Teoremas de Filosofia, Nº 1, 1969 (Ed.de autor, de 500 exe.)

Notas contra

a degradação do espírito

Segunda Parte

3. A psicologia moderna - especialmente aquela a que Klages chama «psicologia de escola» como a que domina o nosso ensino - procura evitar a palavra alma. E mais procura evitar a palavra «espírito». São, ambas, palavras que comprometem ou palavras que se dão por comprometidas.

De poucas terá a demagogia e a hipocrisia, sobretudo a dos políticos, abusado mais que da palavra «espírito». Por outro lado, ficou ela presa, no pensamento contemporâneo, ao sistema filosófico de Hegel, sistema demasiado rico, complexo e profundo para que do espírito se posssa falar sem o ter em conta, sem que, de algum modo, haja um compromisso hegelianista em todo o espiritualismo. Restituir a uma palavra degradada o sentido que lhe vem da noção que designa, seria a nobre tarefa dos filólogos, a que poucos pensadores se entregam. É significativo que o mais significativo filósofo do nosso tempo tenha a nobreza de o fazer.

Da «alma» é difícil falar e pensar sem ter de suportar o peso dos vários sistemas teológicos cristãos, sem que também se suponha um compromisso, aqui com a teologia. Carregados de especulação teológica que é pouco sério ignorar, a palavra e o conceito da «alma» logo transportam o pensador para o problema da imortalidade do homem. E o pensamento da imortalidade implica, primeiro, a incorporeidade da alma e, depois, a separatibilidade do corpo, atributos determinados e estudados por Aristóteles. Aristóteles considerava, porém, a psique como um composto, de que algumas partes são inseparáveis, outras separáveis do corpo, as primeiras sujeitas à corrupção e morte, as outras imortais e eternas. A teologia, porém, fez da alma uma unidade incindível e, portanto, se há separatividade do corpo, será de toda a alma. A alma fica sendo, por um lado, um conceito que arrasta consigo um sistema de crença religiosa e, por outro lado, uma negação da individualidade que no corpo se torna manifesta e evidente.

Ora tal como a relação entre a crença e a razão é suspeita à razão, assim também nenhuma psicologia pode deixar de ter por objecto, não decerto o corpo ou a individualidade patente no corpo, mas sem dúvida o que no corpo se manifesta e o explica embora só enquanto no corpo se manifesta.

Poucos psicólogos têm ousado declarar tais suspeitas perante a alma e o espírito. O modo como as exprimem é evitando os dois conceitos ou, pelo menos, as duas designações. Evitando-as radicalmente, como acontece com a chamada «psicologia de escola» que domina toda a «ciência oficial» (8), ou desviando-as de uma investigação com o ponto de partida na medicina que a elas acaba por regressar, restabelecendo-as, em termos imagéticos e históricos nem sempre adequados: é o que acontece na psicanálise que vai de Freud a Jung.

Face às diferentes correntes da psicologia, desde as teológicas até às mais positivas, a psicologia de Aristóteles continua a ser o reverso de todas elas, precisamente porque nunca perde de vista o espírito.

A psique não só será composta, como dos modos e elementos da sua composição apresentará vários géneros. Um género da psique será o dos vegetais, consituído por elementos ou faculdades que vão pouco além da nutrição; este género não é separável do corpo (9). Já quanto ao género da psique própria do homem, aquele que contém a «faculdade teorética ou espírito», «embora nada seja ainda evidente, parece seguro podermos pensar que só ele é separável do corpo como o eterno do corruptível»(10).E o enigmático e brevíssimo parágrafo 5 do Livro III, aquele a que os mais antigos comentadores deram o título de «O Intelecto Activo», termina com a afirmação da decisiva, e necessária, separação da alma enquanto espírito ou da psique enquanto νοὖς: «só quando separado é essencialmente (é o que é) e só isso (que assim se separa) é imortal e eterno; sem ele, nada pensa.»

Para ser o que é, tem pois de se separar. Que é isso que, para ser o que é, tem de se separar? O espírito (νοὖς)? A alma (psique)? A alma, quando restituída ao espírito ou absorvida pelo espírito? Esta separação é a garantia, a realização - única e absoluta - do pensamento; «sem ela, nada pensa». A separação dá-se, pois, para que o espírito seja o que é? E também para que o homem seja o que é? O que está primeiro não é, pois, a vida mas o espírito. E torna-se pelo menos significativo que, na sequência de Nietzsche, Ludwig Klages possa sistematizar uma caracterologia a partir do princípio de que «o espírito é adversário da vida».

