DA FINALIDADE

É muito comum, nos dias que passam, ouvir-se de muitas bocas e de muitas penas, expressões como estas: «a filosofia do passado já está superada», "a ciência de hoje desterrou, de vez, a filosofia", "os filósofos medievais são hoje fantasmas, e nada mais", "não é possível que volvamos mais para o passado". Estas, e outras frases semelhantes, enunciadas por pessoas diplomadas e professores universitários, revelam a que ponto de decadência chegou a nossa cultura.

E não se diga que tais frases são ouvidas apenas entre nós, como gostariam de pensar alguns desses brasileiros de alma naturalizada estrangeira, que não acreditam nas nossas possibilidades. Não; também "conspícuos e notáveis" mestres de universidades famosas do mundo inteiro repetem essas mesmas frases e, pior, escrevem-nas em seus livros, conseguindo, desse modo, influir em mentes inadvertidas, sobretudo as dos jovens, perturbando, desse modo, o desenvolvimento que deveria ter a cultura de hoje.

O verdadeiro conhecimento não é formado apenas pelo acúmulo de informações; pelo menos não o é a verdadeira cultura. Aqueles que julgam que um homem culto é um homem erudito enganam-se, porque qualquer débil mental pode alcançar a erudição; não poderá, porém, alcançar um grau elevado de cultura.

Há cultura quando há conhecimento de nexos e se é capaz de realizar as ilações mais amplas, quando se tem uma visão coordenada do conhecimento específico com o genérico, quando não se é apenas um monstro de conhecimento parcial, mas se desenvolve uma ampla visão geral.

E isso tinham os gregos e os medievais!

Julgar-se que hoje é impossível, dada a soma imensa de dados conhecidos sobre um objeto formalmente considerado, atingir uma visão universalista tem sido um dos preceitos mais estúpidos da nossa época, como não nos cansamos de repetir. E crer em tal impossibilidade tem servido para que os homens de saber, como em nenhuma época anterior aconteceu com a humanidade, se encontrem hoje muito afastados uns dos outros...

Certa vez, um desses representantes da preconceituada e falsa crença da nossa época, referindo-se à filosofia medieval, sobretudo à escolástica, dizia-me:

-Mas tudo já está ultrapassado!!!

Então, perguntei-lhe:

-Ultrapassado? Por quem, e pelo quê? Pelo Racionalismo? Pelo Idealismo? Pelo Materialismo? Pelo Espiritualismo? Pelo Imaterialismo berkeleyiano? Pelo Criticismo? Pelo Pragmatismo? Pelo Positivismo? Pelo Ficcionalismo? Pelo Existencialismo? Pelo quê, afinal? - perguntei-lhe.

O homem, na verdade, engoliu em seco, e não continha a ira que lhe invadia o corpo (e digo corpo, porque ele não admitia a existência da alma...), e disse-me, finalmente:

-Qualquer filósofo moderno supera em conhecimento os do passado.

Eu sabia estar à frente de um homem ignorante, mas de uma pedante arrogância, que evidenciava nas inflexões da sua voz. Restava-me apenas pô-lo à prova. E procedi deste modo:

-Muito bem. Vou dar-lhe uma oportunidade. O senhor escolha a obra de um grande autor medieval a seu talante, e aponte-me de seguida as insuficiências que proclama. Admito que há erros, sem dúvida, mas faça-me a comparacção dessa obra com a obra de um filósofo moderno de sua escolha, e discutiremos as passagens.

O nosso homem embatucou. A seguir, fez um gesto de displicência. Não deixei que falasse mais. Havia-se revelado a verdade. E a verdade foi dita nessas minhas palavras finais:

-Meu caro, o que se passa é que o senhor não conhece nenhuma obra de nenhum grande autor medieval!

E a sua resposta foi apenas:

-Não disponho de tempo para dedicar-me a estudos clássicos.

Perante isto, não valia a pena prosseguir. O nosso homenzinho desdenhava do que lhe era desconhecido, menosprezava o que jamais havia estudado. Era o exemplo magnífico dos dias de hoje, da pedante e atrevida ignorância que se julga superior.

