O mito de Diónisos


Num artigo recente referimo-nos ao estudo que o filósofo Heidegger escreveu sobre o poeta Holderlin, esse poeta louco de Diónisos, que ombreia com Nietzsche nessa singularidade, já que este foi o filósofo louco de Diónisos. Proponho-me agora abordar a relação entre Diónisos e Cristo, já que Diónisos é, na mítica grega, o deus que corresponde ao deus crucificado e, assim, que é crucificado na alma do mundo, ou melhor, na alma da terra, pois tal é a característica própria de Diónisos.

A loucura de um Holderlin ou de um Nietzsche - loucura mística, aliás - compreende-se porque o Diónisos primitivo é aquele deus que ergue as potências da terra até ao êxtase e à alegria e, assim, rrepresenta o que há de fulguração e arrebatamento das forças do Inconsciente até ao delírio e ao sublime da sua transcendentalização - onde se assumem, enfim, como lucidez e como plenitude consciente da inconsciência.

Esse é o sentido do Diónisos primitivo, e Nietzsche o estudou admiravelmente na sua «Origem da Tragédia». Entre os gregos, tal deus primitivo tinha o nome de Diónisos Zagreus. De um dos seus mitos vem-nos a legenda que diz que Diónisos foi despedaçado e comido pelas bacantes, que representam as forças da terra, para depois ressuscitar. É nesta legenda que se vê o processo do deus que se solve no inconsciente - ao ser devorado pelas bacantes - para se reassumir consciente, na sua ressurreição.

Há, na verdade, uma aproximação íntima entre Diónisos e Cristo; quem a apontou foi, por exemplo, Fernando Pessoa, no seu ensaio sobre os três ideiais, respectivamente o helénico, o cristão e o búdico, fazendo ver que o ideal dionísiaco e o ideal cristão são as faces exterior e interior, côncava e convexa, da mesma curva.


Com efeito, Cristo desce a encarnar no mundo e na terra, e depois de ter descido infinitamente, ascende infinitamente. Este é o sentido , do ponto de vista do Pai, do fenómeno Crístico, que é o acontecimento interior, do tempo, a que corresponde a saída de Diónisos da inconsciência da terra e a sua ascensão a partir dela. Diónisos encontra-se com Cristo e, de algum modo, um mito ultrapassa o outro, e neste momento contemplaremos a mais pura e última intição do mito de Diónisos, como o deus representante, e derradeiro representante, das forças extremas, primeiras e últimas, do ser enquanto manifestação e do ser enquanto ser em si.

Em verdade, Diónisos representa, primeira e ultimamente, uma união e uma soma entre o inconsciente e o consciente, entre a terra e o céu, que figura a síntese absoluta, o deus absoluto que há em tudo o que há.

Podemos lembrar, perante este mito, o deus bifronte dos romanos, Janus, que igualmente é inconsciente e consciente, macho e fêmea, e que presidiu a toda a civilização romana, assim como Diónisos, desde o primitivo Diónisos Zagreus até ao Diónisos mais puramente e uçltimamente intuído, presidiu a toda a civilização grega; e, na tradição bíblica, podemos e devemos configurar Diónisos com os primeirtos elochin, masculinos e femininos, de que falam os primeiros versículos do Génesis.

Herdeiros dos gregos e dos romanos, e da tradição dos livros sagrados bíblicos, nestes três lugares tradicionais do mito hebraico, grego e romano, encontramos a mesma ideia do primeiro e do último, do alfa e do ómega, o que confirma, visivelmente, a tese de que uma mesma tradição primordial existiu e existe diversamente repartida pelos diferentes povos, nações e tradições, expressa conforme a peculiar idiossincracia de cada povo e de cada língua