Traduções Portuguesas de Filosofia

Subsídios para a história da filosofia portuguesa

Segunda Parte

I. A filosofia grega

a) Os pré-socráticos

A cultura clássica, e sobretudo a filosofia grega, nunca despertou entre nós o interesse e a atenção que outros povos lhe dedicam, apesar de o aristotelismo constituir uma constante cultural e mental do pensamento português.

Dos pré-socráticos apenas se traduziram os Versos de Ouro, de Pitágoras, no século XVIII. Dever-se-á isso explicar pelas dificuldades de erudição que a sua tradução e interpretação oferecem e, sobretudo, porque o interesse pelos pré-socráticos só pode ser despertado pelo prévio conhecimento da filosofia grega, em especial de Platão e Aristóteles, caso não seja promovido por motivos de erudição religiosa.

Com efeito, o que existe dos pré-socráticos são fragmentos de obras, portanto textos dispersos cuja unidade depende, ou das interpretações feitas por Aristóteles e Platão, ou da sua referência à religião grega. Por outro lado, a cultura portuguesa não possui aquela riqueza de investigação e erudição que caracteriza a cultura alemã, à qual se devem os principais estudos dos pré-socráticos.

Entre nós, além daquela publicação dos Versos de Ouro, não só não há traduções de textos como não há estudos sobre a filosofia grega anterior a Sócrates. Em referência a esse período da filosofia antiga, apenas conhecemos uma colectânea de poemas extraídos dos pré-socráticos, publicada em 1919 pelo discípulo de Leonardo Coimbra, Ângelo Ribeiro, com o título de Verbo Antigo.

Outras referências a pré-socráticos, só as encontramos, muito recentemente, em alguns ensaios de Eudoro de Sousa e nos estudos de Maia Pinto sobre o platonismo. É interessante verificar que estes três escritores são tradutores de obras de Platão e de Aristóteles.

b) Platão

É Platão o filósofo que mais traduções conta na nossa língua, datando a primeira de 1823: a de Manuel Aleixo Duarte, Diálogos Socráticos. Antes dessa, em 1790, foi publicada por Luís António de Azevedo, o tradutor dos Versos de Ouro, a tradução de uma obra que era, então, erradamente atribuída a Platão: Rivais ou Diálogo Moral sobre a Justiça.

Depois daquela primeira tradução, aparece em 1849 a de Constituição do Filósofo, por J. Antunes da Silva, para só em 1919 – quase um século de intervalo – se publicar o Fédon, em tradução de Ângelo Ribeiro, com um significativo prefácio de Leonardo Coimbra.

De então até hoje têm-se sucedido as traduções de Platão, a última das quais, O Timeu, é apresentada com um comentário a todo o texto, da autoria de Manuel da Maia Pinto. Entre os tradutores de Platão, contam-se três discípulos de Leonardo Coimbra, Ãngelo Ribeiro, Sant'Ana Dionísio e Agostinho da Silva. É difícil, no entanto, determinar a relação entre o pensamento de Leonardo Coimbra e o platonismo, mais se afigurando que a promoção daquelas publicações está ligada ao interesse que tais obras oferecem como uma iniciação ao pensamento filosófico.

Já, porém, no mais abundante tradutor de Platão se pode ver a relação que existe entre essas traduções e a actividade de professor de matemática e de propugnador da democracia que Lobo Vilela exerce.

Pelo contrário, a tradução de Maia Pinto de O Timeu tem por fim documentar uma teoria sobre o platonismo em que aquele escritor pretende que a maior parte dos diálogos atribuídos a Platão são da autoria dos sofistas com quem o discípulo de Sócrates travou uma polémica profanadora e sacrílega do mais profundo pensamento grego. Maia Pinto expõe esta teoria em A Polémica Platão v. Sofistas e, precisamente, nos comentários que fez a tradução de O Timeu.

c) Aristóteles

Aristóteles é, dentre todos os filósofos, o que maior influência exerceu e exerce no pensamento português. Durante o longo período do ensino da escolástica, que se prolonga até ao marquês de Pombal, os Portugueses distinguem-se entre todos os comentaristas de Aristóteles.

Mas, então, Aristóteles era lido e comentado em latim, não havendo, pois, nem motivo nem lugar para tradução. Com a reforma do marquês de Pombal, manda-se proscrever o «abominável ensino de Aristóteles».

Todavia, é significativo que, datando a reforma de 1773, em 1779 sejam editadas duas traduções da Poética, e que em 1814 o principal representante da nossa filosofia, Silvestre Pinheiro Ferreira, pensador actualizado com segura e ampla informação da filosofia moderna, traduza o Livro das Categorias, que edita no Rio de Janeiro.

O marasmo em que, durante quase todo o século XIX, jaz o cultivo de filosofia e, depois, o predomínio do positivismo, sobretudo como uma filosofia do pensamento científico, explicarão que só em 1941 torne a aparecer uma tradução de Aristóteles, e essa de um trecho de Política. É significativo, todavia, que o movimento de sistematização da filosofia portuguesa seja iniciado nessa altura, que declare o aristotelismo característico dela e que um escritor ligado a esse movimento, Eudoro de Sousa, publique uma tradução da Poética, elaborada com todo o rigor científico e precedida de uma notável introdução.

