Prefácio ao livro de Miguel Bruno Duarte

«Noemas da filosofia portuguesa»


Prefácio

1 - Da filosofia portuguesa

Filólogo e pensador que merece o epíteto de luso-brasileiro, já que desenvolveu e deixou no Brasil grande parte do seu labor, o português Eudoro de Sousa escreveu algures numa das suas obras: “Não preciso lembrar que, em certo ponto da escala temporal, o historiador da cultura brasileira teria de enfrentar a cultura ibérica, e daí partir para a cultura européia, e que, no estado atual dos nossos conhecimentos, só nos deteríamos no berço desta última, situado no mediterrâneo oriental pré-helênico, nas culturas neolíticas pré-cerâmicas da Ásia Menor.”

Sim, tem razão Eudoro...É exigível ao intelecto da maturidade humana que tenha consciência das suas raízes. É descabido julgar que podemos ignorar as origens sem perder os fins; e perder os fins é o mesmo que andar irremediavelmente perdido.

Assim, hoje, os países do continente Americano que vieram a constituir-se como culturas autónomas, interrogam-se sobre as suas raízes europeias, e mais particularmente sobre as suas raízes ibéricas, ou mais particularmente ainda sobre as suas raízes portuguesas, tal como desde há já vários séculos aos portugueses do espaço lusitano tem sido exigido que recordem as suas origens em longínquas paragens do Lácio, do Peloponeso, da Fenícia ou da Arábia.

E quem exige? Nós a nós mesmos, naturalmente.

Ao leitor que agora folheia esta obra direi que foi inteligente ter escolhido interessar-se por uma obra cujo título indica que versa sobre filosofia portuguesa. De facto, onde, senão na filosofia portuguesa poderá estar o firmamento de ideias, conceitos, juízos e teses que desenha o perfil astral e o destino terreno da Pátria Portuguesa?

Sendo certo, pois foi certificado por Poeta, que essa Pátria se perpetua na Língua Portuguesa, o que os falantes de Português em qualquer parte do Mundo hoje fazem, quando falam, é uma arqueo-logia dos vestígios logóicos do espírito de um Povo Universal; e a filosofia portuguesa é um testemunho da procura e da actualização possível dessa universalidade. Boa escolha, portanto, para quem se sente movido a cumprir a exigência de se conhecer a si mesmo, e às suas origens.

O que é um Povo Universal? A bem da lucidez, esclareça-se: não é um povo imperialista, nem dominador, nem superior... É exactamente o povo que já está para além de tudo isso porque, como peregrino que finalmente se aproxima do templo, já deitou fora os seus ultimos haveres para andar mais leve e mais liberto, e apenas aceita como carga as palavras únicas que criou para dizer, ou orar, o que de si dá a toda a humanidade.

2- Dos noemas

Dizem alguns dos seus discípulos, que o filósofo Orlando Vitorino teria em preparação, quando faleceu, um relevante livro, nesta data ainda lamentavelmente por publicar e, esperemos, talvez ainda em futuro incerto a ser publicado, cujo manuscrito ostentava o título “Teses da filosofia portuguesa”. Miguel Bruno Duarte, que aqui deixa invocada expressamente, na dedicatória, a memória do mestre, dele e da sua gesta se quis manter perto com estes “noemas da filosofia portuguesa”.

E logo na primeira frase do Prólogo esclarece:”Por noema entendemos a expressão lógica e intuitiva da plenitude do espírito”. Justifica-se o intento e o cuidado de definir o termo, já que este não é bafejado pela notoriedade de frequentes referências em escritos eruditos nem pela vulgaridade que resultaria da presença em conversa comum.

O noema, como outros vocábulos raros ou em desuso, advém de uma experiência psíquica fragmentada e diluída no tempo milenar em que a cultura humana se estende. Tal como um antepassado muito remoto, de que perdemos tudo menos a memória da própria existência, este vocábulo requer o testemunho de quem dele se lembra, para podermos recuperar, se tal for possível, o que nos tenha deixado de obra ou traço genético.

Ora, se tivermos o nobre intuito de acompanhar o autor no seu desejo, também logo no Prólogo expresso, de compreender o que seja a entidade espiritual que é a Pátria Portuguesa, a tal não chegaremos nem bastará a leitura da obra, se nenhum noema nela implícito ou explícito nos tocar!...

Requer-se, pois, ao leitor que, a par do usual exercício de leitura raciocinante, que segue e acompanha os tópicos e a sua argumentação, se mantenha atento ao que o possa espantar – sim, já que é o espanto que nos interrompe o fluxo discursivo e nos exige meditação, ou, melhor ainda, mediação.

Aquele a que Dante chamou “mestre dos que sabem” diz, na sua Metafísica, 12.1074b, 30 :

τὰ δὲ περὶ τὸν νοῦν ἔχει τινὰς ἀπορίας

o percurso pelo “nous” (ideamento) tem várias aporias.

