"A morte de Portugal", de Miguel Real

por João Seabra Botelho

(texto publicado na "Leonardo", revista de filosofia Portuguesa)

(Nota introdutória: este livro e o seu título, a serem tomados na sua inteireza, motivam uma poderosa carga emocional, sentimental e memorial. Se ficassem estes elementos afectivos encerrados no vazio da indiferença e tomados por ausentes, iriam criar uma insuportável e crescente pressão sobre o fluir da apreciação intelectual deste escrito; para evitar esta tensão, perturbadora e inútil, deu-se então, através de alguns parágrafos em itálico e entre parênteses, espaço à expressão exclusivamente cordial, na expectativa de que mente e coração possam manifestar-se juntos e supletivamente, sem aquela impor a este, por mero hábito, consenso ou ritual que vulgarmente rodeie a recensão de livros, um silêncio indigno e injusto). 


Do título ao texto

(Ao passar pela montra, bem iluminada, da livraria, corri os olhos, inadvertidamente, pelo título deste livro. Parei. Senti uma lágrima furtiva toldar e distorcer o que via. Por momentos, li para dentro: Em que malhas ficou cativo, (e qual o Império que as tece?) esse Portugal que jaz morto e apodrece? Um novo esforço de leitura dos olhos marejados e confirma-se, irremediavelmente, o título nefasto; sem dúvida, impõe-se a leitura, de corpo presente, da obra.)

Miguel Real, como tive oportunidade de testemunhar pessoalmente na apresentação de dois livros seus no Centro Nacional de Cultura, não tem um carácter arrogante; pelo contrário, vi-o agradecer, sem rebuço nem disfarce, e também sem servilismos, a algumas pessoas de que se julgava devedor de apoio e estímulo. Ao mostrar ali, de forma pública mas despretensiosa, que sabe ser grato, o que não é compatível com ser arrogante, Miguel Real deu-nos a prova de que não terá sido por um arrobo de leviana arrogância intelectual que se decidiu a dar a um livro seu, que classifica de “ensaiozinho despretencioso e reflexivo de horas nocturnas”, o título solene e retumbante de “Morte de Portugal”…

Solene, em primeiro lugar, porque esse título se refere a um País com séculos de existência, Pátria ancestral, berço de muitas gerações de antepassados, antepassados de Miguel Real e de todos nós. Retumbante porque parece, nesse título, que se está a anunciar um patricído, mais a consequente assunção da condição de apátridas para todos os Portugueses que sobrevivam à execução dessa sentença, e ainda à eventual dissolução da sua identidade numa topia qualquer de cariz esperantista.

(De calções, com frio nos joelhos, sentado em banco corrido de pedra, na velha igreja de Santa Catarina, ouço da Catequista a enumeração dos Mandamentos, e fixo, desde logo e para sempre:“Honrarás Pai e Mãe”. De todos os Mandamentos que ela acabara de dizer, este me pareceu imediatamente compreensível e merecedor do meu total acordo, criança de seis anos que amava profundamente os seus Pais.)

Na gratidão aos que nos deram a vida está, só por si, uma sacra justificação de todo o Amor e Serviço à Pátria; tal gratidão, a que não julgamos indiferente Miguel Real, pelas razões acima aduzidas, impediria o autor de usar tal título, se referido à Pátria, por razões menos que imperiosas.

Mas é um facto que, dada a óbvia face temporal de um País, não pode ser declarada, ab initio, insensata, impensável ou descabida uma tese sobre a morte de algo que flui no tempo, de algo que, tendo sido gerado, pode ser corrompido.

Ora, é também inegável que existe um Portugal gerado pela necessidade vária e dispersa, o Portugal descrito e registado nas obras dos economistas, sociólogos e historiadores positivistas, daqueles que tiram cursos ditos “superiores” para depois nos presentearem com certezas científicas do género: só houve Descobrimentos por ter havido falta de trigo (ou genial tirada semelhante…).

(Diogo Botelho é um fantasma. Capitão velejador, desterrado para Goa, entrou-me um par de vezes pela janela semi-aberta do meu quarto, naquela hora entre o dormir e o acordar em que os pombos gostam de arrulhar. Deu-me a mão duas vezes, e levou-me pelos ventos com o seu corpo de sonho, talvez por engraçar com o facto de termos o mesmo nome de família e eu ter também a maleita do coração “aquecido”. Eu conhecia-o – pelo menos, conhecia alguns dos seus feitos, descritos num livrinho lido na adolescência.)

