Sentimentologia - I

Eutímia

«Sentindo é que nos sentimos como entidade original que principia em si, mas não acaba - um núcleo incandescente e radiante.»
Teixeira de Pascoaes, «O Homem Universal», Assírio & Alvim, pag. 92


A eutimia, dos Gregos, ou tranquilitas, dos Latinos, é um estado interior lúcido, distante mas atento, sublime mas sem ambição.

A eutímia, quando a sentimos, começa por ser uma água límpida que corre da fonte onde vai beber o coração peregrino; do peito sobe à cabeça, onde é água benta que purifica e absolve o pensamento, agora em descanso à entrada do templo.

A eutimia mantém-nos no cume sem estarmos por cima, dá-nos uma paz que não se compraz na vitória, e uma segurança que não teme a derrota.

Um estado de eutimia só é possível a quem sabe que a humildade é a mãe de todas as virtudes e a gratidão a mais difícil de todas elas.

A eutimia pode ver-se, no interior de nós mesmos, com o «occhio bono»: irradia na intimidade e é da cor do sopro do espírito.

A eutímia é o contrário da invidia, ou inveja, a visão turva do «occhio malo»; deste mau olhado só está imune o humilde.


Sentimentologia - II

Eudaimona

A eudaimona, dos Gregos, ou felicitas, dos Latinos, é o sentimento dos entes que se sabem vivos e em harmonia.

O ente vivo anela pela sua forma plena e para ela avança, gradativamente, nos momentos em que cumpre perfeitamente uma finalidade, segundo a sua natureza. Nos reinos da fauna e da flora os passos culminantes de eudaimona são a presença dos recém-nascidos e das flores. Por que razão mesmo os animais mais feios e esquecidos pela Beleza conseguem gerar crias que sempre nos suscitam espanto, alegria, simpatia e aprovação? Por que razão não há flor, por mais humilde a planta de que brotou, que nos desagrade ou pese no sentimento?

Já no mundo mineral dos elementos inorgânicos a eudaimona irradia no Horizonte, linha limite que liga o Céu e a Terra e que celebra a existência do Cosmos, a derrota do Caos. Quando olhamos o horizonte, a eudaimona bafeja-nos o rosto.

Para os Gregos, é a visão ou teoria do fervilhar dos entes em sua vivacidade que lembra a eudaimona de Eros, o daimon ou demiurgo, quando transmitiu a sua semente a Gê, a Terra, gerando a Bios.

Para os Semitas, é ler a escrita dos corpos celestes em seu movimento e relação harmónica no negro céu do deserto, que permite sondar a remota eudaimona do sétimo dia do Criação, que Eva e Adão ainda viram reflectida no Paraíso, e de que ficou saudade. Nas incontáveis estrelas viu Abraão confirmada a continuidade da sua prole, e deu graças. Esta linhagem, assim o prometeu, seria, para sempre, testemunha da eudaimona do Génesis, e assim o disseram os seus Profetas.

A persistência e perenidade da Matéria, que obedientemente corporiza a unidade e eternidade do Cosmos, pode inquietar ou aliciar alguns, aterrados ou simplesmente perdidos na multiplicidade fugidia dos seres moventes e da sua mudança. Para esses, torna-se imperioso capturar essa ilimitada durabilidade da Matéria escavando símbolos como o ouro ou o diamante. Outros, os que conseguem olhar para cima, vêem sempre as estrelas, todas no sítio certo, como luz vencendo a escuridão, como presença contrariando o vazio, e sossegam.

A eudaimona é uma causa final. é a felicitas para onde caminha toda a Criação.Enquanto afastados dela, move-nos e atrai-nos como finalidade, quando a ela chegamos e nela estamos, afasta-se ela de nós e causa novas formas e manifestações próprias, e nestas se oculta novamente, para reiniciar outro ciclo, outro movimento.

Na ânsia de capturar a omniausente eudaimona, ou felicitas, praticamos a magia, ou o culto das imagens, porque estas têem um elo que nos liga aos momentos extraordinários - a mãe que recebe nos braços o recém-nascido, a amendoeira florida que brilha com o orvalho da aurora, a rosada Lua subindo no Horizonte para aclarar uma noite de Verão. Os Poetas, de melhor memória auditiva, em esperançado intento procuram relembrar a fugaz e fogosa eudaimona nos ritmos das palavras mais vibrantes, no poder criador do falar original.

Mas não há razão para o desespero. É certo que a divina eudaimona é indomável, incorruptível e incontrolável pelos pobres humanos. Assim a sentimos, assim a perdemos. Mas essa eudaimona que marcou a origem, seja ela a união de Eros a , ou do Profeta Adão à Virgem Eva, sem exactamente se deixar repetir, repetidamente se vai recriando na união dos verdadeiros amantes.

Isto soube dizer uma poetisa Portuguesa, Natália Correia: «Infinitamente iluminados pela mais alta fogueira do seu sangue, o homem e a mulher souberam então que tinham alma»