«A Ilha» Sup.cultural nº4/1 a 14 Jan.1971

Suaves

Cavaleiros

1 - O que os governos idolatram

O governo das sociedades contemporâneas é orientado segundo um princípio absolutizado e universalizado, a que tudo se deve subordinar: o princípio da economia.

O predomínio absoluto deste princípio começou por constituir a arma que conquistou para a burguesia o domínio das sociedades. Conquistado esse domínio, logo o princípio da economia se revelou instrumento da mais flagrante e dolorosa injustiça. Multiplicaram-se as suas vítimas vertiginosamente, até abrangerem a quase totalidade dos homens.

Quando essa injustiça, assim estabelecida, ficou patente e adquiriu as proporções de escândalo, procurou-se atribuir às modalidades e processos de aplicação do princípio, não ao próprio princípio, a sua origem e causa. Mantendo-se assim, no seu pedestal, esse princípio absoluto e único, reforçando-o e elevando-o até mais alto, dividiram-se em duas correntes principais os adoradores do ídolo - chamaram-se uns socialistas, chamaram-se outros capitalistas. O que os distingue é apenas a modalidade, o processo daquilo que ambos os grupos designam por «distribuição da riqueza», designação sarcástica pois do que efectivamente se trata é da «distribuição da pobreza». De qualquer modo, o ídolo é o mesmo, o princípio fica intocável e sua soberania continua a ser total.

2 - O contrário das revoluções inúteis

Ora o que nos anos mais recentes começou a ser posto em causa foi o próprio princípio. Não apenas a sua soberania, mas ele mesmo, como príncipio ordenador de classes, hierarquias e possibilidades de vida dos homens integrados nas organizações sociais.

Quem o põe em causa, sejam personalidades ou grupos que se vão manifestando aqui e além, sem propósito coordenado e prévio, logo sofre o ferrete social do réprobo, imediatamente se vê segregado. Como os cristãos refugiados nas catacumbas, como tudo o que os cristãos representaram na fase final declínio de uma civilização e início de outra. E, ao contrário das revoluções inúteis - as que se destinam a mudar «o que isto é por aquilo que isto tem sido, ou as que se destinam a convencer-nos a todos de que «é preciso que todos mudem para que tudo fique na mesma» - ao contrário dessas espalhafatosas revoluções inúteis, os que põem agora em causa o princípio soberano da ordem e da injustiça fazem-no silenciosamente. Sem ruído, sem escândalo. Suaves cavaleiros.

3 - O regresso à natureza

Uma das manifestações é o regresso à natureza. O princípio soberano da economia abomina e condena a natureza. Os próceres dele, no dealbar do seu domínio, logo o condenaram. Na origem, Lutero. Depois Kant pôde dizer: «Falam-me da beleza de um céu estrelado... A mim, um céu cheio de estrelas apenas me lembra um rosto picado de bexigas». E outro, Hegel: «Vale mais a mínima ideia que perpassa no cérebro de um homem, do que o mais deslumbrante espectáculo de natureza.» ou « Que dizer das montanhas e sua beleza? Apenas isto: que elas aí estão». E logo outro, repetitivo, o sacerdote-mor da economia, Marx: «A vida rural? O idiotismo da vida rural!».

A natureza tem ritmos e cadências que só não desesperam os economistas e esta sua sociedade e civilização porque de vez os expulsaram dela e até julgaram tê-los expulso da real existência humana. A natureza, apenas a querem para lhe extrair as matérias primas da indústria. Mais nada. Os ritmos sociais da vida humana devem ser, hão-de de ser, são os industriais. Como industrial é toda a riqueza, toda a produção, todo o trabalho. Na indústria, sim, os ritmos são iguais, certos, inalteráveis; não estão sujeitos, como a natureza e os seus modos de criação, ao capricho imprevisível e à diversidade intolerável dos climas, estações, secretos ritmos e sopros. São planeáveis e contabilizáveis, introduzem-se em estatísticas, sujeitam-se ao cálculo e à previsão seguríssima.