É um grave erro da nossa época não se entender ontologicamente a história. Esquece-se que o presente nada mais é que um futuro sido e o futuro do passado.

Não sabem que o homem de hoje é o produto de uma longa elaboracção e que o nosso conhecimento é um acúmulo do saber que atravessou os séculos?

Se alguém se dedicar a ler os ficcionistas do século passado, verá quantas vezes os homens daquele tempo se orgulhavam do seu saber. Certas explicações científicas eram dadas como definitivas, e alguns julgavam até que não caberia mais para as gerações futuras, senão repetir o que os grandes mestres da segunda metade do século dezenove haviam encontrado. Mas veio o século vinte, a princípio decepcionado quanto ao futuro, julgando que nada mais havia que se fazer. A história havia chegado ao seu ápice, e daí por diante, para os estudiosos, restava apenas debruçarem-se sobre o que fora realizado no século dezanove e incensar os seus grandes corifeus. Mas o saber do século vinte é outro, muito outro. E o mais interessante, e muitos "sábios" não sabem, é que volveram-se para muitas concepções "já ultrapassadas". Ora, esquecem esses senhores que não se ultrapassam certos conhecimentos, como se vê na Matemática, como se vê na Lógica, como se vê na Ontologia... Tais conhecimentos são acrescentados a outros, e o presente revela-se, então, como deve ser entendido: uma afirmacção da positividade do passado, porque o presente é o futuro do passado, e uma afirmacção do futuro, porque o presente é um futuro sido. O conhecimento humano não se separa das origens, as suas raízes estão imersas no passado, tal como os galhos que despontam, crescem para o amanhã.

O patrimônio do saber humano é uma coisa muito séria, e ninguém tem o direito de renunciar, em nome da humanidade, ao que nos legaram os nossos antecessores. Muito menos direito a isso o terão esses falsos sábios de hoje, os menos qualificados herdeiros de séculos e milênios de um trabalho disciplinado e honesto.

Qual a razão destas nossas palavras? É que pretendemos agora abordar um dos temas mais apaixonantes de nossa época e, no âmbito do qual, muitos famosos e notáveis sábios têm dito erros de espantar, mas que, para os inadvertidos, têm soado como irrefutáveis verdades...

O tema de que queremos falar é o da finalidade. Vamos afrontar os sorrisos desses cavalheiros, mas também iremos confundi-los com meia dúzia de argumentações apodíticamente dispostas, a que não poderão responder nem contestar.

Sobre este tema, conhecem-se as seguintes teses:

1) Os entes corpóreos não atuam segundo um fim, uma finalidade. As aves não têm asas para voar, mas voam porque têm asas. Nenhum metal tem afinidade para combinar-se com outro em determinadas proporções, mas combina-se como outros porque dispõe de poderes para tal. O germe de um ser A não tende a formar um ser A, mas produz o ser A, porque tem poder para formar tal ser. Há poderes, sem dúvida, que atingem determinados efeitos, mas os atingem, porque os atingem, não têm tais poderes com a finalidade de atingir tais efeitos.

Todos os ateístas, materialistas, evolucionistas, transformistas etc. pregam estas idéias.

2) A segunda posição é a total inversão da primeira. Afirma que todos os corpos agem segundo um fim, embora muitos desses fins não os possamos saber, os quais foram prescritos por Deus e cujo conhecimento é uma das mais importantes tarefas da Ciência. Esta é, por exemplo, a posição de Descartes.

3) A terceira posição afirma que os seres corpóreos irracionais agem segundo fins próximos, que são as suas próprias operações e os seus efeitos, que a eles se movem não como faz univocamente o ente inteligente, mas à semelhança deste. Esta é a tese aceita pelos grandes filósofos do passado, como os pitagóricos de terceiro grau, Sócrates, Platão, Aristóteles, Plutarco, Sêneca, os grandes patrólogos, a maioria dos escolásticos (alguns aceitam a tese cartesiana), e ainda grandes cientistas como Leibnitz, Newton, Couvier etc.)

Postas em enunciado tais teses, podemos, agora, penetrar no mérito da questão, examinar as razões de um lado e de outro, e justificar, afinal, a posição que tomamos, que se enquadra, como era de prever, na terceira tese.