Pela lógica desses cientistas, e para esse seu Portugal, sem dúvida que a morte é certa, e não de uma só, mas de duas maneiras!!! Primeira: bastará não haver falta de nada e Portugal acaba morto de satisfação, imobilismo e desmotivação. Segunda: bastará haver falta de muita coisa e morre Portugal de fraqueza e inanição…

A propaganda da escassez, a sua elevação a princípio e imperativa condição da vida humana, é a mais velha fórmula política para gerar o medo e fundar a ordem social escravizante, da qual só se podem socialmente evadir os poucos afortunados que paguem a propaganda e o custo da escassez, para que tudo fique na mesma.

Deleitam-se então esses cientistas do positivo, do posto em cima da mesa, com o rol extenso de tais causas quantitativas, mais as tais medidas que as medem, mais as malfadadas estatíscas que supostamente as ordenam e comparam, sem perceberem que tudo isso é trivial, trivial, trivial desde que o mundo é mundo.

Sempre se pode chegar à conclusão que é a necessidade a trave mestra da vida colectiva dos humanos… Basta que, ao contrário dos lírios do campo, não saibamos confiar na Vida… Caminhar na liberdade conduz à convicção que a Vida é abundante, abundante até na ganância e na escassez.

(O capitão velejador sabe-se o melhor mareante que alguma vez sulcou os mares do hemisfério sul. Diogo Botelho saiu da cela no Forte de Goa, onde cumpria pena, para ser acorrentado a um barco de pesca costeira, onde pudesse dar utilidade às suas capacidades de mareante e trazer algum proveito à Coroa, depois de tantos prejuízos. Ao ver-se na fusta – assim se chamava àquelas barcas de pesca e carga, feitas de bom pinho real – tomou conta do barco, e com a ajuda de duas pistolas carregadas, convence ameaçadoramente a dúzia de evadidos que o acompanhava a rumar a Lisboa. Ri-se.Conta-me estas coisas e depois ri-se muito, enquanto abana a cabeça, como que incrédulo consigo mesmo. É a mais louca travessia, a mais improvável das viagens, o selo que deixou confirmada a sua mestria, sem par, de navegador. Comentou: “na Mongólia, os cavalos são para aquelas gentes o que os barcos são agora para nós. Se eu fosse Mongol, tinha sido o maior dos cavaleiros do Gengis Cão. Mas sou Português…” )

A inteligência serve para discernir as causas primeiras, essenciais, e colocar nas respectivas categorias os diferentes temas, teses e conceitos. Desafortunadamente, os cientistas e positivistas acima referidos parecem desconhecer este exercício categorial. Como tal, não compreendem que os seus conceitos e teses, por se limitarem à categoria da quantidade e, vagamente, à categoria de modo, não podem ser causas essenciais nem relacionais. É o cíclico reviver do mito da caverna, da confusão entre o real e a aparência.

(Num relance, viajo trinta anos atrás e vejo-me a descer a Rua da Trindade, já noite, a caminho de um qualquer cenáculo filosófico. Alguns metros na minha frente ía o José Marinho, no seu andar de pássaro, de figura breve e meã. A seu lado, quase com o dobro do tamanho, X, um homem alto e espadaúdo, de passo largo e pesado, olhando para baixo e conversando com Marinho. Um velho candeeiro de rua Lisboeta projectava pela calçada a desigual sombra dos dois. Uma voz sussurra-me, mordaz; era o Orlando Vitorino: “Vê lá tu, ali o X está a sentir que é maior que o José Marinho!!!
E desatámos os dois a rir…)

Concluindo, onde ficamos, então?

Está Miguel Real, neste título e neste livro, a referir a morte da Pátria, e foram, então, razões muito ponderosas que terão justificado a sua utilização de tal título?
 
Ou está Miguel Real apenas a referir esse Portugal gerado por sociólogos e economistas, e uma sua “ Morte” inevitável e natural, já que determinada por faltas ou excessos, quantidades de sinal positivo e negativo cujo cálculo dá um saldo letal? E por aí se fica, já que essas quantidades esgotam a lista de causas do breviário positivista, onde não constam causas essenciais, valores eternos, universais concretos?

É a leitura do livro que deverá permitir desvendar a questão.

As premissas são claras, e aqui ficam exaradas para confronto, no final deste texto:
- ou o livro nos vai falar de uma Pátria, e então a “Morte” aí referida, sendo necessáriamente iniciática, apontará para a transmutação que lhe é consequente, e Miguel Real constrói sob este título os filosofemas que dão horizonte ao futuro da Pátria
- ou o livro nos vai falar do tal País que a ficção positivista dos últimos cem anos engendrou e, como sempre acontece na História, impôs pela força do mais forte, no período em que dominou a Cultura Portuguesa, sendo então essa “Morte” um mero termo da prolongada corrupção ou degeneração; neste caso, portanto, Miguel Real não estará a falar-nos da Pátria, e este livro será, apenas, mais um ensaio de sociologia e história da cultura.


