MAIMONIDES, O GIGANTE DO JUDAISMO MEDIEVAL

 

Em 1985, decorridos oitocentos e cinquenta anos após o nascimento de Maimonides, a UNESCO propôs à Comunidade Internacional que fosse celebrada esse nascimento e recordada a figura do tolerante e cosmopolita erudito Judeu, de seu nome completo Moises Ben Maïmon.

  Nascido em Códova, a 30 de Março de 1135, Maimonides morreu no Egipto a 13 de Dezembro de 1204.

O filósofo, jurista e médico Maimonides manteve um cioso respeito pela tradição Judaica que seus pais e mestres da comunidade judaica lhe transmitiram, mas sendo um homem de curiosidade insaciável e ânimo inquebrantável, não deixou de, ao mesmo tempo, estender quanto posssível os horizontes do seu conhecimento, absorvendo as vivências e as ideias fundamentais das culturas diversas que conheceu, na sequência de vários exílios a que se viu forçado.

 

 

Nascido e criado na exuberante Espanha Muçulmana, viu-se aos 13 anos perseguido pela seita fanática dos Almorávidas (em arábico « os Unitaristas », que tomaram o poder em Córdoba em 1148.

 

Perante a ameaça de uma escolha forçada entre aderir ao Islão, ou morrer, a família de Maimonides ainda suportou mais onze anos, acabando por fugir para Fez, em Marrocos. Mas também aí se sentiu a perseguição dos Almorávidas e a família Maimon fugiu para a Palestina, onde encontrou escassas condições de subsistência. Assim, pouco tempo depois, partiram para o Egipto.

Trabalhador incansável, Maimonides produziu  uma obra extensa e notável, pela qual foi justamente considerado a maior figura do Judaismo Medieval. Além de conceituado especialista no Talmude, que ordenou e enriqueceu com inúmeros comentários,  aprofundou com mestria os temas da teologia Judaica, tentando conciliar a fé e a razão. Dedicou-se também a estudar o pensamento e a exuberante cultura que, à época, emanava do mundo Islâmico, através do qual tomou conhecimento de textos e autores da Grécia Clássica, nomeadamente Aristóteles, que estudou profundamente e tentou conciliar com a Bíblia. Não espanta, assim, que a sua obra tenha exercido grande influencia em toda a Escolástica e em autores como Alberto, o Grande, São Tomás de Aquino ou Duns Escoto. Subscrevendo a tese do realismo, que veio a imperar na Escolástica, de que as Verdades Reveladas, o conhecimento humano e a Criação se ajustam e completam harmoniosamente, via na Natureza um espelho da Vontade Divina e na inteligência humana um espelho e emanação da Inteligência Divina.

 

Sem surpresa, contrariou Aristoteles quanto à sua afirmação da eternidade do Universo Físico, porque considerava o Mundo criado ex nihilo, como ensina a Bíblia. Contudo, a  sua tese filosófica mais característica e surpreendente refere-se à imortalidade, que ele considera ser, não um atributo da alma, mas uma  faculdade que se desenvolve, ou não, se conquista, ou não. Ele distingue dois tipos de inteligência, uma material e influenciada e dependente dos apetites e faculdades físicas, e uma imaterial, que se alcança através dos esforços para atingir o conhecimento do absoluto, da pura inteligência Divina, que ele identifica com o « nous poietico » da filosofia do Estagirita.

 

Foi um médico famosíssimo, que assistiu pessoalmente ao célebre Saladino, Sultão do Cairo, e os seus conhecimentos ainda hoje espantam os especialistas, pelo seu acerto e actualidade. Casou tarde e teve um só filho, Abraão, que se tornou num notável Rabi e figura eminente da intelectualidade Judaica do seu tempo.

 

As suas Obras

 

Já aos 16 anos escrevia o seu primeiro livro em Arábico, « Tratado de Terminologia Lógica ». Aos 23, iniciou uma das suas obras mais notáveis, o Kitab al-Siraj, um conjunto de comentários a um compêndio de Jurisprudencia Judaica, agrupando decisões juridicas compiladas durante vários séculos, o Mishna. Com os seus comentários eruditos, abarcando conhecimentos científicos, filosóficos, teológicos e arqueológicos, esclareceu e aprofundou os textos antigos. Mas foi na composição de alguns ensaios introdutórios á obra que nos deixou as suas teses sobre as questões filosóficas emergentes do Mishna. Num desses ensaios, apresentou a síntese da doutrina Judaica, os Artigos de Fé, que abaixo iremos analisar mais cuidadamente.

