EÇA DE QUEIRÓS

Eça de Queirós não foi apenas um romancista. Foi, também, um doutrinador.

Tendo convivido em Coimbra com Antero de Quental, a quem mais tarde, numa página célebre, chamou «O Santo», profundamente influenciado pela corrente, que era nova no seu tempo, do realismo francês, formou, com a «geração de 70», um grupo que nas famosas «conferências do Casino» procurou demolir o que os da sua geração consideravam «fictício» e «postiço» no constitucionalismo romântico e liberal do seu tempo, romantismo português que, se conhecia muito bem os românticos franceses e o espírito francês da primeira metade do século XIX, de algum modo mal conhecia, ou quase desconhecia, o romantismo alemão, de que a figura central é Goethe, o seu expoente mais alto e mais representativo.

Já em Goethe, assim como no nosso Castilho, há uma relação e um diálogo entre o romantismo e o classicismo, já que é próprio da juventude romântica adequar-se, na maturidade, a um classicismo bebido na cultura e na tradição antiga, que é a tradição de sempre.

Algo de semelhante aconteceu com Eça de Queirós, que, para lá das irreverências e das ironias da juventude, tendo amadurecido e tendo meditado, e estando, aliás, afastado do seu país pela vida diplomata, o que lhe permitia, por vezes, julgar com mais acerto, e sendo homem civilizado e perfeitamente europeu na sua educação e qualidade literária, regressou, nas suas últimas obras, a um sentido de tradicionalismo Português, que se espelha, admiravelmente, em livros como «A ilustre casa de Ramires», «A Cidade e as Serras» e as «Vidas dos Santos».

Efectivamente, a tradição Portuguesa compõe-se de uma constante humanista que, por exemplo, e com grande brilho encontramos na corte de D. Manuel I, e duma constante específicamente medieval, de que os «Cronicões» são, talvez, o testemunho mais significante.

 

 Foi neles que Eça foi beber, a grandes haustos, toda a idealidade e toda a espiritualidade concreta, a forma e a ideia, o estilo e o sentido que empregou nessas admiráveis biografias dos «Santos». Estilista prodigioso e fascinante, Eça de Queirós veio de Coimbra para Lisboa fazer arte e literatura na sequência e na continuidade de uma tradição que já remonta a Luís de Camões.

Realmente, se Coimbra foi para Eça, assim como para Camões, a «Universidade», Lisboa foi a «Capital», e descendo e subindo o Chiado, parando para fumar o seu charuto à porta da «Havaneza», Eça de Queirós cultivou esse «portuguesismo» e esse «europeismo» que tão bem se casam na sua obra e fizeram dele o romancista de sucessivas gerações de portugueses e brasileiros.

Eça é maior do que Stendhal e devemos ligar o seu nome ao de Balzac. Assim como Honoré de Balzac escreveu a comédia da humanidade parisiense, Eça escreveu a crónica da vida lisboeta, com um encanto, um interesse e uma fascinação que ainda hoje nos prendem.

Tal como Balzac, seu mestre, Eça teve por ideal a vida aristocrática, e ao representar nos seus últimos romances o que chamou «a brandura dos nossos costumes», a doçura da vida portuguesa, a santidade deste povo maravilhoso e admirável no seio do qual nascemos, de algum modo teve no seu pensamento as ideias do célebre «Prefácio à Comédia Humana» de Balzac, onde o grande romancista francês manifestou as bases do seu tradicionalismo.

Honoré de Balzac inspirou-se, para o escrever, na sublime figura de Dante, e é este que, com a sua «Monarquia» - recentemente traduzida em Português (1) - em verdade representa e exprime o ideal aristocrático e espiritualista.

(1) «Monarquia» de Dante, tradução de Carlos Eduardo de Soveral, Guimarães Editores.

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