Que Morte?

Quando Portugueses pensam a tese da “Morte de Portugual” estamos diante de um exercício de alguma esquizofrenia; conceber tal hipotética Morte não implica conceber também a total alienação desses mesmos Portugueses?

(Diogo Botelho leva-me, aos primeiros alvores da madrugada, a ver o Tejo, perto de Santarém, onde terminou a sua epopeia inglória. Pretendia Diogo obter o perdão Real com duas ofertas: uma, a notícia, ainda ausente do Reino, escrita nalguma carta do Vice-Rei que, algures no mar, ainda nem dobrara o Bojador, da construção bem sucedida, e já concluída, do forte de Diu; outra, a notícia do total domínio dos Mares do Sul pela Marinha Portuguesa, de que a sua viagem era prova inequívoca, a prova da excelsa e inimitável arte de velejar dos Portugueses, que lhes permitia, até, ir da Índia a Portugal numa pequena e frágil fusta. “Ao Bojador”, conta-me Diogo,” fui perseguido pela “Santa Maria”, com os seus quarenta canhões em cada bordo. Rumei aos mares dos Açores, e fiz uma bolina tão apertada e contrária à correnteza das vagas, que o Capitão desistiu de nós e mudou de rumo. Vê tu, uma fusta a escapar a uma Nau.”)
 
O contrário disto será pensar a“Vida de Portugal”! No pensar da vida, o que se concebe, de facto, é como se vai morrer, e assim se pode morrer bem. Os Portugueses, quando pensam a sua Pátria, estão num dos espaços próprios – outros há, certamente, como a consciência pessoal, a Família, o Templo - para bem conceber a sua própria Morte.

Os Portugueses sabem, graças aos seus Poetas, que, a ser valerosa, tal morte da mesma lei da morte os libertará, transformando-os em figuras redentoras.

Para os muitos de nós que não consigam libertar-se de triste e vil existência, agrilhoados à natureza e ao hábito da “besta sadia, cadáver adiado que procria “, essas figuras redentoras permitirão reencontrar um vínculo com o eterno humano que, sem elas, se perderia…

(O riso breve de Sarai, duvidando das duas misteriosas figuras que anunciavam a seu marido Abraão que ela iria ficar prenhe aos noventa anos, determinou que todas as mães que tiveram Sarai por antepassada, e dessa gravidez duvidada descenderam, tivessem de rir e louvar todos os nascimentos, sempre, e para além da dor do parto. Para elas, nunca há população a mais, só a menos. Dessa Mátria distante ouve-se de novo o riso cristalino de Sarai, olhando as tolas criaturas que somos, esquecidos dela.)

As benévolas e inefáveis agências que permitem a cada um de nós transmutar a morte em renascer, dão, deram e darão a Portugal a sua causa essencial de existir – isto dito, naturalmente, por uma das possíveis mitogenias que nos contam como nasceu a Pátria, e por aqueles que tal mitogenia acolhem e recriam.

Logo de entrada, na Introdução do livro, Miguel Real parece querer identificar e indicar as causas para o fim da Pátria - “aceleradíssima descristianização e desumanização ética da sociedade, uma rapidíssima submersão social numa tecnocracia científica anónima, “etc… Num primeiro relance, não parece que Miguel Real está a procurar apontar as causas que determinaram o fim dessas agências?

Mas esta perspectiva, a ser defendida pelo autor, não colocaria Miguel Real no grupo dos que crêem numa visão trancendental, a Pátria???

Ora, de forma bem explicita, Miguel Real, tanto na contracapa como no interior do livro afirmara-se, desde logo, com todas as letras, como estando “na linha de Eduardo Lourenço”… Não é curial afastá-lo ou desviá-lo da linha em que afirma querer seguir o seu caminho - mesmo se Real, por vezes, pareça, de forma subliminar, ansiar por algo mais….

