in «Artes e Letras», D.N. 13/06/1968 AnoXIII nº693

Platão e os Cavaleiros do Amor

Luís Furtado

Para além do interesse que nos desperta como tradução exemplar feita por um espírito talentoso para a filosofia, o diálogo «O Banquete», recentemente saído a público, oferece-nos ainda um estudo sobre a perspectiva portuguesa de Platão (Coimbra, 1968) devido a Pinharanda Gomes.

Com base no tema do diálogo refere-se uma esclarecedora síntese a vários escritos que na literatura portuguesa trataram do problema do amor. Sempre fiel à valia dos documentos históricos, vinca as possíveis influências de ordem mística que a nossa literatura foi haurir ao transcendente idealismo platónico.

Por fidelidade intrínseca ao método de investigação adoptado, para lhe conceder uma unidade de sentido e de entendimento, breve referência faz aos nossos cancioneiros, pois não se detém na análise da poesia metafórica e simbólica dos nossos travoadores. Com efeito, todos o reconhecem, a linguagem passional possui uma retórica ambígua por excelência, cujo sentido e hermenêutica ultrapassam a análise positiva dos documentos assim como a prudente exegese dos críticos.

Se Pinharanda Gomes se tivesse seduzido por essa interpretação deveria certamente alterar a ideia de misticismo, e integrá-la numa dinâmica onde a ascese de renúncia da linguagem mística se confunde na ambivalência da linguagem do amor, como proveniente de um fundo criador comum. Com efeito, nessa época, observamos que a sociedade oscilava entre preconceitos de ordem física e metafísica e como dever moral optava pelo amor como imperativo categórico, uma visão heroicista e unilateral do espírito.

Com o advento do Cristianismo importa já compreender o homem não pelos seus vínculos afectivos com o mundo imperfeito, mas por suas relações com Deus. Os sentimentos humanos são bem limitados, e como que aspiram à perfeição de ir mais além no seu sentido imediato e fugazmente vivido. Esta dialéctica é traduzida como uma tensão constante entre a esfera dos sentidos e a esfera da liberdade!

No entanto, como fundo psicológico, subjaz necessáriamente uma fidelidade ao passado, na qual se retoma e continua o ritmo da vida criadora e se prosseguem as formas culturais do mundo antigo!

Por influência Islâmica ou Hebraica, Céltica ou Helénica, encontram-se diferenças de explicação religiosa e metafisica, naquela esfera afectiva onde os sentimentos se circunscreverem. E na alma singular lateja surdamente esse mistério que parece tomar consciência de si próprio sempre que aflora aos lábios dos poetas. Devemos, pois, procurar seguir, para além das configurações e expressões culturais, o caminho certo até à sua comum origem.

Por isso mesmo, Denys de Rougement ou o crítico dinamarquês Waldemar Wedel viram no trovadorismo, nas suas raízes mais profundas, o resplendor da vida da antiguidade! Tal tese foi também expressivamente defendida por Sampaio Bruno, no livro póstumo «Os Cavaleiros do Amor», publicado por Joel Serrão.

A mística ganha assim o verdadeiro sentido etimológico de Muthos (mito ou mistério) e dilata-se na hermenêutica das imagens e dos símbolos até às fontes originárias mais antigas.

Será legítimo pensar que este facto se deu entre nós? Tomemos o testemunho de Fidelino de Figueiredo. Na sua «História Literária de Portugal» afirma que «a nossa literatura é mística não somente por descrever os fenómenos místicos do espírito, visões e revelações, mas também por atribuir um aspecto alógico à vida e ao mundo, em virtude das interferências contínuas do sobrenatural».

Nesta atitude de estesia toda a natureza se embebe de mistério, o que permite à imaginação preencher de formas abstractas e significantes, os fenómenos meramente sensíveis. Como no «Nobiliário do Conde D. Pedro»; o símbolo e a imagem, o lendário e o histórico, caminham de mãos dadas com o mesmo grau de veracidade.


Ao fundo provençal da poética da nossa Idade Média também Fidelino de Figueiredo se refere, quando afirma que tendo a Provença incendiado em longínquas terras reflexos criadores, «em nenhuma esses reflexos foram tão poderosos como no longínquo Portugal».

Recordemos, a propósito, certa e conhecida cantiga do Rei D. Dinis. «Querer eu em maneira provençal fazer agora um cantar de Amor».

