O Arithmós

( Excerto de «Platão, o Um e o Múltiplo» )

Qualquer manual de filosofia nos diz que Pitágoras ensinava, e os pitagóricos repetiam, que a essência, neste caso a forma, de todos os entes são os números. Usava Pitágoras o termo grego «arithmós», e ao prescrutar a essência de todos os entes desenvolveu uma verdadeira aritmologia, uma ciência do número.

Ponhamos de parte o erro vulgar de considerar os números pitagóricos como apenas quantitativos, como o são os números da aritmética, produtos de uma abstracção da quantidade; Pitágoras repelia tal perspectiva, chamando aos números quantitativos de «arithmos logistikós», e diferenciando-os dos números que eram considerados por ele como qualitativos, como valores, tensões, conjuntos, funções, relações, harmonia, símbolos, fluxos, etc...Esse erro vulgar, portanto, é realmente um erro crasso - afirmar que os Pitagóricos consideravam os números aritméticos, ou quantitativos, como a essência dos entes sensíveis.

Toda a forma, que é intrínseca a cada ente, é uma proporcionalidade interna que, para além de quantitativa, é qualitativa, relacional, funcional etc... Essa forma é o pelo qual o ente é o que é, e não é outra coisa, ou seja, essa proporcionalidade é a essência do ente, é uma harmonia dos opostos intrínsecos de cada ente. De facto, para Pitágoras a essência de cada ente, de cada coisa finita, implica sempre a cooperação de opostos. Um ser finito conhece limites, como é fácil de ver, e o que aponta esses limites intrínsecos é a forma, a estrutura ôntica do ente que assim indica o que ela não é. Todo o ser, na verdade, é o que é e, concomitantemente, separa-se, pelos seus limites, do que ele não é, ou seja, do que está privado. Todo o ente é composto da sua presencialidade, ontológica e ôntica, e da ausência ou privação, que o delimita extrínsecamente.

As Medidas

(Excerto de «Aristóteles e as Mutações», 1955)

Medir é uma acção que consiste em dar um valor numérico a um objecto pelo número de vezes que contenha a unidade empregada. A medida quantitativa realiza-se por um metron, como se procede na medida de uma extensão por outra extensão que serve de termo de comparação. Compara-se esta extensão com uma extensão menor, e vê-se quantas vezes a primeira contém a segunda. A medida, portanto, implica o homogéneo ao medido. Medem-se homogeneidades. Quando de trata de extensão, temos as medidas quantitativas.

Mas quando se trata de qualidades, a medida já não é uma unidade menor. As qualidades são medidas pelas suas perfeições, portanto, por um maximum e não por um minimum, como no caso das medidas quantitativas. Meço este quarteirão reduzindo a sua extensão (homogeneamente considerada) com um metro - uma extensão menor homogeneamente considerada. Mede-se o maior pelo menor.


Da perfeição e das ideias....

É no tocante à perfeição que as concepções de Aristóteles e de Platão se dividem. Aristóteles é empirista-racionalista, e a esquemática da conceituação física é nele predominante, levando-o a colocar a perfeição na substância individual.

Este cavalo, aqui e agora, é mais perfeito que a cavalaridade, é mais perfeito que a sua forma. Ademais, há apenas uma existência real para ele, que é a individual, pois as formas não se dão fora das coisas. E é o indivíduo o mais perfeito, porque é mais determinado, já que ele é a última determinação da sua espécie, e é uma existência real.

Para Platão, é o contrário. A perfeição é do logos de que os entes participam. Nenhum ser individual realiza plenamente a perfeição específica, pois nenhum ente, individualmente, é tudo quanto, dentro da sua espécie, pode ser. Esta abrange, portanto, um âmbito muito mais vasto e nela se incluem todas as perfeições possíveis das determinações, não actualizadas axiológicamente por Aristóteles.

Mas o logos, que é o inteligível dos entes (para Platão não se separa do ontológico, pois este é o logos da entidade), é a razão de ser do que é isto ou aquilo. O ser inteligente é aquele que capta a inteligibilidade do logos das coisas, e que pode analizar, extensa e intensamente, o que um ser é.

Textos de Mário Ferreira do Santos

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Ácerca do Conceito de Causa

(Excerto de «Análise de Temas Sociais»)

1 - Factor

Factor, em sentido etimológico, é o que faz, do verbo «facere», e refere-se tanto à pessoa humana como a alguma coisa. Na matemática, significa um de dois termos que, multiplicados um pelo outro, constituem um producto. Na linguagem moderna, tomado em sentido amplo, é tudo quanto concorre para determinar um efeito, e é empregado, hoje, nas ciências culturais. Nesse amplo sentido, o termo é usado frequentemente como sinónimo de causa.

Tal sinonímia deve-se a uma razão muito simples.

Nos séculos XVIII e XIX alguns filósofos, por não terem devidamente compreendido o conceito de causa, exposto por Aristóteles e pelos escolásticos, decidiram combatê-lo. De tal modo o fizeram, que muitas mentes desprevenidas recearam continuar a usá-lo, preferindo substituí-lo pelo termo factor.

Portanto, para que se tenha uma clara visão deste termo é mister analisar o conceito de causa, evitando os erros frequentes que muitos filósofos modernos cometem.

Da Finalidade

É muito comum, nos dias que passam, ouvir-se de muitas bocas e de muitas penas, expressões como estas: «a filosofia do passado já está superada», "a ciência de hoje desterrou, de vez, a filosofia", "os filósofos medievais são hoje fantasmas, e nada mais", "não é possível que volvamos mais para o passado". Estas, e outras frases semelhantes, enunciadas por pessoas diplomadas e professores universitários, revelam a que ponto de decadência chegou a nossa cultura.

E não se diga que tais frases são ouvidas apenas entre nós, como gostariam de pensar alguns desses brasileiros de alma naturalizada estrangeira, que não acreditam nas nossas possibilidades. Não; também "conspícuos e notáveis" mestres de universidades famosas do mundo inteiro repetem essas mesmas frases e, pior, escrevem-nas em seus livros, conseguindo, desse modo, influir em mentes inadvertidas, sobretudo as dos jovens, perturbando, desse modo, o desenvolvimento que deveria ter a cultura de hoje.

O verdadeiro conhecimento não é formado apenas pelo acúmulo de informações; pelo menos não o é a verdadeira cultura. Aqueles que julgam que um homem culto é um homem erudito enganam-se, porque qualquer débil mental pode alcançar a erudição; não poderá, porém, alcançar um grau elevado de cultura.

Há cultura quando há conhecimento de nexos e se é capaz de realizar as ilações mais amplas, quando se tem uma visão coordenada do conhecimento específico com o genérico, quando não se é apenas um monstro de conhecimento parcial, mas se desenvolve uma ampla visão geral.

E isso tinham os gregos e os medievais!