Essa “linha de Eduardo Lourenço”, como é sabido, destacou-se por ter desenvolvido um ideário positivista agreste e sarcástico, de critica e refutação das teses e autores trancendentalistas… E hoje, passados os tempos pós-revolucionários, calados os aplausos dos esquerdistas ignorantes e dos epígonos à procura de orientação, feita já muita obra, não se vê que Eduardo Lourenço mais tenha feito que o simples engrossar do caudal dos que recusam e ridicularizam a causalidade intemporal na História, insistindo serôdiamente na absoluteidade e impenetrabilidade do tempo linear dos Iluministas e Deístas – serôdiamente, porque a Física dos primórdios do século XX refutou esse tempo de uma vez por todas - assim como recusou e ridicularizou a hipótese de inspiração divina e os seus humanos intérpretes, que relega para a gaveta das irracionalidades e das tonterias a necessitar de avaliação psicológica ou psiquiátrica, logo quando o século XXI vem afirmar a inexplicabilidade do que se cria com o que já era sabido antes, recusando a velha razão fardada de polícia da imaginação...

(Renato era um homem invisível. Daqueles que não se nota porque é igual a toda a gente, e não se reconhece porque é diferente de tudo. De profissão, rosacruciano. De escravidão, desenhador. Cruzávamo-nos na entrada do prédio, aqui e acolá, isto durante dois anos, até que começámos a sorrir e a dizer olá. Finalmente, um dia, ofereci-lhe boleia na minha mota. Para meu espanto, aceitou. Para meu desencanto, disse que ía para Sobral, a sua terra, o que me levou cerca de trinta minutos de caminho. Mas Renato ficou tocado com o meu gesto, e resolveu ser meu amigo. Naquele dia, ofereceu-me um café. Na semana seguinte, convidou-me para almoçar, e foi aí que acabou falando da sua aprendizagem rosacruz. Passados uns meses, contou-me que, num momento de extrema solidão, fora até à Costa da Caparica para se suicidar. Esperou pelo final da tarde, tirou parte das roupas, e atirou-se às ondas alterosas. Por duas vezes, as ondas deitaram-no para terra, deixando-o a rebolar na areia, mais contrariado que sufocado. “Resolvi então, disse-me o Renato com o seu meio sorriso, que ía fazer a última e decisiva tentativa. Para não falhar, só precisava de fazer uma coisa, mergulhar nas ondas e aspirar água para dentro dos pulmões.” )  

Portanto, essa “linha de Eduardo Lourenço” (e com ela Miguel Real…) acabará também por assinar, com o Tempo desempenhando as funções do sempre presente saturnino notário que mefistofélicamente certifica tais assinaturas, a sua subscrição do retrógrado catecismo materialista que, de forma patente ou discreta, impregnou todos os positivismos, todos os empirismos, todos os historicismos e existencialismos que se disseminaram pela Cultura Portuguesa nos últimos cento e cinquenta anos. Numa palavra, mais uma versão de um mesmo estrangeirismo. Nada de novo, para Portugal.

O método do diagnóstico

Não será estranho supôr que terá sido em Eduardo Lourenço que Miguel Real se inspirou para praticar um tipo de análise histórica, fenomenológica e sociológica que em muito se assemelha a um denso e exaustivo diagnóstico…

De facto, progredindo na leitura do livro, parece-nos, frequentemente, que o método é um autêntico diagnóstico a uma Psique Colectiva, e que esse diagnóstico toma a Cultura Portuguesa como se fosse o espólio agregado de todas as confissões do paciente Portugal, que se dispõe a fazer sessões de terapia, mostrando as suas várias manias e humores em cada uma das personagens que Miguel Real vai apresentando em sequência avassaladora.

Nestas condições, e com este método, não vemos que possa haver, (e lamenta-se o facto…), no rescaldo da publicação deste livro, um futuro diálogo inter pares viável, e eventualmente fecundo, entre “a linha de Lourenço e Real” e as restantes vozes de outras possíveis “linhas” intervenientes na cultura portuguesa, uma vez que, das posições e do método voluntáriamente escolhidos por este autor, resulta uma situação bastante incómoda, a saber:
- uns, são os que fazem o diagnóstico (e se presumem saudáveis)
- os outros, são os diagnosticados (e, óbviamente, presumidos doentes). 

Neste contexto e nesta metódica diagnose dos autores, temas, teses e eventos, Miguel Real acaba irremediavelmente onde começou - sózinho; e sózinho fica, a alinhar os doentes e a tipificar as suas doenças… Não fala com, só fala de.

(O Rei viu tudo ao contrário. O acto heróico de Diogo passou a segredo de Estado, pois mal iria o Poder Real se todo o mundo e ninguém pudesse ir e vir à Índia em barcaças de pesca… No cárcere do forte de Santarém, noite alta, Diogo via as labaredas bruxuleantes que irrompiam da sua velha fusta, fundeada no rio, que o Rei mandara queimar. No chiar de cada fibra daquele pinho em fogo contavam-se artes de marear que nem se teriam ouvido da Nau Catrineta. Diogo Botelho percebeu que estava destinado a prisão perpétua, herói do feito que a Razão de Estado queria impossível, e manteria no maior pecado da nossa Pátria, a política do sigilo.) 

