Diário das Eleições Presidenciais de 1986

Os dois

primeiros Dias

1.° Dia

O José Luís Gala é quem lança a pergunta.

Estamos todos, como se tornou habitual ao fim da tarde, no "café" onde se reúne a tertúlia de jovens estudantes que têm gosto em comentar comigo livros, imagens, eventos e ideias. A pergunta deixa­-nos a todos perplexos, mas a verdade é que ela não é mais do que um convite para prolongarmos em obras nossos pensamentos e palavras. Ou um desafio para pormos à prova nossos pensamentos e palavras sob pena de eles não passarem de fáceis orgulhos, cómodas certezas, inconsequentes displicências de "intelectuais".

Todos sofremos a situação em que os Portugueses se encontram e todos sabemos que ela constitui, essencialmente, mais uma confirmação do preceito de Álvaro Ribeiro segundo o qual "não há política portuguesa sem cultura portuguesa".

O demorado abandono deste preceito acabou por abafar a existência nacional em três estruturas que, nos últimos anos, se viram aplaudidas com cegueira e furor revolucionários e instaladas nas leis e instituições. São elas a estatização da economia, o controlo da informação pública e a marxização do ensino e da cultura oficial.

A última é a mais grave, uma vez que as duas primeiras se podem abolir de um dia para o outro para, em esforçado mas breve prazo, se restabelecer o natural liberalismo da economia e da informação.

A adulteração do ensino, porém, desvirtua a mentalidade e a sensibilidade de cada geração que sucessivamente lhe é sujeita.

Pode dizer-se que todos nós observamos todos os dias como os poderes do Estado se exercem em condições que os inibem de subverter a situação existente, de abolir o sistema das três estruturas dominantes. Em primeiro lugar, porque se en­contram eles nas mãos de uma oligarquia desonestamente impenetrável. Em segundo lugar, e isso é o mais importante, porque o seu exercício não passa de uma agenciação de doutrinas recebidas de origens estrangeiras em versões técnicas de aplicação internacional, imperialista e uniformizante.

Ou seja: o Estado ignora a cultura portuguesa, ignora a sua actualização e sistematização pelos grandes pensadores deste século (Sampaio Bruno, Leonardo Coimbra,Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, Álvaro Ribeiro, José Marinho, Sant'Ana Dionísio ou Agostinho da Silva), ignora que esta actualização chega à minúcia de se concretizar em teorias originais de pronta aplicação na economia e no direito e em programas de imediata execução no ensino.

Finalmente, todos nós sabemos que Portugal não é apenas o Estado, sua forma mais extrínseca, mas é também a Nação e a República, suas formas substanciais, e é sobretudo a Pátria, sua entidade espiritual. O que tem vindo a acontecer é isto de se ter chegado hoje a uma situação em que o Estado actua como o inimigo da Nação, da República e da Pátria.

Com excepção daquela pequena oligarquia que tem nas mãos os Poderes do Estado, não há Português que, individual ou familiarmente, em todos os momentos da sua actividade quotidiana, não conheça os obstáculos que esse inimigo lhe levanta, as ameaças que sobre ele suspende...

De tudo isto resulta, coerente como um corolário, a tal pergunta que na tal tertúlia, o José Luís Gala nos faz. A pergunta tem este sentido:

- Porque não havemos de tentar pôr o Estado em acordo com a espiritualidade da Pátria e com os interesses da Nação e da República? Porque não havemos de tentar pôr a política portuguesa em acordo com a cultura portuguesa?

Mas a expressão que deu à pergunta foi esta: "Porque não apresentamos nós uma candidatura à Presidência da República?".

Faz-se um silêncio em que a resposta fica suspensa. Todos olham para mim. Eu penso: "difícil é conservar um amigo, amar sem perder a alma, falar de espírito para espírito... agora ser candidato a Presidente da República... ". E concordo.

O João Luís Ferreira ri-se para dentro e diz para fora: "Vai ser engraçado... " O Moraes Sarmento, que anda nas "redacções", já fala com o calão dos jornalistas e tem expressões escarninhas como eles, recosta-se: "Os gajos vão apanhar um susto... "

2° Dia

Antes de lançarmos mãos à obra, vamos ao Porto falar a Santana Dionísio, o único ainda vivo dos grandes pensadores que Leonardo Coimbra nos deixou.

Recebe-nos, nas vésperas de completar 83 anos, com o seu sorriso de fulgurante ironia, recostado na cama, a rever as provas tipográficas do livro que, sobre Leonardo, acaba de escrever. Dizemos-lhe da nossa decisão de intervenção polí­tica, o que o entusiasma e diverte. Propomos-lhe que seja ele o nosso candidato. Não aceita, pela idade que tem e a consequente dificuldade de deslo­cações constantes e movimentos rápidos que a can­didatura vai exigir.

Concorda que o candidato seja, antes, eu, e reserva para si a missão de como tal me apresentar aos Portugueses, o que virá a fazer em termos condizentes com a sua suprema genealogia intelectual, numa modelar expressão de alta­-política que os nossos oligarcas são incapazes de conhecer.

Passamos ao que mais importa. E é um des­lumbramento ver como este homem, ao fim de uma carreira de grande pensador e grande prosador (o mais puro e rico dos nossos dias), escreve, em cerca de 500 páginas, o seu livro mais admirável, uma biografia espiritual de Leonardo Coimbra de quem nos dá a imagem, que é decerto a real, de um avatar ou pensador angélico que viveu entre nós durante cinquenta anos trespassando com uma mensagem de amor cósmico, de pensamento sófico e de bondade universal esta terra que é "a terra mais anti­-filosófica do planeta", dominada, como tem estado, por desgraçadas instituições e desgraçados homens que sobre ela lançaram, e ainda hoje lançam, toda a espécie de incompreensões, de calúnias e de vitupérios.

Na segunda parte do seu livro, Santana dá-nos uma breve súmula do pensamento político de Leo­nardo, que logo nos envolve numa atmosfera de espírito que vamos esforçar-nos por manter nes­ta candidatura presidencial em que nos lançámos.

Dessa atmosfera são sinais, afirmações como estas:


"A política aparecia a Leonardo como uma mera expressão subsidiária da actividade religiosa (...) A acção política ou é uma forma de inquietação religiosa ou não é coisa que preste."


"Divulgar é vulgarizar e, portanto, desvir­tuar. Temos de exigir, aos que nos querem ouvir, o esforço de nos acompanharem no nosso esforço de nos aproximarmos da verdade."


"Possuía um único ódio: o ódio à vingança, à ferocidade... "


"Não se cansava de proclamar que a libertação real dos humildes não pode ser obtida por sangrentas transmutações ( ... ) Daí a condenação de todas as expressões espúrias de actividade política que nos nossos dias se conhecem pelas designações de acção directa de mobilização das massas ... "


"Impedimento muito mais fundo do que o analfabetismo ou a anquilose do exagerado trabalho, é o que ele chamava a suficiência, enfermidade específica do bacharel e do semi-sábio. Contra as vítimas satisfeitas dessa enfermidade é que ele desfechava as agudas setas do seu pedagógico sarcasmo."


"Democracia, para o seu espírito, era metafísica activa."