Revista Democracia e Liberdade

nº42/43 Julho/Dezembro de 1987

«O Humanismo de Leonardo Coimbra»

Pode o discurso humano, históricamente instaurado, fundar uma autêntica razão universal?

O humanismo acredita que a razão humana nunca é isolada ou impermeável. Através do diálogo entre o sujeito e os outros, pode resultar uma coerência de fraterno e solidário entendimento! Acontece que esta coerência é, contudo, posta em causa quando se trata de construir a urgente objectividade do quotidiano humanista. Damo-nos conta de que a vontade histórica, ao conseguir no tempo o triunfo de determinados ideais, nunca porém os consolida em vitórias autênticas e definitivas... Os imperativos categóricos da sociedade, em palavras de ordem constantemente repetidas, acabam por tornar fútil, senão ridícula, a linguagem nobre dos valores humanos.

A razão só instaura, só é liame fraternal entre os seres, quando nos princípios que defende encontra a ressonância interior do sujeito, que é a sua verdadeira alma! É, pois, indispensável que o consenso apologético do discurso tenha uma garantia intimamente vivida por uma consciência revelada.



HomoViator?

Nota:
Este é o texto de apresentação da «Homo Viator», escrito por Luis Furtado em Julho de 2011.
Esta tertúlia virtual pretende dar continuidade, e um novo espaço, a uma já longa convivência e diálogo filosóficos, tradição tertuliar que acontece há mais de um século.
O que sustém esta tradição reconhece-se no que é dito pelos seus participantes; e o teor destas conversas, pela sua própria natureza, congrega os que fisicamente já desapareceram, os que nela agora mesmo falam de viva voz, e os que ainda estão para aparecer mas já foram chamados pelo seu silêncio.

E se o homem não viajasse? E se o homem estivesse sempre no mesmo lugar?

Mas o que é um lugar?

Um lugar é a nossa procura para além do mar que nos separa das ilhas maravilhosas e, noutra dimensão, se quisermos ainda, do infinito, onde a nossa alma finalmente repousa, na paz e na felicidade que lhe são próprias.



APRESENTAÇÃO


(nota: este é o texto original, ainda inédito, escrito para apresentar a revista «Escola Formal», publicada em 1976. Este texto nunca veio a público, uma vez que Luis Furtado foi substituído na direcção da revista por Orlando Vitorino e Afonso Botelho)

Sabedor do caminho percorrido por mais de vinte séculos de filosofia, poderá o leitor considerar anacrónico o nome de Escola Formal que, originado na mais nobre tradição de pensamento, parece querer animar as cinzas de uma época já morta. Essa possível atitude de reserva, filha da prudência consciente ou da ignorância estulta, ponderada foi no nosso espírito.


O Messianismo

e o filosofar Português



Já desde António Sérgio, e de outros antes dele, que tem sido profundamente desdenhado o Messianismo Português.

Este autor conseguia, na sua crença, confundir o messianismo com a expressão atrasada de uma cultura sem progresso.

Mas o que é o progresso? O progresso é apenas uma graduação no visível, que se substitui a uma graduação inteligível. O progresso é apenas uma mentalidade actual, que tem os seus contornos e os seus limites dentro das exigências do racionalismo.


A ideia de Pátria



Urgente, nos tempos que vão correndo, a ideia de Pátria será, para os Portugueses divididos, a mística união necessária, o sentido missional de um Destino ainda a cumprir entre os demais povos do mundo...

(...)

Estamos certos que todas as sociedades, por mais diferentes que sejam, na medida em que se apropriam da civilização industrial terão cada vez mais dificuldade em reconhecer o pensamento e a cultura que as distingue, já que desenvolvem formas de produção tendentes a uniformizar a sua vivência quotidiana.

O destino existencial dos povos, negociado no mercado comum das ideias e dos bens de consumo, parece pois inelutávelmente depender das categorias de um materialismo económico que ideólogos proletários ou burgueses, embora em desacordo quanto à metodologia, apontam como via necessária e promissora. Entre nós, políticos há que constantes provas dão desta espécie de patriotismo quando se interrogam se Portugal é económicamente viável. Quando se aniquila o espírito, nada mais resta às Nações, como às empresas, senão estabelecer nestes termos o seu direito à existência.


Textos de Luís Furtado

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Budismo ou Aristotelismo?

O que é o Budismo? Ou, para nossa mais modesta compreensão, o que é o estado búdico? O que é ser Buda?

Recordo-me, em concentração respeitosa, à qual não falta uma certa saudade, dos tempos mais antigos em que eu, na companhia de outros mestres que já não estão entre nós, pensava estes temas que, aliás, preenchiam a minha alma, na aurora ainda imatura do seu pensar filosófico.