De facto, Miguel Real situa-se sempre, neste livro, do lado exterior dos eventos, dos temas, das teses e dos autores.

Fazendo sínteses rápidas, como se tomando notas sobre os sintomas que vai observando e recolhendo na visita rápida à enfermaria, Miguel Real avança depois para os diagnósticos finais.

Nem uma só vez se arrisca Miguel Real à entrada na alma de um autor, à simpatia de assumir uma tese e caminhar com o autor até onde ela possa levar; em vez alguma Miguel Real ausculta os anseios para entender os fins. Apenas toma o pulso, mede a febre e, por vezes, sugere o tratamento. Em 110 páginas de livro, Miguel Real diagnostica, assim, em célere visita médica, cerca de 300 autores.

 

(Renato ficou silencioso alguns momentos, naquela sua patente paz de alma, na sua pequenez assumida com a grandeza de todos os pacientes, que por não serem nada, estão prontos para tudo. Eu não resisti, confesso, e quebrei o pairar daquela nuvem de evocações e perguntei-lhe a pergunta dos brutos: "então e o que aconteceu? ". Renato abriu aquele meio sorriso desarmante, que quase me fez corar, ao expôr a minha despropositada inquietação. “Ah… foi curioso. Estava tão decidido que até perdi o pudor e tirei as calças, fiquei nu. E avancei para o mar. E antes de correr para as ondas ainda olhei para cima e disse, entre dentes, cheio de convicção, senão de razão: já me chega!... Mergulhei nas ondas e, debaixo de água, como decidira, aspirei.)

Auguramos sucesso a este livro. Com a sua visão exterior e sintetizante, com a enorme densidade de autores que não só menciona, como diagnostica e situa no fluxo dos acontecimentos históricos, este livro poderá ser, para a futura população universitária estudiosa da Cultura Portuguesa o que a Estação do Entroncamento era para o caminho-de-ferro Português. Todos terão de passar por lá! E, naturalmente, quantos mais lá forem passando, mais passarão.

Um livro que irá ser, portanto, muito citado - logo, um livro importante.


Sob o signo do Quatro

A aplicação do método que descrevemos acima leva Miguel Real a detectar e apresentar, logo na Introdução que tem o mesmo título do livro, a existência de quatro “complexos culturais”, que envolvem e condicionam a constelação cultural e civilizacional constituinte “da realidade histórica designada por Portugal”, realidade essa que se encontra esgotada e, prognostica o Autor, “está a chegar ao fim”.

Após esta primeira intervenção, de que resulta um prognóstico de cuja gravidade o leitor dificilmente se libertará até ao final da obra, Miguel Real avança para uma descrição intensa e resumida dos séculos de maleitas e achaques que o levaram a exarar tão grave conclusão premonitória.

(Diogo Botelho conhecera Umar Rasjid nas celas de Goa. Um malaio com antepassados árabes, um dervishe, preso por razão nenhuma mas também pouco preocupado com isso. Diogo partilhou cela com ele e uma noite, acordando de um pesadelo qualquer, tocou no corpo de Rasjid e julgou-o morto, tão frio que estava.
Quando se debruçou sobre ele com a candeia, ele abriu os olhos. Ficou imóvel, durante alguns minutos, recuperando os movimentos e o calor do corpo com gestos lentos e descontraídos. Também por gestos, fez depois saber a Diogo que estava bem, e quando Diogo lhe deu a entender que estranhara a sua baixa temperatura, Rasjid disse-lhe que fora voar – fez os gestos de um pássaro a sair pelas grades do janeloto que lhes dava luz. Aí começou a silenciosa conversa de Rasjid e Diogo. Sem palavras, sem doutrina. Só o estar e o agir. Primeiro, Diogo pecebeu que Rasjid se ausentava de vez em quando, e era aí que o seu corpo arrefecia. Rasjid, quando Diogo voltou a mostrar-se curioso com essa situação,  insistiu que voava; foi então que Diogo lhe disse que também queria. Velejar, sabia, voar ainda não.)

No entanto, já na parte final do livro, surge a diagnosticar também, de forma algo surpreendente, quatro “vectores culturais”, que parecem ser as últimas forças do paciente, aquelas que afastam ainda, e por enquanto, o estertor da morte. 

