A PROPÓSITO DE HEIDEGGER E HOLDERLIN

O nosso meio intelectual talvez não tenha reconhecido ainda que a cultura alemã é muito mais importante no concerto dos países civilizados e cultos do que a cultura francesa. Cultura brilhante, talvez demasiado facilmente brilhante, e cultura sobretudo literária, à cultura francesa - contra a qual nada temos, a não ser a intenção de a situar no seu merecido lugar entre as culturas europeias - falta aquela rigorosa fundamentação do pensamento bebida nas mais verídicas fontes, como a tem a cultura alemã, assente nas suas universidades e construída pelos seus mais notáveis filósofos e poetas.

Os Românticos e os pós-Românticos Alemães formam uma plêiade ímpar na cultura europeia, que não tem igual depois dos fenómenos representativos da Idade Média e do Renascença, e que bebe a sua ideia e a sua idealidade na mais verídica cultura antiga, plena de beleza e de verdade.

É preciso, com efeito, fazer como Dante e Goethe fizeram, isto é, ir aos Gregos e à Revelação Bíblica haurir as águas da melhor inspiração intelectual e espiritual.

Entre esse grandes Alemães, tais como Goethe, Schiller, Novalis, Schlegel, Hartman, Herder, Holderlin, Schopenhauer, Nietzsche, Fichte, Schelling, Hegel, houve um íntimo diálogo entre a poesia e a filosofia, entre os poetas e os filósofos,  de modo que os seus poetas foram também muito filósofos, e seus filósofos compreenderam perfeitamente a poesia.

 

Um diálogo entre a nossa «tradição portuguesa» - cujo expoente máximo é o Infante D. Henrique - e esses Alemães é possível porque eles também de algum modo procuraram essa «Índia Nova de que são feitos os sonhos», no dizer admirável de Fernando Pessoa, Índia que não está no mapa, e que os mitólogos situam eruditamente na perdida Atlântida, de que nós, nas Ilhas e na Península, somos ainda o remanescente.

Heidegger, um dos últimos filósofos Alemães de alta qualidade, fazendo sua toda a compreensão da idealidade romântica e grega, interpreta Holderling, esse poeta que enlouqueceu por querer encontrar o Céu.

No livro que lhe dedicou, agudo e penetrante é o estudo que Heidegger faz do poeta, esse poeta louco de Dionysus. Tal como Nietzsche, enlouqueceu pelo deus que, na mítica grega, corresponde a Cristo, porque é o Deus sacrificado.

Esta correlação e reciprocidade entre Dionysus e Cristo é fundamental e importantíssima para a nova cultura, e a ela voltaremos brevemente, nas colunas desta página literária.

 

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