A propósito de René Guénon


René Guénon é, decerto, o mais importante intelectual e pensador, diremos, exactamente, «metafísico», do tradicionalismo ocidental. Na sua vasta e notável obra, estabelece o contacto, a ponte e a ligação entre o tradicionalismo ocidental e o tradicionalismo oriental, demonstrando, mediante pacientes, penetrantes e agudíssimas escavações nas legendas, nos mitos e nos símbolos, quer ocidentais, quer orientais, que uma mesma e única tradição existe, embora diversamente repartida pelos lugares e pelas épocas. A essa tradição chamou «primordial» e, dentro da linha que nos é própria e peculiar, podemos afirmar ser aquela tradição que inspirou e se exprime e manifesta nos «textos bíblicos».

René Guénon fez como corolário do primado universal e inelutavelmente exclusivo dessa tradição a diagnose e a crítica do mundo moderno, deste fim de ciclo histórico dentro do qual vivemos, mundo que parece, a todo o custo, encaminhar-se para o desastre e chamou a nossa atenção para a importantíssima necessidade de salvaguardar a herança espiritual da nossa civilização, e para a necessidade de haver uma «elite», um «escol» que, retomando nas suas mãos todo o domínio daqueles princípios espirituais a que René Guénon chama, rigorosamente, «metafísicos puros», enfrentem a reconstrução do mundo no seu mais próximo futuro.
Acentuou René Guénon que é no Ocidente - em Aristóteles e São Tomás de Aquino - que se encontra a mais verídica «metafísica», que ele entende como o conhecimento dos autênticos e próprios princípios espirituais que regem o mundo, a vida, a história e o seu processo dentro do plano providencialista, até, enfim, à sua consumação.


Estudando e conotando, em paralelo e em recíproca ligação, a metafísica oriental, René Guénon atingiu e realizou uma síntese fundamental e decisiva dos primeiros princípios metafísicos, que se exprime em obras de profundo e altíssimo valor como, por exemplo, o estudo intitulado «Les états multiples de l'être».

Em verdade, a metafísica, no sentido guenoniano, como ciência e sabedoria do ser e do espírito, é indispensável para o conhecimento das verdades primeiras e últimas, e sendo do mais difícil acesso, pois de algum modo exige, para o seu pleno conhecimento, uma «santificação» e uma «iluminação» interiores, identifica-se com a «teologia», como ciência dos primeiros princípios e das primeiras verdades, e com ela constitui um todo e uma síntese pura, harmónoca e perfeita. A ela cabe, rigorosamente, o nome de «sophia», como conhecimento puro, dentro da identidade escolástica entre verdade do pensamento e verdade do ser - «sophia» para a qual a filosofia, no seu sentido moderno de atitude humana, é apenas um ponto de vista limitado e particular, uma atitude e não o tecto, que a «sophia» enquanto tal, representa.

Não podemos deixar de salientar a importância que teria, para a cultura portuguesa, a instituição de um grupo de «Estudos René Guénon». A criação desse grupo, profunda e atentamente dedicado à investigação da «metafísica pura» nos seus princípios fundamentais e firmamentais, e à escavação, nos seus múltiplos e universais aspectos, da «Tradição Primordial», como René Guénon designou a tradição inspiradora dos versículos do «Génesis», seria do mais alto interesse filosófico, sófico e pístico, e daria, certamente, um impulso notabilíssimo à cultura teológico-metafísica portuguesa.