É nesta altura que nos apercebemos que este livro parece desenvolver-se sob o signo do número quatro, ou do ritmo quaternário. Senão, vejamos:
- o título tem quatro vocábulos
- o frontespício tem quatro referências ( três dedicatórias e uma citação)
- o texto tem quatro partes ( uma introdução e três capítulos…)
 a que se juntam depois:
- os quatro complexos
- os quatro vectores
Por mera sincronicidade (que fica bem, na companhia de “complexos” e “vectores”) se crê que é ainda de referir que o logotipo da própria editora, Campo das Letras, parece um quatro.

Carl Jung define sincronicidade da seguinte forma: Dois ou mais eventos que coincidem no tempo, sem que as suas causas estejam relacionadas, e que têm ou apresentam o mesmo significado.

( “E então?” perguntei novamente a Renato, ansioso pelo final da história de que ficara suspenso.” Então? Entrou ar!”, disse ele. “ Como?”” Sim, entrou ar! Eu fiz exactamente o que premeditara, mas quando estou dentro da onda, e aspiro, em vez de água, entra ar…”
Ficamos os dois calados alguns momentos, e na minha mente não duvido um instante da sua desprendida sinceridade.
“ Depois a onda atirou-me outra vez para terra, e eu resolvi desistir. Percebi que ainda não tinha chegado a minha Hora.”)

Sendo o criador do conceito de complexo, temos de trazer aqui o ilustre Carl Jung porque este seu conceito desempenha papel fulcral, decisivo até, na tecitura dos argumentos que Miguel Real ordena em sequência que se pretende explicativa do estado comatoso de Portugal.

O quatro é um número estável, de tendencial imobilidade. Apenas ganha movimento na relação proporcional que permite resolver a incógnita da regra de três simples…Aí, dá-se o salto pensante que justificou a palavra “analogia”.

Miguel Real tenta a equação, mas falta-lhe, para a proporção ou raciocíno analógico, o quarto termo, ou incógnita da regra de três simples.

Miguel Real fala-nos do nascer, do viver e do morrer de Portugal.

São apenas trés momentos, mas descritos sob o ritmo quaternário pelos já anteriormente referidos quatro complexos, que elenca da seguinte maneira – o nascimento, virtuoso e heróico, por Viriato e Afonso Henriques, a vida, numa fase afirmativa e superior, que culmina no Período das Descobertas, e noutra fase patética e inferior concluída pela acção arrasadora da governação Pombalina e, finalmente, a agonia da morte anunciada, que se desenrola no período contemporâneo de canibalismo cultural, autofagia suicidária que nos conduz inevitavelmente ao fim. “Não temos feito história da cultura com o pensamento,”diz Miguel Real, ”mas com o sangue, alimentando-nos antropofagicamente do corpo do adversário – eis o complexo canibalista português que nos tem definido.”

Estes três momentos, em que o desdobramento de um deles em dois permite a exposição em ritmo quaternário, são a marca do raciocínio baseado no paradigma da física Moderna, de Galileu e Newton, a física do tempo linear e unidireccional, que pariu a obsessão da causalidade sequencial onde se alimentaram e cresceram todos os positivistas, incluindo, como está de ver, a “linha de Lourenço e Real”.

Embora Miguel Real, como dissémos acima, pareça, por vezes, ansiar por mais, é o próprio texto que escreveu que vem falar por si…

Retomemos a obra de Jung, e os conceitos de “complexo” e “sincronicidade”. Miguel Real fala de “complexos”, mas ignora totalmente a “sincronicidade”. Porquê? O que nos pode sugerir, em relação ao pensamento de Miguel Real, esta escolha e esta omissão?

Uma breve exegese dos conceitos Jungianos leva-nos a concluir que “complexo” é o conceito de causa material, potencialidade e indeterminação, ou força, no esquema causal do pensamento de Jung. Torna-se já claro que este será, então, um conceito facilmente adoptado por positivistas, por se enquadrar cómodamente no seu esquema mecanicista de compreensão do movimento, que é entendido como consequência cega de uma relação causa-efeito, tudo isto medido, restritamente, em escala quantitativa, material, objectal e indeterminada, isto é, sem individuação, forma, substância ou sujeito. Mas sendo este conceito de “complexo”, não de um físico mas de um psicólogo, a sua origem e conotações permitem e facilitam a sua aplicação em teses sobre as sociedades humanas ou, no caso em apreço, sobre um País, persona colectiva que, presume-se, espelha a psique dos indivíduos que, a cada momento, a constituem.   

Miguel Real adoptou, portanto, sem discussão, como se fosse um dos termos mais credíveis e consensuais da Cultura Portuguesa, este conceito de “complexo”.