 


Partamos, primeiramente, da experiência; a) observando-se os seres corpóreos, notamos:

1) nos inanimados, nos seres não vivos, há certas actividades que obedecem a leis naturais, das quais já falámos, tanto na sua origem como nas suas consequências;

2) nos seres vivos, notamos, ademais, que tais actividades alcançam resultados que interessam aos mesmos, quanto à sua totalidade; ou seja, à sua conservação, perpetuação e descendência, especificamente igual.

b) Toda a acção é algo que se dá no que é actuado. Ora, toda a acção, no ser corpóreo, é algo que se realiza de um termo de partida (terminus a quo) a um termo de chegada (terminus ad quem), termos que podem ser apontados como mais próximos uns, mais remotos outros, ou um que é o termo final da acção. Não é possível realizar-se uma acção que não aponte a tais termos, pois todo o agir implica um realizar ainda não realizado, toda a acção implica, fatalmente, um fim. E um fim, sim, porque fim quer dizer, em todas as intencionalidades humanas, de todas as eras, o termo para o qual se dirige qualquer coisa, para o que qualquer coisa tende quando faz alguma coisa, porque o «alguma coisa» realizado é um fim da acção, do eficiente que a faz.

Mas uma coisa inanimada não tem um psiquismo, não tem uma intencionalidade psíquica quanto ao fim; contudo, tem uma intencionalidade.

Um ser inteligente pode tender para um fim que ele representa, por imagem ou não, com antecedência. Sua acção pode ser escolhida para (propter) tal termo. Se tomamos o termo intencionalidade apenas no sentido psicológico, não o poderemos atribuir às coisas inanimadas, mas se tomarmos esse termo no sentido do in-tende (para), no que tende em direcção para algo, que aponta para algo, podemos dizer que toda acção tende para um fim, tem a intencionalidade de um fim.

E este juízo é um juízo analítico, porque é impossível conceber-se uma acção que não parta de um termo para atingir ou tentar atingir um outro termo porque, de contrário, não haveria a acção.

Deste modo, o juízo: «toda acção tende para um fim» é um juízo analítico, apoditicamente certo e necessário; de contrário, negar-se-ia a acção, o que seria contraditório.

Tal juízo permite a seguinte ilação: necessariamente, há em toda a acção um tender para um termo (um final, próximo ou remoto, um só, ou vários, pouco importa), e é por esta verdade concreta não ter sido compreendida que surgiram muitos erros, tanto na filosofia como na ciência.

Mas, então, poderá colocar-se a pergunta: como se explica que uma coisa tão evidente tenha passado despercebida a homens a que não podemos negar talento, mas que se filiaram na primeira posição?

Tal tem acontecido por algumas razões:

1) Por terem confundido a intencionalidade física com a intencionalidade psicológica. Para tais senhores, só há uma intencionalidade. Ademais, se os entes tendem para alguma coisa, deve ter havido uma prévia determinação. Ora, essa determinação implica uma escolha, uma inteligência, o que implica um ser inteligente que decretaria tais finalidades; ora, esse ser, todo poderoso, seria o Deus das religiões; e como esses senhores não querem admitir tal possibilidade, empenham-se então em negar a finalidade porque, desse modo, julgam eles, conseguem pôr por terra a crença numa divindade, que tanto se afanam em negar.

2) A finalidade indicaria, de qualquer modo, que algo é estabelecido com antecedência e, para eles, essa afirmativa é perigosa. De facto, admitir uma finalidade biológica levaria, afinal, às mesmas perigosas conseqüências que é necessário evitar...

Continuemos, então, o exame dos conceitos. Vimos que há fins próximos e fins remotos. O fim próximo é o que pode ser ordenado a um fim posterior, remoto é o que fica posteriormente ao próximo.

Por outro lado, pode-se falar em fim intrínseco e fim extrínseco. Intrínseco, é o fim conformado à natureza da coisa; extrínseco, o que está fora da natureza. Assim se poderia dizer que é um fim intrínseco do grão de trigo tornar-se um arbusto e produzir uma espiga. Mas tornar-se pão, matéria do pão, é um fim fora da natureza do trigo, é um fim extrínseco a este. Ora, essa elementar diferença entre fim intrínseco e extrínseco levou muitos "filósofos" a ridicularizarem a idéia da finalidade, ao dizerem, sem conter o riso, que os que admitem tal doutrina afirmam que o trigo foi criado para dar pão, que as pulgas são escuras para mais facilmente serem percebidas na roupa branca, e coisas de igual valia.

