Da perfeição e das ideias....


É no tocante à perfeição que as concepções de Aristóteles e de Platão se dividem. Aristóteles é empirista-racionalista, e a esquemática da conceituação física é nele predominante, levando-o a colocar a perfeição na substância individual.

Este cavalo, aqui e agora, é mais perfeito que a cavalaridade, é mais perfeito que a sua forma. Ademais, há apenas uma existência real para ele, que é a individual, pois as formas não se dão fora das coisas. E é o indivíduo o mais perfeito, porque é mais determinado, já que ele é a última determinação da sua espécie, e é uma existência real.

Para Platão, é o contrário. A perfeição é do logos de que os entes participam. Nenhum ser individual realiza plenamente a perfeição específica, pois nenhum ente, individualmente, é tudo quanto, dentro da sua espécie, pode ser. Esta abrange, portanto, um âmbito muito mais vasto e nela se incluem todas as perfeições possíveis das determinações, não actualizadas axiológicamente por Aristóteles.

Mas o logos, que é o inteligível dos entes (para Platão não se separa do ontológico, pois este é o logos da entidade), é a razão de ser do que é isto ou aquilo. O ser inteligente é aquele que capta a inteligibilidade do logos das coisas, e que pode analizar, extensa e intensamente, o que um ser é.

Mas a inteligibilidade das coisas não é, para Platão, aquela que se cinge aos esquemas noéticos do homem, como o pretende o idealismo moderno, mas a que busca ligá-lo ontológicamente aos logoi analogantes.

A perfeição maior está aí. E é nessa diferença de pensar que se polariza toda a filosofia posterior, incluindo ainda as tentativas de concilição ou até de superação do pensamento de um e de outro, como o vemos em Tomás de Aquino, em Duns Scot e, anteriormente, em Avicena.

E há fundamento nessas tentativas pois, sob o ponto de vista lógico e metafísico, ambas posições estão ligadas por um mesmo nexo.

É preciso distinguir, na atribuição por participação, quando o atributo faz parte da essência do sujeito e quando a atribuição é meramente acidental. Na atribuição por participação verifica-se que o predicado é uma parte do sujeito e não propriamente que o sujeito participe do predicado.

A atribuição por essência distingue-se da atribuição por participação por serem idênticos, naquela, sujeito e predicado.

Em Deus, o Ser pertence-lhe por essência, enquanto que na criatura, pertence por participação. No primeiro, identifica-se com Ele, enquanto que o segundo apenas o recebe.

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Distinguindo-se a atribuição por essência da atribuição por participação e sendo, na primeira, sujeito e predicado idênticos, na segunda o predicado, seja essencial ou acidental para o sujeito, é sempre este que daquele participa.

Só compreendendo isto se torna mais fácil a compreensão da forma platónica, a ideia, subsistente em si; o sujeito sensível não é a ideia, mas dela participa.

Assim, quando dizemos que João é homem, dizemos que tem humanidade, e não que é a humanidade. Esta, sendo uma ideia, é simples em sua formalidade, e não existe subjectivamente, ou como singularidade, ou como algo no homem e contida nos limites deste.

As formas, para Platão, não são singularidades subjectivamente dadas, são poderes de ser, entidades eidéticas cuja substancialidade não é a de concepção aristotélica. São ousiai, que se entendem como entidades e não meros conceitos. Mas a sua essencialidade não advém de geração, pois o seu modo de ser é formal, não geral - formal ou do poder de ser. A humanidade, tal como outras entidades semelhantemente eidéticas, são poder que se distingue de outros poderes, já que a sua substância é o próprio ser que pode, o «Possest» de que, posteriormente, irá falar Nicolau de Cusa. A ideia é um pensamento desse «Possest», dessa potensão (como lhe chamamos), dessa tensão-que-pode-tudo-quanto-pode-ser.

Assim, se quisermos falar de justiça, bondade ou verdade, ou da «humanitas», as coisas participam delas, ou as imitam (no sentido da mimesis pitagórica correctamente entendida...), mas não há, subjectivamente, nem «humanitas», nem verdade, nem bondade, nem justiça, isto é, substâncias singularizadas - se lhe chamarmos substâncias, terá de ser no sentido platónico, em que não são nem singulares nem universais, mas um modo de ser eidético do «Possest», como tão bem o compreendeu Avicena e, mais tarde, Nicolau de Cusa.

Semanticamente, dunamis (potentia) é a faculdade de poder no sentido de katá dunamin pasan, o poder de fazer, e os arquétipos, neste sentido platónico, são os poderes da omnipotência do Ser Supremo, que pode tudo que pode ser. Outro sentido, é o que foi dado por Aristóteles, em que dunamis é a aptidão de ser, de tornar-se, de devir.

No De Potentia, Tomás de Aquino menciona as duas acepções ao falar na potência divina, potência activa, potência de fazer, que distingue claramente da potência passiva, potência de padecer. A primeira não implica qualquer restrição à perfeição divina, pois quem pode mais, pode menos, enquanto que a segunda implica.