Traduções Portuguesas de Filosofia

Subsídios para a história da filosofia portuguesa

Terceira Parte

4. Filosofia Moderna

a) Descartes

A relação que há entre a obra de Descartes e a actividade da Companhia de Jesus, que então denominava o ensino em Portugal, explica que de todos os pensadores do Renascimento, tenha sido esse o mais conhecido e divulgado entre nós até que Verney, certamente pelos mesmos motivos, o tenha desvalorizado e desdenhado.

Não chegaram os primeiros a levar a divulgação de Descartes até ao ponto de traduzirem os seus livros, tradução que, depois da obra de Verney e da reforma pombalina do ensino, ficou comprometida.

Só em nossos dias, muito tardiamente portanto, se publicaram as traduções das Meditações Metafísicas, por António Sérgio, e do Discurso do Método e Tratado das Paixões da Alma, por Newton de Macedo.

b) Leibniz e Espinosa

Ao contrário de Descartes, Leibniz e Espinosa seriam suspeitos à filosofia que, na época deles, dominando o ensino, era oficialmente cultivada entre nós. Ambos se relacionavam, no aspecto religioso, com ortodoxias adversas ao catolicismo. E apesar de um ser de origem portuguesa e de o outro se referir com admiração aos pensadores portugueses, só em 1930 aparece uma tradução de Leibniz e em 1950 a da Ética de Espinosa.

Note-se que estas traduções, bem como a das Meditações Metafísicas de Descartes, são publicadas em colecções ligadas ao ensino universitário e dirigidas pelo Prof. Joaquim de Carvalho, de quem, nesta divulgação da filosofia moderna, António Sérgio tem sido o mais qualificado colaborador, traduzindo para aquelas colecções Descartes, Leibniz e ainda Berkeley (Três Diálogos entre Hilas e Filonus).

Uma observação interessante é a de que, sendo o Prof. Joaquim de Carvalho também um estudioso do pensamento hebraico, ainda não conseguiu promover a tradução do livro que constitui, ao lado do Quod Nihil Seitur de Francisco Sanches, a maior contribuição dos pensadores portugueses para a filosofia moderna: Diálogos de Amor, de Leão Hebreu, publicado em italiano. Quanto ao livro de Francisco Sanches, embora houvesse uma tradução de Basílio de Vasconcelos inserta na revista «O Instituto», só em 1950 ela foi publicada em livro pelo «Instituto de Alta Cultura», numa colecção dirigida também por um professor universitário.

Esta relação entre as traduções da filosofia moderna e o ensino oficial, se decerto valorizam este, não deixam de suscitar ao mesmo tempo certa desconfiança sobre o interesse que elas possam oferecer ao pensamento português. Com efeito, alguns autores, como o mostra o Pe. João Ferreira na sua Fundamentação Geral de Filosofia Portuguesa, caracterizam o pensamento português como acentuadamente realista e ametafísico, o que justificará, portanto algum alheamento de um pensamento, como é o da filosofia moderna, predominantemente metafísico e idealista.

c) Bacon

Cabe agora indicar o que aconteceu com a tradução do primeiro grande representante da filosofia moderna: Francisco Bacon. Consultado oficialmente pelo Governo de D.João V acerca da reforma do ensino, Jacob de Castro Sarmento aconselhou a tradução das obras completas de Francisco Bacon e aceitou a incumbência de ele mesmo se encarregar de as traduzir. Motivos desconhecidos impediram a realização desse projecto, mas por si só é ele significativo de como a reforma do ensino, que veio a ser feita pelo marquês de Pombal, estava já nas intenções de D.João V. Adiada, veio a ser promovida no reinado seguinte, mas, porventura, com uma directriz diferente: as obras de Bacon, que constituíram a base do ensino, foram substituídas pelo baixo iluminismo do compêndio de António Genovesi, de tão nefastas consequências para o destino do pensamento português.

Só em 1952 Álvaro Ribeiro traduz os Ensaios de Bacon, explicando que “todas as obras de Francisco Bacon são dignas de estudo pelos pensadores portugueses porque contém alta doutrina de valor perene como as obras de Aristóteles”.