(Diogo apercebeu-se que Rasjid o observava, quando ele percorria, inquieto, os limites da cela. Um dia, Rasjid fê-lo sentar. Sentou-se em frente dele e perguntou-lhe se ele queria, realmente, aprender a voar. Claro, respondeu Diogo. Rasjid gesticulou, explicando-lhe que andar assim inquieto, como tigre enjaulado, não ajudava. Fez-lhe sinal que se acalmasse. Depois, por alguns momentos, entoou uma daquelas melopeias muçulmanas, sempre iguais e sempre diferentes. De seguida fechou os olhos, respirou pausadamente; por fim, avançou a mão sobre o peito de Diogo e “aqueceu-lhe” o coração. Por breves momentos, deixou a mão parada em frente ao peito de Diogo. Quando recuou, Diogo tinha já sentido germinar a energia plácida que iria aprender a cultivar, e que o levou ao “corpo de sonho” com que começou a conseguir reconhecer e acompanhar as escapadas de Rasjid. Se não fosse ter sido empurrado à força para dentro da fusta, se não tivesse sentido o vento salgado nas narinas e grande saudade do Reino, nunca teria abandonado o Sufi Umar Rasjid.)

Que podemos esperar de um Portugal que seja concebido sem “sincronicidade”, mas apenas como essa consequência mecânica da acção de forças, agrupadas e perfiladas em “complexos”?

Que podemos esperar desse Portugal, filho da obra alquímica do historiador positivista Miguel Real, senão a cor plúmbea da Fatalidade que Miguel Real nos anuncia pelo livro fora, ao clamar o fim de Portugal?

Mas, levemos a questão mais longe e mais alto: a obra alquímica positivista que outra coisa faz, há cem anos, senão chumbo? Sim, desta Pátria, os positivistas só souberam fazer chumbo!!! Porque densificaram tudo o que tendia ao etéreo, quantificaram tudo o que aspirava à qualidade, prenderam na feroz cadeia da causalidade racionalista tudo o que aspirava à liberdade …

Nesse caixão de chumbo jaz, agora, a persona da Pátria.

Dá-se então, (por milagre – o milagre é a ocorrência mais comum na vida, aos olhos de qualquer criança) - a “sincronicidade”; actua o elemento criativo, a forma vital e movente, da psicologia analítica de Jung. Os eventos sincrónicos são criações no tempo. Ao contrário das qualidades dos números naturais, ou ao contrário da velocidade da luz, os eventos sincrónicos não têm permanência ad eternum.

A sincronicidade é a expressão de uma realidade ideal numa coincidência momentânea, e significativa, entre um evento exterior, físico, e um evento interior, psíquico.

Olhemos então agora para os “quatro vectores” que Miguel Real lança, quase em desespero, como se setas fossem, na defesa de sua dama indefesa, a Pátria agonizante no cinzento féretro.

A desdita deste País estende-se, segundo Miguel Real, por séculos, e apenas parece não se afirmar no período de 150 anos (“ de 1415, conquista de Ceuta, a 1539, instauração da Inquisição em Portugal”), durante o qual fomos “pioneiros da mundialização da Europa”.

(Renato veio despedir-se de mim. Com o mesmo ar de total ausência de vaidade, presença, importância. Com o mesmo ar de não estar pior por isso. Com o advento dos computadores, os desenhadores como ele tornaram-se numa espécie em extinção. Fora despedido, ía voltar à terra. Demos um breve abraço, e percebi que nunca mais nos voltaríamos a ver, para falar dos treinos dos rosacrucianos. Ele percebeu que eu tinha percebido, e resolveu dar-me, pela primeira vez, não o meio sorriso, mas o sorriso completo. É que fôra bom, estava tudo bem, e chegara a hora. Adeus, Renato.)
 
Essa decadência é-nos descrita em longos parágrafos ilustrativos, quase exaltados na sua intensidade narrativa, por vezes com laivos de uma saga romanesca, mas em que os personagens do enredo são géneros ou generalidades, abstrações, não entes concretos com que o autor se relaciona...  Súbitamente, essa descendente degeneração é interrompida pela erupção de “quatro espantosas reacções, na segunda metade do século XIX” que irão “ desenhar os contornos da cultura portuguesa no século XX.”

A que se devem essas “quatro espantosas reacções”?

Eis como, de forma assaz sucinta, elas são introduzidas e justificadas…

“Em 1890”, diz-nos Miguel Real, “Portugal era um país morto, culturalmente falhado, recriando apenas - apenas e só – o que provinha do estrangeiro, principalmente de França.”. “Acompanhando a crise do Ultimatum, a decadência da monarquia, asfixiada às mãos de positivistas republicanos, e a crise do liberalismo português,” e “como reacção ao intenso vazio cultural gerado pela perda da referência dominante do pensamento religioso em Portugal desde o consulado do Marquês de Pombal”, surgem esses quatro vectores “que constituirão a configuração ou o quadro geral do pensamento português até ao ano 2000”. 

