A MINHA TIA-AVÓ (DE TRÁS-OS-MONTES...)

 

Foi com seis anitos que conheci a minha tia-avó, de seu nome próprio Isabel Adriana Botelho de Sampaio e Sousa Correia Guedes do Amaral, a que juntou o apelido de casamento, Bacelar. De "petit nom", era Micas.

O marido, Miguel Bacelar, era um homem alto e corpulento, ao contrário da minha tia, mulher com apenas metro e meio de altura, mas muito senhora do seu nariz, nariz aliás bastante saliente.

Oficial de Cavalaria, o meu tio participara na Primeira Guerra Mundial, e sofrera as consequências nefastas do gaseamento nas trincheiras. Talvez por isso, quando o conheci estava já muito debilitado, e reduzido a cadeira de rodas.

A minha tia, pelo contrário, nada tinha de débil, e chefiava duas casas - já que o marido se encontrava incapacitado - a dos Botelhos, em Alvites, Trás-dos-montes, e a dos Bacelar em Valemelhorado, Felgueiras, no Minho...

A minha tia deslocava-se num imponente Zephyr, com motorista, carro que tinha sido usado por Norton de Matos na sua campanha pelo Norte. Católica ultramontana, a minha tia deve ter sentido algum gozo em comprar a viatura a preço de saldo, assim que as eleições ditaram a derrota do candidato laico, republicano, maçón e anti-clerical.

Foi ao fim da tarde, na estação da Campanhã, acabado de chegar de Lisboa, que vi pela primeira vez a minha tia, que me fez entrar no Zephyr para fazermos a longa viagem até Alvites, perto de Mirandela. Eu adormeci rapidamente, e dormi um bom par de horas até acordar com uma travagem súbita e algumas vozes alteradas. Estremunhado, tento perceber o que se passa. Vejo então, lá fora, no escuro da noite, parado na frente do carro, um vulto com dois olhos amarelados e brilhantes fixados em mim, um focinho com dois dentes caninos bem salientes e uma língua ágil e arfante.

"É um lobo, Senhora Dona Isabel!" disse Joaquim, o motorista. "Eu sei que é um lobo... Faça qualquer coisa para o assustar, não vamos ficar aqui toda a noite a olhar para o bicho!!!", respondeu-lhe a minha tia Micas.

O Joaquim lembrou-se de tocar a buzina. Uma, duas, várias vezes; um som algo roufenho foi ecoando na noite, sem perturbar o lobo, que parecia sorrir com o insólito daquela situação. Não me esqueço do brilho dos seus olhos, nem da aparente calma com que nos fixava. Novos toques de buzina, sem sucesso. Finalmente, o Joaquim lembrou-se de desligar os faróis por alguns momentos. A escuridão da noite envolveu-nos... Foi então que os olhos amarelos, ainda a brilharem no escuro, se afastaram lentamente... Quando o Joaquim ligou novamente os faróis, já só vi uma cauda a desaparecer nas moitas que ladeavam a estrada. Aliás, não vi uma, mas duas, porque era, afinal, um casal, mas um dos animais mantivera-se oculto na berma da estrada.

Até que enfim! - comentou a Tia Micas.

Acelere, Joaquim, acelere - ordenou em voz seca e imperativa - que já estamos atrasados para o jantar e os meninos estão cheios de sono, coitadinhos.

 

 

    

 

Este episódio marcou, na minha lembrança, o início de um curto mas intenso tempo mágico, todo ele ligado às minhas mais próximas raízes familiares, mas vivido num longínquo e exótico Trás-os-Montes, separado por um fosso abissal da vida citadina a que estava habituado.  

Guardo memória de muitas diferenças que me surpreenderam - a cozinha gigantesca, com as panelas de ferro suspensas sobre um lume verdadeiro, de labaredas crepitantes e perfumadas; as camas de lençóis de linho, aquecidas à hora da deita com uma braseira de cobre de cabo longo, em madeira, que permitia empurrar a braseira para debaixo dos lençóis como quem mete um pão no forno; a dispensa cheia de potes de azeite, tigelas de marmelada e castanhada, frascos de compotas e frutas cristalizadas, armários cheios de louças, faqueiros, toalhas e guardanapos; a criançada toda a brincar no terreiro em frente à casa, onde passavam carros... mas de bois. E a culminar as aventuras desses dias, uma corrida de burros, uma burricada pelas ruas da aldeia que foi a minha primeira experiência de solavancos provocados por quatro patas, e não quatro rodas.

Mal sabia eu, quando reentro no Zephyr para fazer a viagem de regresso ao Porto, e daí para Lisboa, que o olhar que lancei em redor para tentar gravar na memória a casa de Família seria inútil, já que só lá voltaria vinte anos depois, intervalo demasiado longo para manter viva essa imagem; não tendo sido novamente refrescada, essa imagem, naturalmente, feneceu...

A minha Tia Micas trouxe-nos de volta ao Porto e, na despedida, perdeu por momentos aquele seu ar duro e imperturbável, e deixou cair umas lágrimas enquanto nos beijava, a mim e aos meus irmãos. A Tia Micas não tinha filhos, e nós éramos netos do seu único irmão, falecido relativamente novo... Naturalmente, emocionou-se.

Ainda nos vimos mais dois ou três anos, nas férias, mas sempre no Minho, nunca em Trás-os-Montes...

Mal me apanhei com as prerrogativas da adolescência, optei sempre por férias na praia, e não voltei a casa da Tia Micas e às enfadonhas férias campestres.

Um dia, recebi a notícia da morte da Tia. Faleceu exactamente a 25 de Abril de 1974, o dia da chamada "Revolução de Abril", como que a deixar bem claro que nada tinha a ver com este novo ciclo histórico. Dado que a Revolução perturbou bastante a vida do meu Pai, ele não deu a devida assistência ao processo da herança, nem se preocupou com o teor do testamento. Resultado: o catolicismo ultramontano da minha Tia deu o seu último suspiro - mas um bem profundo e sonoro suspiro - ao deixar em testamento o usufruto de toda a propriedade de Alvites, durante VINTE ANOS, ao padre da Paróquia!!! Esta espantosa e anacrónica realidade - um elemento do clero a aproveitar-se, de forma mesquinha e gananciosa, do seu lugar de assistente espeiritual no leito de morte de uma viúva abastada, concretiza-se juridicamente durante o período conturbado do PREC, em que novas e democráticas figuras juridicas vão permitir ao padre executar o seu plano ultramontano... Para tal, criou uma fundação da qual foi, obviamente, o eterno presidente, e assim geriu a propriedade e o usufruto a seu bel-prazer. Assim, de 1974 a 1994, um padre, certamente destinado ao Inferno, enriquece alegremente, nos confins imperturbáveis do Portugal Profundo e perdido no tempo, enquanto todo o País em seu redor se altera radicalmente, e o Diabo ri às gargalhadas...

A este painel de curiosidades, posso ainda acrescentar que a minha Tia Micas é também tia-avó de D.Isabel de Herédia, casada com D.Duarte de Bragança. Mas a história do solar Botelho em Alvites não acaba aqui. Irei contar-vos a seguir o que se veio a passar quando lá voltei, em 1986, acontecimentos que envolvem alguns nomes conhecidos da literatura portuguesa e ...holandesa ( ou não tivéssemos "aderido " à Europa!    

 

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