6. A Filosofia do século XIX

Desde Kant, a abrir o século, até Bergson, a marcar o trânsito para o século seguinte, as grandes correntes filosóficas alemãs, inglesas e francesas têm em Portugal, se não representantes activos, pelo menos conhecedores bem informados.

Silvestre Ribeiro Ferreira, contemporâneo de Kant, e, a seguir, Cunha Rivara, não só estão informados como até expõem alguns aspectos do pensamento kantista. Hegel começa por ser admirado por Alexandre Herculano. Spencer, Stuart Mill e David Hume têm representantes coetâneos. O positivismo exerce entre nós uma influência esmagadora e o bergsonismo encontra em Leonardo Coimbra um dos seus mais notáveis representantes europeus. Este conhecimento, informação e influência não são, todavia, acompanhados das indispensáveis traduções, que só em nossos dias começam a ser feitas.

Tão impressionante ausência de traduções poderá explicar-se por vários motivos: pela hostilidade do ambiente para com a filosofia (o próprio Herculano, admirador de Hegel, espalha expressões de desdém pela filosofia); superficial conhecimento dos filósofos por aqueles mesmos que dizem segui-los (caso de Antero, que, considerando-se decisivamente influenciado pelo pensamento de Hegel, apenas o conhece através das adaptações, em francês, de Vera); e inadequação entre a fidelidade a um sistema filosófico e a expressão que dele dão os representantes portugueses (caso do positivismo, mais conhecido através de Littré do que de Augusto Comte e utilizado mais na sua exterior estrutura do que no intrínseco pensamento).

A todos estes, e mais motivos, sobreleva o de se reduzir um escol intelectual o interesse pela filosofia, como aconteceu com o bergsonismo; os representantes desse escol podem consultar os livros no idioma original antes de proporem a sistematização da filosofia portuguesa, o que corresponde também a culturalizar a filosofia.

Atribuído já, em nossos dias, valor cultural ao pensamento especulativo, podem hoje traduzir-se, por motivos estritamente filosóficos, os livros que apenas se traduziam para fins de propaganda política ou religiosa. Dificilmente se adaptam a tais fins filósofos como Kant ou Hegel, que só hoje começaram a ser traduzidos.

Podemos citar, como exemplo das últimas traduções de filosofia com fins políticos, a do livro de Benedetto Croce, O Que É Vivo e o Que É Morto na Filosofia de Hegel , publicada por Vitorino Nemésio em 1933, ano em que foi proclamada a Constituição Politica da República Portuguesa, de inspiração hegelista.

Perduram hoje, todavia, colecções de carácter filosófico com fins religiosos, como a que foi fundada por Leonardo Coimbra pouco antes de morrer, «Filosofia e Religião», mas que recebeu uma orientação alheia aos intuitos daquele filósofo.

Tais traduções oferecem inegável utilidade para o pensamento político e religioso, que assim se liberta das contingências da oportunidade, elevando-se da convicção e da crença à razão e à fé. Elas oferecem, no entanto, o perigo de subordinarem a filosofia, isto é, de darem dela uma versão cultural em que perde a sua suprema autonomia para se reduzir a uma teoria de direcção política e de fundamentação religiosa.

Grande parte das traduções de livros da filosofia novecentista encontra-se, pois, incluída nas numerosas colecções culturais que, a partir da implantação da República, procuraram corresponder ao intuito de reformar a mentalidade.

Entre tais colecções dever-se-ão referir como mais importantes: «Biblioteca de Educação Nacional», de carácter anarquista, dirigida por Agostinho Fortes, e a «Colecção Ciência e Religião», de apologética católica, dirigida por Gomes dos Santos.

Com a evolução da cultura no sentido de reconhecer o primado da filosofia, os editores vieram acentuando cada vez mais o critério da escolha dos livros segundo o seu valor filosófico, até que, no quarto decénio deste século, se podem publicar duas colecções exclusivamente dedicadas à filosofia: a da Livraria Atlântida, de Coimbra, intitulada «Filosofia e Ensaios», que não tem director; estas colecções foram precedidas pela «Colecção Studium», também de Coimbra, que, englobando «temas filosóficos, políticos e sociais», edita alguns livros de profundo interesse para a filosofia, preferentemente contemporâneos.

É naquelas duas colecções que é publicada pela primeira vez a tradução de textos integrais do pensador essencial na filosofia novecentista: Hegel.