Agostinho da Silva,

o filho pródigo

É, com Sant’Anna Dionísio, António Duarte, Azeredo Perdigão, Álvaro Cunhal, Miguel Torga, talvez mais algum, um dos patriarcas da cultura portuguesa. Cada um à sua maneira, naturalmente: Azeredo Perdigão tapando misérias com o ouro, que as põe mais à vista, Álvaro Cunhal veiculando por instituições universitárias e jornalísticas a propaganda da mediocridade de charra obediência moscovita, Miguel Torga em gesticulações terrunhas oferecendo o peito ao Nobel que nunca mais vem, António Duarte realizando um olímpico exemplo de liberdade artística, Sant’Anna Dionísio e Agostinho da Silva representando o escol de uma geração portuense que, só ela, assegura a sobrevivência da pátria portuguesa num mundo em que nada é eterno a não ser o próprio mundo.


A Filosofia

como Imagem da Pátria

Há várias imagens de Portugal. Uma é formada pela história da acção que os portugueses exerceram e aquela a que foram sujeitos. É outra a da história da política e dos políticos, dos sucessivos regimes e governos. Uma terceira é a da história das artes, com natural relevo para a literatura. Faltava, até agora, uma última imagem, decerto a mais decisiva: a oferecida por aquilo que os portugueses pensam, a da história da filosofia portuguesa.


Teoremas de Filosofia, Nº 1, 1969 (Ed.de autor, de 500 exe.)

Notas contra a degradação

do espírito

Terceira (e última) Parte

Conta-se Klages entre aqueles que atribuem a Frederico Nietzsche o papel que ele a si mesmo atribuía: o de quem se apercebe com nitidez que algo de radical separa neste momento toda a filosofia que no passado remonta até Sócrates e «aquela nova raça de filósofos que vejo erguer-se no horizonte»(18). Será difícil mostrar que tal separação reside no que distingue um pensamento que aceita e um pensamento que recusa «a hostil oposição do espírito e da vida», na aceitação ou na recusa, persiste na fidelidade ao espírito ou a abandona.


Teoremas de Filosofia, Nº 1, 1969 (Ed.de autor, de 500 exe.)

Notas contra a degradação

do espírito

Segunda Parte

3. A psicologia moderna - especialmente aquela a que Klages chama «psicologia de escola» como a que domina o nosso ensino - procura evitar a palavra alma. E mais procura evitar a palavra «espírito». São, ambas, palavras que comprometem ou palavras que se dão por comprometidas.


Teoremas de Filosofia, Nº 1, 1969 (Ed.de autor, de 500 exe.)

Notas contra a degradação

do espírito

Primeira Parte

No final da última destas notas encontrará o leitor a seguinte interrogação:

«Poderá isso a que o Cristianismo chamou alma e os Gregos chamaram psique, entender-se como um estado do espírito? Será a persona, entendida quer como pessoa, quer como personagem, não o estado de alma que dela fez um teatro simultâneamente primitivo e degradado, mas a imagem de um estado de espírito que a si mesmo se dá a forma e a matéria da alma ou da psique


O génio nacional

na arquitectura portuguesa


Neste trabalho de António Quadros, que constitui uma dissertação de licenciatura, o Autor pretendeu estudar a arquitectura portuguesa como manifestação do génio nacional.

Menos próximos ou mais estranhos a esta manifestação considerou os estilos da arquitectura gótica e renascentista; como manifestantes do génio português considerou os monumentos românicos e barrocos.


Traduções portuguesas de Filosofia

Subsídios para a história da filosofia portuguesa

Segunda Parte

I. A filosofia grega

a) Os pré-socráticos

A cultura clássica, e sobretudo a filosofia grega, nunca despertou entre nós o interesse e a atenção que outros povos lhe dedicam, apesar de o aristotelismo constituir uma constante cultural e mental do pensamento português.

Dos pré-socráticos apenas se traduziram os Versos de Ouro, de Pitágoras, no século XVIII. Dever-se-á isso explicar pelas dificuldades de erudição que a sua tradução e interpretação oferecem e, sobretudo, porque o interesse pelos pré-socráticos só pode ser despertado pelo prévio conhecimento da filosofia grega, em especial de Platão e Aristóteles, caso não seja promovido por motivos de erudição religiosa.

Com efeito, o que existe dos pré-socráticos são fragmentos de obras, portanto textos dispersos cuja unidade depende, ou das interpretações feitas por Aristóteles e Platão, ou da sua referência à religião grega. Por outro lado, a cultura portuguesa não possui aquela riqueza de investigação e erudição que caracteriza a cultura alemã, à qual se devem os principais estudos dos pré-socráticos.


Textos de Orlando Vitorino

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«ARSP Archiv fur Rechts und Sozialphilosophie, Vol. LIX-4 1973

Como pensar a injustiça?

1ª Parte

1. O sistema do formalismo

Tudo o que é tem uma parte formal, mas o direito é formal em todas as suas partes e organizou este seu formalismo num sistema fechado e auto-suficiente. O sistema funda-se nos três pontos seguintes:

a)As formas em si

Em geral as formas são, seja manifestações do que contêm, seja representações do que significam. Elas dependem, por consequência, daquilo que manifestam ou daquilo que representam, tanto na substancialidade dos entes, na sua união original com o conteúdo ou a matéria, - tal é o caso nas formas da natureza, - como na sua unidade indissolúvel com o significado - tal é o caso das formas artísticas. Ora as formas do direito oferecem-nos esta singularidade: elas repudiam toda e qualquer dependência e quando se mostram susceptíveis de receber os conteúdos e significados múltiplos que lhes queiram atribuir, a todos eles se entregam igualmente mas de nenhum se reconhecem dependentes.

