escusamos até de pensar! Tão somente pensamos no modo melhor e mais útil de levar a nossa vida. Tudo o que nos rodeia passa, assim, a ser displicentemente aceite como facto cultural.

Na verdade, todos os factos comparticipam de uma cumplicidade de modelos ou de acções que, fazendo parte do espírito humano, descrevem as suas ansiedades, que pouco a pouco se vão sedimentando nos nossos hábitos de viver e interpretar o mundo.

Disse Oswald Spengler que a alma de um povo se exprime pelo modo como se abre à realidade. Para se explicar, utiliza o símbolo arquitectónico da janela que, por si, denuncia o alcance do espaço natural e da perspectiva. Desde o românico, ao gótico e à renascença, revela o homem o íntimo ver do espaço, aquele ver íntimo do horizonte, que nas suas qualidades e atributos se abrem à nossa alma.

A perspectiva, e digo-o com todas as consequências que vão desde o visual de Leonardo da Vinci até Husserl ou Merleau-Ponty, implica sempre a estrutura com que nos familiarizamos com o mundo e captamos a realidade. Diríamos que a janela é a estrutura do nosso ver psicológico que depois se manifesta no espaço da nossa imaginação. Ela move os mistérios anímicos da transparência, diferencia as qualidades da captação do nosso discurso e do nosso alargamento ao mundo.

Neste caso, a janela estaria para o mundo, como a estrutura do nosso ver para a realidade. Digamos que Spengler queria dizer que captar um horizonte é captar uma ideia; a janela é, pois, na alma dos povos, não só a delimitação do espaço dos nossos sentidos, como também a profundidade de uma abertura nossa à natureza e ao mundo.

Hoje, nos tempos que vão correndo, estamos rodeados e saturados de factos culturais, que resultam, todos eles, em conjunto, de uma socialização, ou seja, de uma banalização da qualidade. Eles pertencem a uma mesma organizada promiscuidade de perspectiva. É através da banalização dos bens materiais que a cultura se torna global. Reparemos que não é um processo natural de assimilação, mas que se trata, antes, de aceitar uma mentalidade igual, para uma globalidade geral, até porque as formas industriais não permitem as diferenças.

É com esta aceitação que se passa à igualdade dos bens éticos e estéticos dos homens e das almas. Nesta base de comunicabilidade, constituímos até um saber, muito próprio e prestigiante, pela qual vemos tantas pessoas, bem simplórias no fundo, regozijarem-se de orgulho pelas novas oportunidades que o sistema político lhes oferece!

O que fica, então, de uma cultura autêntica? O que interessa para a cultura é o que vive, como in-temporal dentro da nossa temporalidade vivencial. O que interessa, são os conteúdos verdadeiros das épocas, cujo sentido nós normalizamos e industrializamos para o consumo estulto e lerdo do senso comum. A história da cultura não é um almanaque de factos, é antes uma poderosa presença viva que sentimos e pressentimos dentro de uma memória persistente e que, dos tempos esquecidos, muitas vezes nos acorda, como um renascimento, dos nossos antigos e já passados sonhos…

Mas que intemporal é este? O intemporal, na cultura, é precisamente o que marca a diferença do (in) que está dentro de nós, como um tempo singular e único, que nós temos o direito a haver mais tarde, para além do tempo planificado e medido, que se inscreve no universo programado do nosso diálogo sempre subserviente e culturalista.

Lembramo-nos, a propósito, de um livro que vem comparar as vantagens verdadeiras do belo, no seu valor educativo e autêntico, com a produção industrial dos bens culturais. Passo a citar: “ As artes do belo, na verdade, têm um valor infinitamente mais educativo - vital para todos, por conseguinte - do que a técnica e a técnico-ciência. Abrangem, mais uma vez, todo o ser humano e são já desejáveis por si, ou seja, fazem e dão sentido por si mesmas, enquanto a técnica está limitada ao estatuto de meio, e é incompetente quanto aos fins que a inspiram.” “A Nova Ignorância” de Thomas de Koninck, ed.70.

Tendo chegado a esta conclusão, penso que todos devemos reflectir… Certo é, para mim, que a cultura íntima dos povos corresponde ao famoso símbolo de Spengler. A Janela entra dentro de um critério de perspectiva que a ultrapassa, tal como a lente de Galileu ultrapassou, para chegar mais longe, a alma medieval. Exprime o interior de nós mesmos, na nossa alma peregrina pelo mundo, que como presença antiga divaga ainda como fantasma nas comunidades que nós politicamente pensamos extintas. Que devo eu dizer então, deste simbolismo fecundo, que está perfeitamente prefigurado no convento de Cristo, em Tomar, onde o homem Lusitano, suporta, como Atlas, o mistério da sua correspondência universal com a natureza, nas suas formas de geração e corrupção?

Se acreditarmos nestas co-incidências simbólicas, muito temos de nos modificar e muito temos de nos transformar...

Devemos ser nós próprios, para não sermos agrupados dentro da estirpe dos negociantes culturais da Europa! Não se trata de sermos obedientes a uma programação culturalista que, de fora, nos invade, mas sim de sermos sempre inteligentes no seu uso e na escolha do seu consenso.