memórias III

 

O ESTUDO E O JOGO

 

Frequentei um número considerável de instituições de ensino desde a minha escola Primária até à universidade. Estive tanto no ensino "particular" como no "oficial", designações que, depois do 25 de Abril, foram substituídas pelos termos ensino "privado" e "público", já que o Marxismo nos enxertou bem fundo essa oposição entre o "público" e o "privado". Ainda há poucas semanas, trinta anos depois do 25 de Abril, vi mais um grande placard com o seguinte slogan " O que é público é nosso!" (A experiência mostra-me que, normalmente, o que é "público" é só dalguns, que ninguém sabe exactamente quem são...)

   De todo o meu percurso estudantil, recordo que só na escola primária e na universidade é que me senti entusiasmado e sinceramente interessado na frequência das aulas... Na escola primária era o meu próprio deslumbramento pelas novidades - o escrever, ler, contar - que tornavam as aulas interessantes; mas o simples facto de haver aulas em que era necessário fazer repetições e revisões, para aqueles que não tinham o mesmo interesse que eu, e rapidez, na aprendizagem, já me provocava imenso enfado, a que se seguia a distracção e, por vezes, a indisciplina.

    Na universidade, o interesse em frequentar as aulas deveria, em princípio, resultar do interesse em ouvir o professor... Espera-se que o professor universitário seja um investigador, um autor, não apenas o papagaio que repete as falas dos outros!

   Mas essa expectativa raras vezes se concretizou na minha atribulada vida universitária, abruptamente interrompida por uma revolução... De facto, a maior parte dos professores que tive, tanto antes, como depois da Revolução, não colocavam a autonomia e a criatividade acima da erudição. Preferiam coleccionar certezas  a cultivar dúvidas, preferiam o conforto da imitação ao risco do improviso, enfim, eram professores, não Mestres. 

  Em relação ao secundário, tive sempre pouco interesse pelas aulas, que eram, na maior parte das vezes, maçudas, monótonas e monocórdicas, num velho e gasto estilo do "magister dixit" - um professor, ou professora, a falar, a falar, a falar, expondo a "matéria" que deveríamos absorver, numa perspectiva enciclopedista, em que tínhamos de decorar coisas tão inúteis e enfadonhas como o tipo de recorte das folhas das árvores, ou as cadeias montanhosas de um Continente, ou as toneladas de trigo produzidas por um país... O preceito pedagógico da época, que dizia ser ensino aquela forma de obrigar a memorizar dados informativos, estava totalmente errado. Bastou a revolução informática e a Net para a informação estar de tal modo disponível que até os idiotas do Ministério da Educação começaram a perceber que ensinar não é transmitir informação, é mostrar como usar a informação de forma inteligente.

 

Entretanto, enquanto a Escola falhava em cativar o meu entusiasmo e interesse,  fora dela fui descobrindo o jogo, ou os jogos, que passaram a ocupar cada vez mais tempo nas minhas actividades diárias.

Aí sim, nos jogos, estavam as características necessárias para atrair um jovem adolescente - a competição, a interactividade, o espírito de equipa, a surpresa, os desafios, as decisões rápidas. Mas os jogos foram-me levando, progressivamente, para lugares de rebeldia e fuga ao quotidiano disciplinado e autoritário, lugares onde passava horas de excitação a queimar o vício que os jogos nos injectam. E, sem aparente cansaço, ficava absorvido a jogar - fosse cartas, bilhar, matraquilhos, snooker, ping-pong, cavalinhos, poker de dados, enfim, qualquer coisa era mais interessante que ficar horas a decorar compêndios pouco interessantes... Entretanto, lia imensos livros, mas essas leituras só tinham uma relação indirecta com os meus estudos, e com algumas disciplinas em particular, como o Português, o Francês, o Inglês, a História e a Filosofia.

   Entretanto, a minha passagem para um liceu misto, o Liceu Francês, abriu-me também novos horizontes e relações. Começou então a idade dos namoros. É desnecessário salientar a importância dessa data.

 

O TEMPO DOS NAMOROS

 

Sem momentos ou causas de grave perturbação, a puberdade e a adolescência, isto é, a idade dos namoros, pode ser das fases mais felizes da vida de uma pessoa. Pelo menos, foi assim que se passou comigo...

   A vivacidade e a frescura com que se passam esses anos fugazes deixam memórias inesquecíveis. Sorte, naturalmente, a daqueles que, como eu, não viram a sua adolescência perturbada por acontecimentos devastadores, como os que vemos nos noticiários de todos os dias, a afectar ou destruir a vida de tanta gente... No entanto, eu sabia que, no final da minha carreira de estudante, teria de ingressar na guerra colonial. Apesar dessa ameaça pendente, e de ver à minha volta as consequências da guerra, vivi despreocupadamente a minha juventude. Só posso estar grato por isso, especialmente aos meus Pais...

    Mas essa despreocupação também tinha outra causa.... Embora eu não tivesse a menor suspeita de que iria ocorrer o 25 de Abril e o fim da guerra colonial, desde pequeno que, no meu íntimo, tinha uma premonição, uma quase certeza de que nunca entraria na tropa... E foi essa certeza que me permitiu evitar qualquer tipo de ansiedade, ou mesmo angústia, perante esse destino bélico anunciado.

    E a minha premonição aconteceu!!! Sorte? Mera coincidência? Ajuda divina? Não sei... O facto é que, no ano em que iria ser forçado a entrar na recruta, acabou a guerra... E como já estava casado, passei de imediato à reserva territorial. Nunca pus os pés num quartel...

 

continua....

 

05/07/2007