Além disso, a natureza não pode ser o lugar do homem. O lugar do homem não é um lugar natural. O lugar do homem é a cidade - melhor, o burgo. Porque a cidade é romana e grega, sem muralhas em volta para a defender dos inimigos ou a proteger da natureza circundante. O lugar do homem é o burgo que nasce nas casas encostadas aos castelos e se alarga em ruas estreitas e sem praças, hoje só ruas para máquinas e rotundas para as máquinas virarem. Os campos em volta cortam-se de rodovias e cobrem-se de fábricas, e dos fumos e dos esgotos dessas fábricas. Industrializam-se.

4 - Marx está errado!

O princípio económico começa, pois, a ser posto em causa. Claro que nunca ele foi reconhecido pelos que sabem: os que simplesmente sabem ou, concedamos, sabem do homem, de sua natureza e seu espírito. Agora, porém, são as vítimas que se começam a erguer.

O sinal mais ostensivo veio de um estado americano, a Califórnia, que só por si tem sido a quinta potência industrial do mundo. Foi aí que as populações, ricas e prósperas, primeiro se surpreenderam de já não possuírem a natureza de que sempre tinham usufruído; os mares poluídos, as praias transformadas em esgotos, a atmosfera saturada de fumos, os campos cobertos de casas e ruas a perder de vista. Depois, sobre o assim sensível aos olhos, o que é sensível à inteligência e à alma: a uniforme monotonia do trabalho industrial, a ausência de descanso, repouso ou remanso, a carência de valores espirituais e psíquicos. Ao lado de todo este vazio, de toda esta inutilidade humana, que vale a famosa prosperidade económica? Que representa ela?Por que preço se paga?

E em breves anos a população da Califórnia vê surgir, formar-se, ampliar-se ameaçar as estruturas institucionais e políticas da quinta potência industrial do mundo, uma nova e perturbante espécie social. E verifica, com espanto, que há vozes que se erguem e se ouvem contra a industrialização, contra a idolatria do princípio económico, contra a monotonia do trabalho fabril, contra a sua próspera e ôca produtividade. As vozes dirigem-se também aos possidentes e aos proletários, e procuram ser persuasivas. A minoria inicial alarga-se subitamente e representa quase um terço da população.

O governador do Estado1, veterano do cinema e representante da velha sociedade ainda dominante, exprime bem o que é e o que representa quando, em discurso público, responde às novas e estranhas minorias:« Quem viu uma árvore, viu todas as árvores». E os operários mais irremediavelmente disciplinados e fartos, em côro: «estes tipos querem ensinar-nos aquilo de que havemos de gostar...».

Entretanto, o que se torna grave e temível é que a minoria, inicialmente considerada utópica e louca, se põe a crescer e ameaça atingir um decisivo poder eleitoral. Durante dois anos o «establishment» organiza-se e promove uma vasta e persistente campanha, lançando contra ela os poderes que, consoante a nunca desmentida teoria marxista, constituem os dois únicos sectores ou classes de toda a sociedade burguesa: os proprietários e os proletários, uns e outros contentes e satisfeitos na metade da laranja onde foram instalados. Ora os novos bárbaros recusam instalar-se, quer numa, quer noutra metade, não se identificam ou sequer se aliam com uns ou com outros, antes a ambos e ao seu comum mundo industrializado, economicizado e politizado, igualmente repudiam. E veio isto acontecer quando, precisamente, esse tratado de Tordesilhas social, burguês e marxista, estava prestes a atingir a plena e perfeita realização, quando já parecia não haver no mundo senão proprietários e proletários, triturados já os entes intermédios situados naquilo que Hegel chamava o «espírito absoluto» e levou Marx a declarar invertido todo o Hegelianismo. Quando, assim, a calmaria da burguesia industrializada parecia já nada ter que a ameaçasse, toda a sociedade composta só, não de homens nem de indivíduos, mas de classes, e estas reduzidas a duas, as únicas possíveis e reais, eis que começam a proliferar pelo mundo os que recusam, refutam, contestam, repudiam toda essa bela e secular construção, e com um poder só atribuível a uma classe vêm ameaçar exactamente o Estado mais progressivo, mais próspero, mais acabado e perfeito, essa idílica Califórnia, de outrora vastas praias, outrora largos campos e aconchegadora atmosfera, num clima tépido, invejável, desejável e aprazível.