4. Há a tradição de que Aristóteles entregou a sucessão do magistério na Academia ao seu discípulo Teofrasto. Teofrasto viveu longos anos e foi um polígrafo de rara fecundidade; perdeu-se a maior parte das suas obras e, das que nos restaram, são especialmente conhecidas a «Metafísica» e «Os Carácteres». A última foi traduzida pelo clássico francês La Bruyère, que a publicou juntamente com os seus «Les Caractères»; será tarefa vã a do leitor que nela procurar o mínimo sinal da psicologia aristotélica que estudou no «De Anima».

Se não existisse a tradição da comédia anterior a Teofrasto, dir-se-ía que em Teofrasto teria tido início a caracterologia. Todavia, Ludwig Klages, distinguindo a caracterologia da tipologia, que minora, considera a obra de Teofrasto como exemplo daquele método da formação de tipos «que eleva à dignidade de dominante uma propriedade, disposição ou o que se lhe quiser chamar (12), método que «só depende do gosto do seu inventor» (13) e que é «em grande parte produto da invenção pessoal» (14). «Assim surgem os tipos de Teofrasto: o lisongeador, o condescendente, o parlapatão, o avaro, o impudente, o supersticioso, o desconfiado, o fanfarrão, o vaidoso, o arrogante, etc..., tipos que foram brilhantemente renovados em França por Molière.»(15).

É fácil conjecturar que a tipologia das comédias de Molière esteja mais ligada aos «Les Caractères» de La Bruyère do que aos de Teofrasto. O curioso, todavia, é que tenha sido este classicismo francês , renovador da caracterologia, que introduziu entre as línguas latinas o termo «personagem», abstracção de «persona», e quando, precisamente, no teatro inglês e alemão as personagens começam a ser designadas por caracteres.

O psicologismo caracterológico começou então a constituir o conteúdo quase exclusivo da dramaturgia, situação que se prolonga durante dois séculos pois só termina quando Pirandello mostrou a impossibilidade de uma personagem caber num carácter.

O interesse que a caracterologia nos pode suscitar reside no seu aspecto extremamente humanista, quer dizer, no repúdio da psicologia que implica a absorção do homem pelo espírito, ou o predomínio do espírito, repúdio que é manifesto no abandono do conceito de alma e psique e sua substituição pelo de carácter.

O carácter é a marca, como quando se diz, por exemplo, «os caracteres tipográficos». A caracterologia distingue-se, na psicologia, em geral, porque considera cada ser, não por aquilo que ele ou nele se manifesta susceptível de transformação, mudança, surreição e desaparecimento, sejam sentimentos, virtudes ou ideias, mas por aquilo que de modo tão radical e natural lhe é inerente que o define, o caracteriza como o seu modo inalterável de ser.

Num primeiro grau, os carácteres reúnem-se segundo grupos ou temperamentos de determinação corpórea: os sanguíneos, os coléricos, os biliosos e os linfáticos. Nos graus seguintes, o corpo mantém-se sempre como fundamento determinante. A caracterologia desdobra-se em ciências ou capítulos, como a fisionomia e a grafologia, que só podem fazer parte dela porque o corpo lhes está presente: o rosto que gesticula, a mão que escreve. Afastado, separado ou anulado o corpo, a caracterologia acaba. Na vida se há-de procurar, portanto, o valor primeiro, ou o princípio, da caracterologia.

O corpo é a vida que nasce numa forma, é o que, pelo nascimento, traz a vida ao imenso domínio da natureza. Confundindo-se, nos processos e nos fins, com a psicologia, a carcterologia é a psicologia natural, a psicologia da natureza humana. E se não pode desprender-se da noção de alma, que lhe é original, trá-la para a natureza como o que faz viver (mover, animar) o corpo.

