O dinheiro como valor de representação


Para vos falar do dinheiro como valor de representação, como principiarei a explicar-me?

Tudo o que possa dizer passa pelo crédito. Se existe um poder incontornável, é realmente o do crédito. Quem não admira o seu poder maravilhoso? Quem não reconhecerá a larga parte que lhe cabe do prodigioso desenvolvimento económico da época actual?

No entanto, subsiste sempre uma antiga divergência de opiniões ligando-se à dimensão e funcionamento do crédito, que de tempos a tempos se reproduz com uma vivacidade nova. O crédito representa a abertura ao poder criador e a faculdade de multiplicar os capitais... Outros economistas não são tão optimistas. Porém, o certo é que só o crédito permite sair do círculo vicioso de quem precisa de dinheiro para começar a trabalhar e de ter someçado a traballhar para possuir o produto do seu trabalho, ao beneficiar, por sua vez, a sociedadade com o produto do mesmo.

É o crédito que permite ultrapassar este círculo vicioso! É a ele que devemos o dinheiro, que é o agente fundamental no âmbito das transacções. E o que é a Moeda?

A moeda é uma mercadoria. Com efeito, é o instrumento que, nas trocas, serve de medida, apenas consensualmente, de equivalência - disse 'consensualmente' porque nunca sabemos o preço real da moeda, se bem que saibamos o preço do produto pela experiência do mercado. Mesmo assim, e muitas vezes ainda, o preço até pode estar mais na cabeça do comprador do que na do vendedor. Em suma, na verdade, do preço do dinheiro, ou do valor da moeda, há, desde logo, um certo e irresistível sentido de especulação.

Só por isso, o dinheiro é a mercadoria por excelência, que se troca por todas as mercadorias.

Todas as nações civilizadas, antigas ou nodernas, sem sabermnos quando nem porquê, e a consenso das circunstâncias, elegeram os metais preciosos - ouro e prata – como os intermediários perpétuos mais perfeitos e mais aptos para garantia da credibilidade em todas em trocas. Estes (ouro e prata), têm as qualidades mais admiráveis e mais próprias. Senão, vejamos: o ouro quase nunca é susceptivel de uma desvalorização. Não é oxidável pelo ar e este, por sua vez, dificilmente ataca a prata pura. Em princípio, é um ideal de representação.

O ouro é o eixo do valor com o qual nunca se brinca, e cada vez menos podemos ter com as “pratas da casa” uma afectiva e desleixada correspondência. É, pois, em função destes metais que todas as outra moedas passam a representar-se. Mas o que pretendo por representação?

Tal como o título que dei a este escrito, pretendo aqui uma interrogação, permanentemente filosófica , mas que a realidade do mundo do dinheiro, com cobardia, ignora e cuja ética não assume.

Porque o dinheiro que ela representa está a ignorar outra capacidade em si ou uma outra coisa à qual se substitui no exercício desse direito de valor. O dinheiro parece pensado a partir de uma disposição e de uma disponibilidade inata para representar o não-apresentado. Não apresenta, só se representa.

Característico episódio que não podemos deixar em claro é aquele John Law protagonizado no séc. XVIII pelo escocês John Law. Law teve a ideia de fazer a proposta de criar um banco central, capaz de aumentar o dinheiro do Estado mediante o uso do crédito. O Duque de Orleans primeiramente autorizou só um banco privado, que seria o banco geral. E as acções em que se dividiu o capital inicial poderiam pagar-se em moeda metálica ou com participações de dívida pública.

A função mais original deste banco era a captação do dinheiro publico, a troco de acçoes bancárias susceptíveis de serem pagas em moedas de ouro e prata. O novo papel moeda rápidamente se popularizou. Todos estavam crédulos de que as letras podiam, em qualquer ocasião conveniente, ser apresentada ao credor, e trocadas pelo respectivo valor em ouro. E, assim, os comerciante aceitaram confiadamente a substituição progressiva da moeda metalica por papel.

Duque de OrleãsSucedeu então um episódio pitoresco – um dia, o príncipe de Conti, desconfiado, enviou ao Banco Real três carruagens repletas de acções, para que as trocassem por moedas de ouro ou de prata. Mas, contra vontade sua, resignou-se a só reaver um terço!

Estes sinais de perigo passaram a inquietar a confiança do mercado. Os accionistas quiseram recuperar o seu dinheiro em metálico – ouro e prata, é claro!

John Law propôs então um limite máximo de acções e proibiu restituir mais de trezentas libras de ouro...

Em relação ao papel moeda, tudo ficou claro sobre o que, na realidade , tinha valor!

E as acções começaram a cair a pique, e muitos accionistas se arruinaram em breves dias!

Mas isto, aconteceu por imposição de uma certa mas inexorável lógica interna dos acontecimentos. Sabemos, como verdade vulgar, que o comércio funciona porque se, por um lado, as pessoas querem vender, outras desejam certamente comprar. Agora, nestas operações de larga abrangência, a solução exige sempre o retorno do dinheiro de quem investe com o usufruto dos eventuais lucros realizados.