Para mais, não constituem uma classe social - se atendermos ao que Marx ensinou sobre o que é uma classe social - definida pelas suas estruturas e factores económicos e, por eles, movendo sua actividade e delineando o seu modo de existir.

Marx, então, também está errado? O nosso avô Marx, de profusas barbas, profeta trovejante e criança ingénua, tão apto para papão dos capitalistas e paizinho russo dos socialistas, também está errado?! Uma minoria surge, ergue-se, seduz, amplia-se, e não podemos sequer encerrá-la nos quadros tão seguros de uma classe social? Uma minoria que conjuga tudo isso, todos esses - os que falam do espírito, da arte, do pensamento, dos deuses, coisas que tínhamos conseguido reduzir a um mero formalismo cerimonioso, que dizem que «o homem nasceu para ser feliz, ocioso e vário»? - tudo isso, todos esses que Marx nos prometera que seriam inexorávelmente repelidos, anulados, dissolvidos na evolução dialéctica, esmagados no choque das contradições dialécticas das duas únicas forças reais: os senhores e os servos, os capitalistas e os socialistas, os patrões e os operários???

5 - Os idólatras da liberdade matam os que são livres

Da Califórnia partem os dois suaves cavaleiros, num filme com uma bela história contada em imagens que correram mundo e seduziram a imaginação dos mais jovens. «Easy Rider» se chamava o filme, e o que narra é, na grande tradição das narrativas iniciáticas, uma viagem, da Califórnia até à Flórida, que são os países mediterrânicos da América. Da Califórnia até à Flórida como, portanto, o herói homérico desde Tróia até Ítaca. Mas o que eles cavalgando percorrem são domínios dos homens que vivem numa sociedade anquilosada, ainda não morta, mas já ressequida, dura, impiedosa e cruel.

Dormem, à noite, debaixo de árvores e do céu estrelado. Antes de adormecerem, conversam sobre esses homens e essa sociedade que os repele e segrega, os insulta e ameaça. «Eles falam muito da liberdade. Mas a liberdade é, para eles, só isso, isso de que se fala e que é só para se falar. Se encontram alguém que seja já efectivamente livre, logo o assassinam».

A meio caminho, junta-se-lhes um companheiro que saberá levá-los até onde é preciso que vão. Um templo? Um prostíbulo? Seguem-no, confiantes. O companheiro não só possui um segredo, como é alegre e feliz. Encontraram-no na prisão de uma cidade onde, por embriagado e apesar de ser filho-de-família burguês, o encerraram por uma noite. Como a eles. Saíram juntos da prisão e seguiram caminho juntos. Para irem até onde ele os saberia levar. Mas os homens por quem passaram farejam o perigo e, às portas disso a que ele os levava, quando dormiam esperando a madrugada para entrar, assassinaram-no à paulada. Assim, têm os outros de entrar sózinhos, lá onde entraram, templo ou prostíbulo, entre os cânticos do Kyrie Eleison. Depois, a rapariga que vem com eles apenas lhes diz:«Eu sou Maria». Há então um momento (breve ou longo?) de delírio. entre os cânticos, confundem-se as imagens de rosas e de cruzes. e a si mesmo se surpreendem, mais tarde, outra vez suavemente cavalgando, easy rider, na estrada sem destino.

Os de um camião que passa, farejando o mesmo perigo que já tinham farejado no amigo morto, ficam possessos de ódio sem razão. Apontam as armas, disparam, e deixam-nos estoirados à beira da estrada.


1 Á época (Janeiro de 1971), o governador era Ronald Reagan.