 

Aos 33 anos iniciou um trabalho de uma década, a célebre Mishneh Torah, « A Torah Revisitada », em que expôe, em Hebreu, a sistematização das Leis. Seguidamente, e durante 15 anos, trabalhou no clássico « Guia dos Preplexos », originalmente escrito também em arábico, que consistia numa exposição dos princípios e teoremas básicos da Religião e Lei Judaicas.

 

Nestas duas obras continuou a manisfestar o seu pendor de filosófo, depurando o Judaísmo das superstições e crendices, e o seu pendor científico e jurídico, conseguindo compatibilizar ciência, filosofia e religião.  Este trabalho foi, ainda durante a sua vida, traduzido para Hebreu e, posteriormente, para Latim e diversas línguas europeias.

 

Escreveu também o Livro dos Mandamentos (Sefer haMitzvat), uma compilação dos 613 mandamentos da Torah. Manteve extensa correspondência com comunidades Judaicas e eruditos, e ainda compilou diversos trabalhos em medicina, um dos quais, constituído por conselhos para manter a saúde, foi dedicado ao Sultão do Egipto e conheceu grande popularidade.

  

Voltamos agora aos acima referidos Treze Artigos da Fé, no intuito de referir também um pouco mais detalhadamente a situação do Judaismo em relação à Teologia, situação algo sui generis, se comparada com as « religiões irmãs » - o Cristianismo e o Islão.

 

Comentou Leibniz, no prefácio aos seus « Ensaios de Teodiceia »,  que anteriormente ao Cristianismo não se encontra uma teologia dogmática em qualquer das diversas práticas religiosas registadas pela história. O que encontramos nessas épocas remotas são diversos conjunto de ritos, crenças e grupos sacerdotais que determinam os elementos constituintes de cada religião, sendo que cada uma dessas religiões coincidia com a nacionalidade (ou a simples identificação tribal) do grupo étnico que sustentava e garantia esses elementos. Portanto, era o nascimento que, regra geral, ditava a religião praticada, não a profissão de fé.

 

 

 

Já com o Cristianismo e o Islão, religiões missionárias e de Fé Universal, foi absolutamente essencial definir o cerne dessa Fé e os termos precisos em que o Credo proferido pelos crentes integrasse os seus elementos fundamentais. Confrontado com diferentes povos e culturas, esse núcleo dogmático tinha de resistir à mudança, à confusão e ao exotismo das culturas estrangeiras em que se implantava, impondo-se gradualmente nas consciências dos crentes, e refutando ou contrariando as teses dos adversários ou dos ignorantes.

 

Embora o Judaísmo, na sua persistente caminhada ao longo dos milénios, antes e depois da Diáspora, tenha sofrido também de muitas dessas vicissitudes, o facto é que não formulara esse corpo dogmático sucinto que  Maimonides tentou definir, em articulação e síntese com os textos tradicionais, esses sim, um monumental espólio e fundamento da religião Judaica.

 

Ainda hoje muitos estudiosos participam na controvérsia sobre as exigências típicas do Judaísmo, ou seja, discutem se o Judaísmo exige a crença numa Dogmática, ou apenas a obediência a leis de ordem prática.

 

Mendelssohn, no seu livro «Jerusalém», defende a segunda tese - a natureza não dogmática do Judaísmo. Mas outros escreveram que esta sua tese é exagerada... Mendelssohn, segundo eles, leva a um extremo intolerável a tradicional dispersão, complexidade doutrinária e aversão aos dogmas que marcaram a história do Judaísmo, na medida em que, proclamavam, o Judaísmo assenta, em última análise, num conjunto de princípios religiosos fundamentais e irrecusáveis, que num contexto dogmatico se chama artigos de fé.