Onde encontraram tais afirmativas? Em algum grande autor medieval? Certamente que não!!! Quem fez tais afirmativas foi algum "notável filósofo", já refutado com séculos de antecedência, mas que pontifica do alto de alguma cátedra, que é mais alta do que ele.

Um arqueiro toma de seu arco e atira uma seta a uma ave que voa. O arco retesado tende a volver à primeira posição e produz um esforço, uma forca que impele a flecha, vencendo a sua inércia, e a projeta no espaço, com uma forca que é capaz de vencer a resistência do ar, até atingir o alvo, a ave que voa. Atingir a ave que voa é a intenção do arqueiro, que usou o arco e a flecha, a sua força, a sua pontaria, com essa finalidade: não da seta. Esta apenas tende para onde tendem as ações diversas que nela se operam, obedientes à causa eficiente que a movimenta. A seta não tende para a ave, não atua propter finem, porque, sem a ave, realizaria, também, a mesma acção, desde que impulsionada para tal.

Bastaria compreender claramente estas distinções para que já não houvesse mais motivos para se escreverem tantas tolices contra a finalidade, como o fizeram aqueles que jamais a entenderam.

Restam, pois, os seguintes resultados de nossa especulação:

1) toda acção tende para um fim. A) os seres inanimados, irracionais, não projetam, antecedentemente, um fim. B) os seres racionais podem estabelecer com antecedência um fim, como o faz o homem, para exemplificar. Estes podem querer um fim, os primeiro não têm qualquer querer. C) os seres tendem para fins intrínsecos, que são os correspondentes à sua natureza, e a fins extrínsecos, fora de sua natureza. Um ser inteligente pode dar a outros seres um fim extrínseco; ou seja, uma intencionalidade extrínseca, que não é "querida" pelo primeiro.

Chegados a este ponto, se vê, facilmente, a pouca validade das idéias expostas pelos adversários da finalidade. Tudo é produto de uma confusão. Mas a confusão começou, sobretudo, quando se diz que se fez a luz! Quanto mais se falou em iluminismo, luzes, clareamento, mais se confundiram as idéias.

O auge da confusão chegou, agora, com a nossa época, em que mais ninguém se entende, porque são poucos os que realmente entendem alguma coisa com precisão. Não é mais de admitir o retorno a velhos erros, já refutados.

O que tais senhores afirmam ter descoberto, para ultrapassar a filosofia do passado, foi apenas a retoma de velhos erros, de velhas doutrinas já refutadas e confutadas. Não há um passo à frente, mas dez passos para trás. Não se avançou no conhecimento, mas se recuou. O que tais senhores fazem é voltar para trás, para o lixo do pensamento do passado. E depois, do alto da sua ignorância, passam a afirmar que alcançaram a um novo pensamento superior, que, na verdade, nada mais é que um velho erro inferior e primário, que já fora confutado de modo definitivo. A tanto leva, sem dúvida, a falsa ciência, mascarada de sábia.

Mas há mais. Vamos, a seguir, dar as grandes objeções oferecidas pelos que negam a finalidade.

Dizem: se os agentes naturais agissem segundo um fim, conheceriam tal fim, o que é absurdo. Argumento prejudicado, porque há agentes naturais que podem conhecer seus fins, e outros não, sem que seja necessário conhecer um fim para que haja o fim. É como aquele argumento de Heisenberg, em que o conhecimento passaria ser causa da realidade de uma coisa. Seria mister conhecer nitidamente a regularidade para que a regularidade exista.

Há alguns materialistas que afirmam coisas como esta - não existe o incorpóreo, porque não é objecto de conhecimento sensível - como se o conhecimento sensível fosse a razão da existência das coisas!!!

Um pouco de estudo de Lógica, e de bom-senso, evitaria erros tão infantis e bárbaros.