Tínhamos dito acima que Miguel Real falhara o quarto termo, o do salto analógico, apontando apenas a sequência unidireccional do nascer, viver e morrer de Portugal. Agora, para podermos seguir adiante, é tempo de enunciar os quatro termos da simples regra de três simples, a compôr: o Nascimento está para a Morte como a Vida está para o Destino.
 
O Destino é a incógnita que Real falhou, o quarto termo, a chave para a analogia.

Sem teorizar o Destino de Portugal, sem nos transmitir, portanto, o ver a Pátria, Miguel Real, para sua e nossa incomodidade e frustração, acabou remetendo-se e remetendo-nos para a contraface plúmbea desse Destino, uma inominada Fatalidade, que nunca mencionou directamente, mas corporizou na decadência quase ininterrupta que vai descrevendo e, já em etapa derradeira, no “fim anunciado” que resultará do canibalismo cultural Português que considera vigente até aos dias de hoje.

Mas a Pátria de Pedro e Inês, a Pátria da Rainha coroada depois de morta, a Pátria do Amor e da Morte está, imaginemos (quem no-lo impede?), tão só a cumprir mais um passo do seu Destino – e assim se deita, bela, exangue e transfigurada, no caixão.

Que há a temer, então? Aquelas vozes truantes e dominantes, as vozes de chumbo? Não!!!... Essas, que fique claro, são as que compõem o caixão, e desse processo alquímico, desse cadinho, manda a sua própria natureza, não podem sair!

Falta-nos o Rei que erga Inês, o Príncipe que beije a Bela Adormecida?

(Diogo vê as labaredas da sua fusta e com elas vê esfumar-se na noite a sua liberdade; olha as grades da sua cela e vê-se caído em desgraça perante a “vontade de El-rei D. João II”. Senta-se no catre e percebe que só poderá dali sair como Rasjid, o sheik, saía da sua cela em Goa. Entoa então louvores, no canto gutural sufi. O coração lembra, e acorda. Pela frente, muitos anos para girar. Tantos, que se habituou ao corpo de sonho e não voltou à cela, quando chegou a Hora. Eu acabei por lhe dizer, na última vez que me veio acordar:” Diogo Botelho, pára de me importunar. Que culpa tenho eu que sejas fantasma?” Lá zarpou…)

Podemos supôr que, dos “quatro vectores” que Miguel Real aponta como os agentes vivos da Cultura Portuguesa, (a serem verídicos, e correcta a sua análise…), de agora em diante um deles irá assumir-se como a incónita que vai resolver o impasse desta nova, e sempre simples, regra de três simples.

Sabemos já, também, que destes quatro vectores, alguns se auto-excluem da função de serem essa incógnita potenciadora e resolvente do raciocínio analógico, do salto no tempo vertical.

A “linha de Eduardo Lourenço” é um deles, certamente.

Nessa linha, segundo ele próprio nos diz (e, como já dissémos antes, não é curial contradizê-lo em tal afirmação), está Miguel Real.

Não iremos adiantar mais detalhes sobre os “quatro vectores”, para não coartar a curiosidade dos futuros leitores de Miguel Real. Aceitam-se apostas, prognósticos e premonições sobre a acção ou movimento que irão descrever, no tempo vindouro, cada um desses vectores.

Mas, para mim, respondida está já a questão inicial…

(Sequem-se-me as lágrimas, pois “Morte de Portugal” não quer dizer, neste caso e neste livro, a Morte da Pátria.)

 Neste livro fala-se, como se tornou evidente, do País, fala-se apenas do que depende da geração e da corrupção.


Notas finais:

…do estilo
A escrita de Miguel Real é fluente e conduz o leitor de forma consistente. Mas o seu estilo tropeça, por vezes, em alguns neologismos de mau gosto sonoro e trôpega dicção. É o caso de vocábulos como: rupturalizadora (pág. 92, linha 15) ou o estonteante advérbio “europeiamente”, que apenas apresenta a vantagem de poder dar um jogo engraçado, o jogo de adivinhar o verbo que lhe está na origem...

 … do rigor
O “Campo das Letras” terá de rever o trabalho dos seus revisores. Não é aceitável que se deixem passar à estampa calinadas como “Paquito” Rebelo, em vez de Pequito Rebelo, ou Joaquim “Domingos” em vez de Joaquim Domingues.


Lisboa, 11 de Fevereiro de 2008.

João Seabra Botelho