2. Filosofia Latina

A cultura latina não está ligada a uma filosofia original, e foi preciso que se iniciasse a sua decadência para que, com Marco Aurélio, Boécio e, sobretudo, Epicteto, se viesse definitivamente afirmar uma expressão especulativa que, com demasiada frequência confundida com uma simples moral, só nos últimos tempos começou a ser considerada, a partir das obras de Bréhier e Victor Goldschemidt, como uma filosofia de acção e do tempo.

Nos próprios estóicos, a expressão está ligada a formas aforísticas ou dialogadas, como máximas e pensamentos, que não são as mais adequadas à exposição sistemática. Todavia, a tradução dos estóicos ainda não foi realizada em português com aquele sentido de actualização que confere valor especulativo à tarefa do tradutor. Com efeito, as publicações de excertos de Marco Aurélio e de Epicteto, promovidas por António Sérgio e Agostinho da Silva, são inseparáveis, no primeiro, também tradutor de moralistas franceses e cartesianos, de uma finalidade moralista, e, no segundo, educativa. A tradução completa do Manual de Epicteto, feita em 1594 por D. Fr. António de Sousa, parece-nos dever explicar-se pelas característica preferência que os pensadores espanhóis sempre têm dedicado à filosofia estóica.

De todos os pensadores romanos, é Cícero o que conta mais traduções em português: a primeira em 1531, a última em 1869. Numa língua em que os grandes filósofos clássicos ainda não estão traduzidos, parece-nos que tal preferência se deve atribuir ao valor literário e aos paradigmas de oratória que as obras de Cícero apresentam. Note-se que o eloquente escritor romano deixa de ser traduzido a partir do período de predomínio do positivismo; a oratória não tinha lugar na classificação das ciências de Augusto Comte nem se podia adequar ao método de investigação e exposição científica.

É certo que com o predomínio do positivismo coincide a propaganda republicana, que foi uma fecunda escola de oradores; esta oratória limitava-se, porém, em aspectos de mera propaganda, que tornam ilegíveis e inaudíveis, hoje, os discursos dos grandes oradores republicanos e monárquicos. Era a oratória da oportunidade, não a da sabedoria.

Entendemos dever incluir nesta bibliografia dois autores cujas obras, embora de índole literária implicam, por um lado, a expressão do mais profundo pensamento filosófico romano e, por outro lado, foram traduzidas mais por intuitos filosóficos do que literários.

Referimo-nos a Lucrécio e a Apuleio. Tal implicação é bem conhecida no poema A Natureza das Coisas. Quanto ao livro de Apuleio O Burro de Ouro, o barão de Vila Nova de Foz Côa fez preceder a tradução de um longo prefácio em que indica os motivos filosóficos que o levaram a realizar a publicação de uma obra que, embora seja um romance, constitui nessa forma uma alegoria de importante significado religioso e filosófico.

3.Medievalismo

Com o medievalismo, os pensadores portugueses participam, de maneira ampla, profunda e valiosa no pensamento filosófico. Logo nos alvores da Nacionalidade, a obra de Pedro Hispano fornece à escolástica as Súmulas Lógicas em que vai assentar o ensino da filosofia durante quatro séculos; Santo António elabora uma sistematização que vai perdurar como filosofia do franciscanismo; os Conimbricenses desenvolvem, nos comentários das obras de Aristóteles, os fundamentos filosóficos do pensamento escolástico.

Esta contribuição dos Portugueses só pode ser minorada quando se queira concluir pela persistência na asserção da incapacidade filosófica da nossa mentalidade. Todavia, tão importantes afirmações especulativas consistiram na contribuição a um pensamento alheio ao nosso idioma, expresso em latim, e no qual não havia lugar nem tinha sentido a actualização nacional e idiomática de obras de filosofia.

Com o advento do iluminismo, a escolástica sofreu em Portugal um rude golpe, que durante um século a cobriu de descrédito. Contra isso não souberam lutar os clericais, como o testemunha o insuspeito tomista Ferreira Deusdado no ensaio La Philosophie Thomiste en Portugal. O neotomismo foi introduzido em Portugal pelo mesmo Ferreira Deusdado e tal acontecimento deveria ter provocado uma renovação dos estudos sobre São Tomás e outros filósofos escolásticos, para o que seriam indispensáveis as respectivas traduções.

Ora, mais de meio século depois da encíclica Aeterni Patris, a língua portuguesa ainda não conta com qualquer tradução do Doutor Angélico, não conta sequer com a tradução dos grandes escolásticos portugueses e só em 1942 apareceu uma tradução das Confissões de Santo Agostinho, por J. Oliveira Santos, e em 1948 uma outra da Redução de todas as Ciências à Teologia, de São Boaventura, pelo Padre Ilídio de Sousa Ribeiro, a que veio acrescentar-se, em 1957, o livro de Santo Agostinho Contra Académicos. A tal penúria se encontra reduzida a bibliografia de traduções das obras de um pensamento que pertence à «mais filosófica de todas as religiões».