Falava então eu para o Álvaro Ribeiro de Rudolf Steiner, e da relação que se devia fazer, bem distinta, entre a teosofia e a antroposofia. Penso eu que agora essa questão, de novo, vai acontecendo entre nós. E que todas as religiões têm tendência, não para uma síntese, mas para uma síncrese, ou seja, para uma mistura!


Platão e os Cavaleiros do Amor

Para além do interesse que nos desperta como tradução exemplar feita por um espírito talentoso para a filosofia, o diálogo «O Banquete», recentemente saído a público, oferece-nos ainda um estudo sobre a perspectiva portuguesa de Platão (Coimbra, 1968) devido a Pinharanda Gomes.

Com base no tema do diálogo refere-se uma esclarecedora síntese a vários escritos que na literatura portuguesa trataram do problema do amor. Sempre fiel à valia dos documentos históricos, vinca as possíveis influências de ordem mística que a nossa literatura foi haurir ao transcendente idealismo platónico.


John Law

O dinheiro como valor de representação

Para vos falar do dinheiro como valor de representação, como principiarei a explicar-me?

Tudo o que possa dizer passa pelo crédito. Se existe um poder incontornável, é realmente o do crédito. Quem não admira o seu poder maravilhoso? Quem não reconhecerá a larga parte que lhe cabe do prodigioso desenvolvimento económico da época actual?

No entanto, subsiste sempre uma antiga divergência de opiniões ligando-se à dimensão e funcionamento do crédito, que de tempos a tempos se reproduz com uma vivacidade nova. O crédito representa a abertura ao poder criador e à faculdade de multiplicar os capitais... Outros economistas não são tão optimistas. Porém, o certo é que só o crédito permite sair do círculo vicioso de quem precisa de dinheiro para começar a trabalhar e de ter someçado a traballhar para possuir o produto do seu trabalho, ao beneficiar, por sua vez, a sociedadade com o produto do mesmo.


Convento de Tomar

A Janela

Nunca a humanidade esteve tão mergulhada no mundo da cultura! Hoje, todos somos cultos só porque nos civilizamos, só porque julgamos que o progresso, em si mesmo, se encarregará de fazer por nós mais do que aquilo que representa o nosso desempenho no viver afadigado e quotidiano. Escusamos até de pensar! Tão somente pensamos no modo melhor e mais útil de levar a nossa vida. Tudo o que nos rodeia passa, assim, a ser displicentemente aceite como facto cultural.

Na verdade, todos os factos comparticipam de uma cumplicidade de modelos ou de acções que, fazendo parte do espírito humano, descrevem as suas ansiedades, que pouco a pouco se vão sedimentando nos nossos hábitos de viver e interpretar o mundo.


A
barca

do Faraó

Agora que estou à beira do mar Oceano, nesta praia da Lusitânia, pressinto a invocação de um outro espaço que me transcende. Vai despertando o que está adormecido no repouso antigo e consensual dos meus sentidos. Digamos que é um espaço novo, em que a luz do Sol no horizonte do visível se prolonga. Acordo lentamente no meu silêncio e ouço uma voz que é um murmúrio, em tempo e movimento, que desde o ritmo das ondas vem até mim. E que ascende ao mar alto que é feito da substância dos meus antigos sonhos! Como me prolongo, desde esta praia em que me encontro, com as ondas, ventos e marés até me reconhecer no mais longinquo horizonte do meu imaginário!


Fala-se hoje
de
Escola Formal?

(...) O que teria, então, sido essa outra Escola Formal? Isso é a questão que se coloca hoje a todos aqueles que prosseguem, sem desfalecimento e, a maior parte das vezes, sem reconhecimento, um modelo de entendimento que consiga ser transmitido a todos os que pensam sobre o ainda problema da filosofia portuguesa…

É que não é somente Aristóteles – uma lógica natural – nem uma lógica transcendental, de Kant que, no fundo, é o mesmo que a lógica matemática do Lambert…

Trata-se, sim, daquele equilíbrio que se possa ter, dentro da condição natural do homem em relação aos mistérios humanos e, também com o homem e através do homem, aos mistérios divinos. Mas, para isto, é necessário o nosso esforço. Não o esforço do trabalho, nem tampouco o elogio do ócio, mas é e sempre será da ciência do equilíbrio consciente do homem com a sua própria interioridade. Só aí podemos descobrir o que é verdadeiramente humano e a partir daí podemos continuar a nossa jornada para o infinito daquilo que é a própria humanidade. Eu, parafraseando Aristóteles, sei o que é o Homem, mas não sei quem é o Homem.