INTERPRETAÇÃO DE

SAMPAIO BRUN0

Interpretando livremente o grande portuense no profundo sentido da sua obra, parece-nos que em Sampaio Bruno o homem se reconhece, a partir de dado momento, como um ser espiritual em evolução num mundo plástico e povoado de seres espirituais («Ideia de Deus», pág. 178). Este momento consiste no acesso a uma relação psicológica superior, no plano da qual a experiência filosófica é possível, à qual cada um e todos estão naturalmente destinados.

Essa será a passagem à intelectualidade.

Na visão de que tais seres espirituais existem em movimento numa dinâmica que tem por fim a plenitude do ser, na visão de que cada ser espiritual, como espírito individuado ou indivíduo, progride da diminuição em que coexiste para a própria infinitude em que é capaz de progressivamente se conceber, na visão de que a evolução manifesta uma dialéctica íntima à divindade, as antinomias de Kant desaparecem e o pensador ascende à ideia de Deus («Ideia de Deus», pág. 464).

A passagem da sentimentalidade à intelectualidade pela catarse que os sentimentos produzem, e o exercício intelectual que promove a racionalidade, será um desenvolvimento interior, em cada um, para além de seus limites, uma qualidade mental ganha pela dilatação da experiência subjectiva, e sendo interior, invisível, que se prolongará do modo de pensar ao modo de agir - e neste se manifesta em concreto. Sampaio Bruno atribui importância transcendente ao agir, sobre qualquer circunstancialidade, do indivíduo, porque para ele o pensar só é efectivo se garantido no mundo real e imediato por procedimento concorde. 

 

Com efeito, no filósofo português, a história move-se para a plenitude do ser em cada um e em todos («Ideia de Deus», pág. 460) para a racionalidade do indivíduo, que só nela atinge  a sua individualidade perfeita, e assim entendemos a sua asserção de que «o fim do homem neste mundo é libertar-se a si, libertando os outros seres».

No «Brasil Mental» (pág. 436) encontramos a confirmação de que «a humanidade não nasceu livre», procede de tiranias iniciais, quais sejam toda a sujeição aos humanos limites, à natural necessidade, à heterogeneidade do espírito; se a evolução aperfeiçoa, o princípio que de fora nos comanda é vencido, e posteriormente nasce a liberdade, que outra coisa não é senão a racionalidade no pensar e no agir.

Analisando as figuras em que a relação do indivíduo para com o grupo se pode apresentar («Brasil Mental», pág. 436) Sampaio Bruno desvenda este facto dinâmico de que as organizações sociais e as instituições se deslocam da pressão externa para a liberdade interna, do governo exterior para o governo interior, isto é, de que os grupos humanos evoluem para uma comunidade de seres espirituais. A melhor acção do homem estará, no nível político, em ajudar esta evolução.

Prevê contudo o filósofo, na mesma página, as dificuldades existentes na relação entre a razão teórica e a razão prática, as dificuldades que surgem perante a necessidade do comportamento imediato e a manifesta lentidão do desenvolvimento espiritual; e resolve-as em que cada um se determine uma lei moral ou razão ética, dentro da qual seja consistente, a partir de cuja particularidade possa enfim atingir, ao mesmo tempo que encontra em si, o universal.

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