Como o leitor se apercebe, o Filósofo menciona aqui o “nous”, que é a susbtantivação do verbo noein, que descreve um movimento intelectivo que vulgarmente se traduz por pensamento. Mas aqui, preferi indicar “ideamento”, já que pensar, no nosso mais vernáculo falar, é pesar, ou seja, é um movimento descendente e explicativo. Ora, aqui, o percurso que se menciona é claramente ascensional, intuitivo, que procura formas e, porventura, ideias, cuja contemplação pode, até, deixar-nos “sem palavras”. Por isso, tem este percurso “várias aporias” - momentos de silêncio, de espanto, semelhantes a becos sem saída no fluxo normal do raciocínio.

Aristóteles faz a análise de algumas dessas aporias e, seguindo com ele, podemos apurar o significado exigente e quase sublime que devemos atribuir ao noema, mónada intelectiva que o “nous” apreende e guarda como centro irradiante de uma teia de juizos significativos e articulados ou articuláveis entre si...

É em torno de alguns noemas que se desenvolvem os vários temas deste livro. Esses noemas gravitam numa constelação que é o perfil pátrio que Miguel Bruno Duarte toma por ponto cardeal de toda a obra.

Mas não podemos esquecer que o idear e o pensar são formas de agir do intelecto, e devem ser meditados também quanto às possíveis determinações que este verbo categorial – agir - lhes impõe... Todos concordamos que “agir” pressupõe um princípio e um fim, isto é, um motor e um motivo.

Cabe, pois, a cada um que pensa, na sua recôndita subjectividade, assumir a solitária responsabilidade de identificar o ente ou movente que é, afinal, o motivo ou o motor dos pensamentos que lhe perpassam pela mente. Pela sua inferior ou degradada natureza, pode o motor , ou o motivo, desviar pensamentos para o erro, a mentira, a malícia, a falsidade.

Para nossa surpresa e desgosto, não podemos tomar, incondicionalmente, todos os nossos pensamentos por intrinsecamente nobres, nem constantemente virtuosos, nem sempre verdadeiros.

No entanto, na medida em que não é audível aos outros, o nosso pensar ou falar interno escapa ao juízo alheio. Ficamos sós perante o nosso próprio pensamento e, quem sabe, porventura indefesos perante o encanto do que dizemos a nós mesmos, ardis armados por motores ou motivos inconfessos, que nos espreitam dos confins da nossa alma.

Interrogou então o Filósofo – e, como ele, interrogamo-nos nós hoje, e interrogaremos amanhã - o que posso considerar e tomar por benigno movente do meu pensamento, e do pensamento humano em geral? Aristóteles, como verdadeiro discípulo de Platão e verdadeiro Heleno, responde que será o pensável; e este, no seu auge, é entendido como o Motor Imóvel.

Eis, então, a Ideia Suprema. Ideia? Sim, pois que é visivel, ou noética. Para ser audível, teria de não ser Imóvel, e esse pensável audível, do sopro do Espírito, é o Divino próprio dos Semitas, não dos Helenos.

Um noema é, pois, uma semente ou semântica desse pensável, que devém pensado por noese; a noese é um movimento do intelecto sem a intervenção errónea de motor ou motivo que se mova nas sombras do esquecimento e da ignorância que cada um traz consigo. Compreende-se então o segredo dos Medievais, que tão afortunadamente cingiram a experiência e a vivência do ver e do ouvir – perante o pensável visível ou audível, que já se identifica como Espírito e como Santo, o intelecto humano não age, padece.

Assim, um noema, dito ainda de outro modo, é o que percebemos pela intuição metafísica que Kant julgou impossível; obviamente, ao dizê-la impossível, Kant expunha, nesse juízo, o seu próprio, e principial, noema: é impossível, ao intelecto humano, chegar ao noema pela vontade, que é como quem diz, agindo!

A todos os que julguem o contrário, a filosofia portuguesa afirmará que Kant tem razão – todo o voluntarismo termina onde termina a razão.

Mas a todos os que sabem que o noema é possível, a filosofia portuguesa saúda fraternalmente e reafirma: todo o noema é vidência ou audiência, em suma, acto da consciência dado pela graça Divina. Não se alcança pela Vontade, mas recebe-se pelo Amor.

Tendo isto presente, poderá o leitor entender que Miguel Bruno Duarte, apesar de deixar explícitas algumas das causas da lastimável decadência de um país que, nas suas palavras, “tudo perdeu”, não tem um discurso derrotado ou ressentido. Na sua íntima visão da perpetuidade do movimento pátrio, tudo o que é visível irradia uma mesma luminosidade, que, para lá do espanto e do silêncio, só pode chamar-se Esperança.

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