O corpo é a singularidade de cada um na forma da evidência, uma forma tal que o que pertence ao corpo - o desejo, a dor, a morte - possui singularidade que nada pode iludir. Entretanto, a vida consiste num imenso sistema de relações entre corpos. O desejo que habita um corpo, desde o erótico ao nutritivo, só outro corpo o pode satisfazer. A carência e a satisfação são os fios que tecem a infindável rede que é a natureza. Pode a natureza ter sido entendida o caótico domínio do acaso, da sorte, da arbitrariedade e do irracional, o domínio da perduração dos corpos através da luta cega e do surdo combate. Foi assim que a entenderam Kant e Hegel. Mas pode também ser entendida como um harmónico sistema de relações, que o desejo e a satisfação tornam patentes e como uma unidade que a analogia pode intelectualmente conceber. A unidade da natureza concebida pela analogia e realizada no sistema das relações dos corpos, é o cosmos.

Sobre tal unidade e através da analogia, a caracterologia pode ultrapassar a relativa pobreza de determinações que o corpo humano lhe oferece. As determinações não provêm então apenas do corpo, mas do cosmos, da unidade cósmica a que o corpo pertence e que ele representa. Segundo a mais antiga tradição caracterológica, os quatro elementos temperamentais ou reguladores dos carácteres - o sanguíneo, o colérico, o fleumático e o linfático - correspondem aos quatro elementos cósmicos: o fogo, a terra, a água e o ar. É condição do saber analógico que os termos da analogia não se relacionem à maneira da análise e da síntese próprias da ciência moderna. Com efeito, nenhum dos termos da analogia pode ser entendido como elemento ou parte do outro. Os análogos têm de ser, de algum modo, iguais. Assim não se pode pensar o corpo humano como elemento ou parte da unidade cósmica. O corpo humano possui a sua unidade própria, tal como a natureza a possui no cosmos. A analogia entre o corpo humano e a unidade cósmica é, pois, uma analogia entre duas unidades perfeitas. Para manter bem claro este tipo de relação, o conhecimento analógico estabeleceu os conceitos de macro-cosmos e o de micro-cosmos. A mais ínfima unidade natural reproduzirá a mais ampla unidade cósmica. O que está em baixo é o que está em cima, o que está na terra é o que está no céu. Foi determinando as possibilidades horoscópicas de combinação dos astros que Goethe entendeu poder enumerar as 36 situações dramáticas possíveis.

A caracterologia é, entretanto, uma psicologia. A determinação do carácter radica no corpo vivo. O carácter pode, então, identificar-se com a alma?

Ludwig Klages diz-nos:« Os grandes pensadores do romantismo retomaram deliberadamente a tripartição grega: corpo-alma-espírito, e assim ultrapassaram largamente tanto o sensualismo inglês como o racionalismo francês e kantiano. Nenhum deles reconheceu, porém, que essa tripartição significava, não uma sobreposição de três planos da natureza humana, mas sim a irredutível oposição da vida bipolarizada e do Espírito que se situa fora do espaço e do tempo». Vida bipolarizada: o corpo e a alma são os dois polos da vida. E o admirável caractereólogo acrescenta, com grave solenidade:

«Admitindo que o autor destas linhas tenha inventado, através de conclusões falsas, todo um sistema de erros, apesar disso subsistiria, intacto e inabalável, um profundo conhecimento a que chegou, aconteça embora que ele só mais tarde ou nunca venha a ser reconhecido: o conhecimento da hostil oposição entre a vida e o espírito e, portanto, entre o Espírito e a Alma»(16).

A caracterologia radica, pois, naquilo que no homem é nato, portanto natural. Radica, pois, na natureza, e o que o carácter mais profundamente implica é a afirmação, em todo o ser pessoal, de «uma conformidade com a natureza». Aqui está, diz-nos Nietzsche, «uma velha, uma eterna e antiga história». E acrescenta: «Se viver em conformidade com a natureza significa no fundo viver em conformidade com a vida como poderia ser de outro modo?» Todavia, «viver não é, precisamente, querer ser outrém que não o ser natural?»(17).

Notas:
(8)Ver artigo de L. Klages em apêndice aos seus «Princípios de Caracterologia»
(9)Aristóteles, 0b. cit., 413 a - 1,5
(10)Idem, 413b - 25,30
(12)L.Klages, «Principes Caractérologie», segundo a ed. Delachaux et Niestle
(13)Idem, pag. 195
(14)Idem, pag. 195
(15)Idem, pag. 194
(16)Idem, pag. 126
(17)F.Nietzsche «Para Lá do Bem e do Mal», trad. francesa G.Banquis, §9