Bilhete de Crédito Isto é claro na lógica dos interesses - e esta dinâmica, este movimento, tem de cumprir prazos; ora, é precisamente o crédito que a sustenta, ao permitir o cumprimento desses prazos.

Consequentemente, criam-se organismos de apoio, como as companhias de seguros. E o seguro, ainda hoje famoso – o Bill of Mortality – que era uma garantia do valor creditício a receber.

Na dinâmica especulativa do negócio a representação última do dinheiro é o todo que vale a espera no tempo, e funciona sem haver dinheiro, mesmo como representação dele. O crédito é aquele valor atribuido, mas que não existe ainda materialmente e que julgamos que venha a acontecer, por cálculo ou inclinações tendenciais para determinadas operações ou investimentos.

Muitas vezes, são contas feitas que triunfam, e até podem triunfar. Outras vezes, é uma questão de audácia e de fé. O crédito é, pois, a capacidade especulativa, com garantias maiores ou menores, mais exactas ou menos exactas, para sermos financiados com o dinheiro dos agentes económicos financiadores … sem dinheiro!

Este espírito, em primeiro lugar, e até ao advento pleno da civilização industrial, gerou-se pela abrangência dos negócios comerciais - desde Veneza a Lisboa, e de Lisboa à Índia!

Para encontrarmos uma explicação económica legítima do presente pelo passado, numa primeira fase que vai até ao sé. XVIII, temos o conceito do comércio, porque foi aqui que começou a importância de Portugal na guerra do capitalismo moderno. Estes novos horizontes abriram-se para a Europa a partir da batalha de Diu, em 1509. Se os Portugueses perdessem esta batalha naval, também se teria perdido a importânca comercial dos Descobrimentos!... Jamais seria ultrapassado aquele velho eixo mercantil que dava supremacia, por um lado, a Veneza, e, por outro lado, ao Norte da Europa, nomeadamente através dos interesses da Liga Hanseática e dos burgueses da Flandres.

Obtivémos o dominio do Oceano Índico, mas também passámos a ter inimigos no Atlântico que, no simbolismos das proporções, é a porta da nossa casa para o Infinito, a Descoberta - é o nosso Oceano Natural.

É interessante que os Turcos, no Índico, nunca mais deram sinal notório, excepto em algumas influências resultantes de alianças de ocasião. Mas, o certo é que, cem anos depois, o Almirante Holandês Matalieff (1606) lutava contra as nossas Armadas.

Ora os Judeus Portugueses, quando foram para a Holanda, levaram com eles a ciência da navegação e a garantia do tratamento comercial fiável por parte dos sistemas creditícios. A expulsão dos Judeus de Portugal determinou que o eixo do comércio se deslocasse daqui para a Holanda e, depois, para a Inglaterra.

Bilhete de CréditoAliás, os Judeus Portugueses que se radicaram em Inglaterra, provenientes da Holanda, como afirma Adolfo Benarus, eram conhecidos por “the Portuguese Nation”...Não haja dúvida que esta mudança nos foi nefasta! Deixámos de ser o eixo, o que nos prejudicou como agentes de iniciativas económicas.

Tal facto, decisivo para os Holandeses, foi positivo para os Ingleses, cuja cumplicidade para com esses Judeus lhes trouxe o maior proveito. É, pois, interessante verificar o facto de Frederico Hayeck, na cerimónia da recepção do prédio Nobel da Economia de 1974, ao proferir o seu – “Discurso sobre a pretensão do conhecimento” – ter dito que o ponto chave de todo o conhecimento económico “já o haviam visto aqueles notáveis da economia moderna que foram … os escolásticos portugueses e espanhóis do século XVI”.

Muito mais para além do que é oficial e conhecido, qual será, então, a verdade que a Ciência Económica terá para dizer???

Quanto a mim, só posso sugerir que façam um ligeiro exercício de imaginação a partir do sistema de crédito, que passou a ser tomado como forma de negócio universal, pela globalização do comércio. Pensem, depois, na amplificação e na multiplicação deste problema, que mais importante se tornou ainda, a partir da civilização industrial, em que, para além do comércio de bens naturais, surge um tipo de indústria assente em modelos universalmente aceites, que amplia o comércio para outros bens, artificiais, como novos produtos de um novo mercado.

Diz, absorvendo o sentido da minha afirmação, o economista Maurice Allais, numa série de artigos no jornal “Le Figaro” datados de 12, 19 e 26 de Outubro de 1998. “Quer se trate de especulação sobre as moedas, ou sobre acções ou subprodutos derivados, o mundo tornou-se num vasto Casino, com regras de jogo, com mesas de jogo espalhadas em todas as latitudes e longitudes. Por todo o mundo, a especulação é favorecida pela concessão de créditos, uma vez que é possível comprar sem pagar, e vender sem deter.”

Maurice Allais, lembremos, faleceu em 2010, ignorado. Foi prémio Nobel da Economia em 1998.