 

 

O primeiro a tentar formular esses Artigos de Fé foi Philo de Alexandria, no Egipto, onde a influência Helenísitica enriquecia e estimulava os debates e a definição de doutrinas. Os cinco Artigos de Philo são :

 

1. Deus existe e rege

2. Deus é Uno 

3. O mundo foi criado

4. A Criação é Una

5. A Providência Divina rege o Mundo

 

A iniciativa de Philo não recebeu grande aprovação e gerou acalorados debates. Outros autores, ao longo de alguns séculos, tentaram novas formulações. Mas os treze Artigos de Maimonides são os mais populares... Ainda hoje se discute qual teria sido a razão para escolher aquele número (13).

 

Segundo esses Artigos, então, o crente professa a sua fé -

 

1.   Na existência de Deus

2.   Na Sua Unicidade

3.   Na Sua Espiritualidade (imaterialidade)

4.   Na Sua Eternidade

5.   Na exclusiva adoração a Deus, único objecto de adoração

6.   Na Revelação Divina, através dos seus Profetas

7.   Na proeminência de Moisés entre os Profetas

8.   Na Lei  que foi revelada por Deus, no Sinai

9.   Na imutabilidade da Torah enquanto Lei Divina

10. Na Omnisciência de Deus sobre as acções dos Homens

11. Na retribuição

12. Na vinda do Messias

13. Na Ressureição

 

Maimonides enunciou estes Artigos quando era ainda bastante novo. Posteriormente, e ao longo da sua vida e nos numerosos textos que foi escrevendo, não voltou a referir-se a eles, o que levou alguns eruditos a concluir que Maimonides, com o tempo, veio a concluir que o princípio fundamental da fé era a crença na Unidade Divina e a proibição da idolatria. Apesar dos seus Artigos não terem recolhido aceitação universal (tem de haver sempre alguma controvérsia a decorrer no seio do Judaísmo, o que até pode ser uma consequência salutar da tradição não dogmática), acabaram por ser integrados nos livros de orações e tornaram-se conhecidos de quase todos os Judeus das escolas ortodoxas.

 

Até ao século XV vários sucessores de Maimonides (Nahmanides, Abba Mari ben Moses, Simon ben Zemah, Isaac Arama) foram reduzindo o número de artigos, até se fixarem em três :

1. Fé em Deus,

2. na Criação,

3. na Providência (retribuição, ou intervenção e Justica Divina)

 

Não deixa de ser curioso lembrar aqui um caso, o de Asher ben Jehiel, de Toledo, que ergueu a sua voz, no século XIV, para afirmar a transitoriedade dos Artigos de Fé mas que, às tantas, não resistiu a propôr mais um : que fosse artigo de Fé acreditar que o Exílio e a Diáspora constituíam uma punição pelos pecados de Israel.

 

Genéricamente, os cabalistas recusaram também estes Artigos, dada a importância atribuída ao texto sagrado e aos originais 613 artigos de Fé neles distribuídos. Mas a Cabala é um saber esotérico e antigo que, actualmente, não parece ter suficiente visibilidade para nos apercebermos do que pensam os Cabalistas nossos contemporâneos, se é que existem enquanto um grupo doutrinário no interior do Judaísmo. Já no Judaismo moderno que é espelhado tanto por Israel como pelas actividades das comunidades Judaicas dispersas pelo mundo, podemos constatar que existem alguns catecismos, mas a sua existência relaciona-se mais, porventura, com os aspectos práticos de receber novos prosélitos, ou para celebrações e orientação dos crentes, do que com uma necessidade ou tradição teológica fundamental. Nenhum desses catecismos foi acolhido com aprovação generalizada, acabando por restringir-se, as mais das vezes, a ganhar algum reconhecimento na área de influência do Rabi que o escreveu.

 

Esta realidade apenas confirma a enorme dificuldade da tarefa que Maimonides pretendeu levar a cabo, já lá vão oito séculos, tendo os seus Artigos ocupado, apesar de tudo, lugar de destaque  no culto, na cultura e na tradição Judaicas. Assim se percebe e se pode avaliar o prestígio alcançado pela sua imponente obra. Siga o último « link » indicado abaixo e verifique como o nome e a autoridade de Maimonides são trazidas a lume na recente edição da Bíblia pela Universidade de Jerusalém !

 

Links com mais informação interessante sobre Maimonides :

 

http://www.maimonides.org/

http://www.jewishvirtuallibrary.org/jsource/biography/Maimonides.html

http://www.newadvent.org/cathen/09540b.htm

http://www.jerusalem-crown.co.il/website_en/index.asp

 

João Seabra Botelho

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