Com todos estes elementos heterogéneos de mistério a alimentar a inspiração dos poetas, sob o véu uniforme e condicionante da ortodoxia Cristã, todo o fenómeno tende, mediante um simbolizar dinâmico, a valorizar-se, quer integrando-se harmoniosamente no ritmo da natureza, quer ao afirmar-se como modo de vivência verdadeira. A poesia amorosa procura o trânsito incessante do Eros para o Agape, pois tudo se integra no imenso oceano da vida, nessa energia divina que harmoniza entre si aquilo que é aparentemente irredutível ou sensualmente contrastante.

Como insinuou Aristóteles, o prazer ou a dor podem expressar uma promoção ou uma inibição da vida. Se não tivermos em conta a doutrina de um amor divino que tudo penetra, perdemos talvez a consciência dinâmica do Amor, ao enganarmos as chamadas da nossa vida afectiva, pois não vemos que o nosso sistema de advertências mentais se refere meramente a um complexo orgânico de uma actividade vital que se despreza e que deve ser inteligentemente conduzida ou integrada no seu sentido transcendente e verdadeiro.

As cantigas de amor prolongam a sua dinâmica transformadora até às cantigas de Santa Maria. Por essa indistinção de limites entre o sagrado e o profano no «Colirium Fidei Adversus Haereses», a poesia de Afonso Geraldes de Montemor, autor de umas cantigas de Santa Maria foi por Frei Alvaro Pais anatemizada como herética.

A natureza, porta de entrada e unificação com a vida cósmica, assumia as formas mais espiritualizadas e mais afastadas do determinismo da matéria, que no culto mariânico se representavam na sua mais transcendente dignidade.

O autor deste estudo não deixou de verificar que a Virgem era a suave medianeira entre o céu e a terra, aquela que ouvia a prece suplicante que transmitia ao Senhor, indicando em seguida: «E há até quem veja nesta concepção religiosa, transferida para a vida social, a razão profunda do trovadorismo, o seu carácter panegírico, o motivo, enfim, por que o trovador pedia à Senhora e não, como era natural, ao Senhor».

Com efeito, todo este ritmo interiormente vivido declinava na nobre galanteria do amor cortês, na elevada veneração da mulher, na cavaleiresca humilhação viril ante a sua delicada beleza e debilidade.

Afirmou Pinharanda Gomes que todas as obras escritas sobre o amor estavam repassadas de platonismo. A teoria platónica apela para a contemplação passiva da Ideia onde, perenes e imutáveis, persistem os valores eternos da sabedoria sem limite e da beleza incorruptível.

Na mística portuguesa, no entanto, há um harmonioso e progressivo movimento do profano para o sagrado... Não se olha somente a a abstracção do amor... Este é a essência que anima as formas sensíveis numa afirmação confiante da síntese final do todo na ideia em que a matéria se assume e pela qual se diviniza!

No entanto, pela incessante alquimia de rituais inferiores que notamos através de toda a poesia trovadoresca, julgamos poder afirmar que permanece um platonismo que se pode exprimir escatológicamente numa tendência metafísico-monista dos fenómenos de unificação afectiva.

Se o filosofema mais perfeito é aquele que dinâmicamente consegue penetrar no quadro de um monismo abstracto, o pensamento platónico facultaria os degraus necessários para esta tendência superadora se assumir num monismo abstraccionista. Através das imagens e dos mitologismos platónicos fàcilmente se inseriam por simpatia outros tantos símbolos, outras tantas imagens e mitos de fundo cultural heterogéneo, que figuravam como conteúdo heterodoxo no seio da mais severa ortodoxia.

Por isso mesmo, o platonismo persiste mas, na maior parte dos casos, não como doutrina. Persiste, sim, como aquele necessário fundamento psicológico que exprime uma ansiosa expectativa teológica.

Quanto a nós, Pinharanda Gomes foi intérprete dessa ansiosa atitude psicológica quando unificou duas expressões distintas, duas correntes de misticismo, numa síntese de doutrina fiel ao pensamento de Platão.

Dois modos distintos de visão mística, mas dois caminhos profundamente sinceros e onticamente verdadeiros, que convinha serem de novo sèriamente meditados.~Se tal acontecesse, muito ganhariam em nobreza e espírito tantos romancistas e poetas cujas obras cultivam a humildade ínfima do amor sem sentido, da emoção sem esperança e dos sentimento sem poesia.