Como tal, as formas jurídicas não são nem manifestações nem representações, elas têm uma natureza puramente abstracta e os conteúdos e significados que recebem não se encontram na sua origem, não são provenientes do conjunto do direito, antes lhes são dados pelos diferentes modos que assume a sociedade dos homens.


«A Ilha» Sup.Cultural nº 4, 1 a 14 de Jan. de 1971

Suaves Cavaleiros

1 - O que os governos idolatram

O governo das sociedades contemporâneas é orientado segundo um princípio absolutizado e universalizado, a que tudo se deve subordinar: o princípio da economia.

O predomínio absoluto deste princípio começou por constituir a arma que conquistou para a burguesia o domínio das sociedades. Conquistado esse domínio, logo o princípio da economia se revelou instrumento da mais flagrante e dolorosa injustiça. Multiplicaram-se as suas vítimas vertiginosamente, até abrangerem a quase totalidade dos homens.

Quando essa injustiça, assim estabelecida, ficou patente e adquiriu as proporções de escândalo, procurou-se atribuir às modalidades e processos de aplicação do princípio, não ao próprio princípio, a sua origem e causa. Mantendo-se assim, no seu pedestal, esse princípio absoluto e único, reforçando-o e elevando-o até mais alto, dividiram-se em duas correntes principais os adoradores do ídolo - chamaram-se uns socialistas, chamaram-se outros capitalistas. O que os distingue é apenas a modalidade, o processo daquilo que ambos os grupos designam por «distribuição da riqueza», designação sarcástica pois do que efectivamente se trata é da «distribuição da pobreza». De qualquer modo, o ídolo é o mesmo, o princípio fica intocável e sua soberania continua a ser total.


Diário das Presidenciais de 1986

Os dois primeiros dias

1.° Dia

O José Luís Gala é quem lança a pergunta.

Estamos todos, como se tornou habitual ao fim da tarde, no "café" onde se reúne a tertúlia de jovens estudantes que têm gosto em comentar comigo livros, imagens, eventos e ideias. A pergunta deixa­-nos a todos perplexos, mas a verdade é que ela não é mais do que um convite para prolongarmos em obras nossos pensamentos e palavras. Ou um desafio para pormos à prova nossos pensamentos e palavras sob pena de eles não passarem de fáceis orgulhos, cómodas certezas, inconsequentes displicências de "intelectuais".

Todos sofremos a situação em que os Portugueses se encontram e todos sabemos que ela constitui, essencialmente, mais uma confirmação do preceito de Álvaro Ribeiro segundo o qual "não há política portuguesa sem cultura portuguesa".

Traduções portuguesas de filosofia

Subsídios para a história da filosofia portuguesa

Primeira Parte

1. A tradução dos livros de filosofia pode considerar-se devida a quatro ordens de motivos: a motivos culturais, quando se consideram tais traduções como forma de enriquecimento de cada cultura; a motivos literários, quando tais livros sao representativos dos mais altos valores de expressão artística, como acontece com Platão, Cícero ou Hegel; a motivos religiosos, políticos ou científicos, quando essas manifestações encontram na filosofia ou um complemento que as prolonga ou fundamento de que carecem; a motivos propriamente filosóficos, quer quando um pensamento virtual, de demorada expressão, recorre à expressão próxima ou análoga dada por filósofos estrangeiros, quer quando um pensador ou um movimento original procura, na tradução de obras filosóficas, a expressão de filosofemas e até sistemas que se conjugam e vêm fortalecer e ampliar um pensamento original.

Traduções portuguesas de filosofia

Subsídios para a história da filosofia portuguesa

Terceira Parte

4. Filosofia Moderna

a) Descartes

A relação que há entre a obra de Descartes e a actividade da Companhia de Jesus, que então denominava o ensino em Portugal, explica que de todos os pensadores do Renascimento, tenha sido esse o mais conhecido e divulgado entre nós até que Verney, certamente pelos mesmos motivos, o tenha desvalorizado e desdenhado.

Não chegaram os primeiros a levar a divulgação de Descartes até ao ponto de traduzirem os seus livros, tradução que, depois da obra de Verney e da reforma pombalina do ensino, ficou comprometida.

Só em nossos dias, muito tardiamente portanto, se publicaram as traduções das Meditações Metafísicas, por António Sérgio, e do Discurso do Método e Tratado das Paixões da Alma, por Newton de Macedo.

b) Leibniz e Espinosa

Ao contrário de Descartes, Leibniz e Espinosa seriam suspeitos à filosofia que, na época deles, dominando o ensino, era oficialmente cultivada entre nós. Ambos se relacionavam, no aspecto religioso, com ortodoxias adversas ao catolicismo. E apesar de um ser de origem portuguesa e de o outro se referir com admiração aos pensadores portugueses, só em 1930 aparece uma tradução de Leibniz e em 1950 a da Ética de Espinosa.

Note-se que estas traduções, bem como a das Meditações Metafísicas de Descartes, são publicadas em colecções ligadas ao ensino universitário e dirigidas pelo Prof. Joaquim de Carvalho, de quem, nesta divulgação da filosofia moderna, António Sérgio tem sido o mais qualificado colaborador, traduzindo para aquelas colecções Descartes, Leibniz e ainda Berkeley (Três Diálogos entre Hilas e Filonus).