Sentimentologia – Excursão III

A Protímia


A protímia, dos Helenos, ou perseverantia dos Latinos, é o fio-de-prumo que mantém a alma na vertical desde os primeiros passos da vida. Este sentimento brilha serenamente no olhar dos recém-nascidos e responde, ou torna fútil, a questão: viver para quê? 

A protímia é uma das fadas que rodeia o berço, e o seu condão é a energia dos feitos que nunca dependeram do acaso. Ganha raízes no lado esquerdo do coração do fadado e fá-lo sentir-se animado, mesmo no infortúnio

A protímia distingue-se bem da obsessão. Esta, é uma dependência que consome, enfraquece e incapacita, enquanto aquela é uma anuência, que alimenta, fortalece e prepara para qualquer renúncia ou sacrifício.

A protímia só pode ser estimulada pelo exemplo. Aqueles poucos que a praticam, despertam-na naqueles poucos em que está dormente. A protímia é um ímpeto de acção pura e ciente. Mantém-se recatada em humilde retiro, sempre que dominam as indolentes condescendências, os compromissos curtos, os propósitos medíocres esgotados em fogachos de sucesso breve e fácil. Mas chegada a hora, resplandece como a energia que sustenta o «talent de bien faire».



Diz António Vieira de D.Henrique, o Navegador, e de sua perseverantia: «Desterrou-se da corte na flor da idade este magnânimo príncipe, foi viver entre o ruído das ondas nas praias mais remotas do reino; e d’ali, por meio de seus fortíssimos argonautas, rompendo mares, vendo promontórios, descobrindo novas terras, novos céos e novos climas, com immensos trabalhos e horrendos perigos, e com igual constância de quarenta annos, em fim mostrou ao mundo o que o mesmo mundo não conhecia de si, e não possibilitou sómente, mas facilitou, aquelle natural impossível.». Palavras de feiçáo, vindas da mesma geratriz imperturbável da Pátria.

Surpreende que outros, também dos mais ilustres, não soubessem, ou pudessem, mais tarde, manter um rumo de ínclita geração? É que a verdade é esta: a transmissão da perseverantia é impossível de garantir com o poder humano - não se pode fazer, só se pode esperar… É uma esperança exigente, penosa, que requer não menos que devota entrega das famílias à mais alta missão, de geração em geração!

Surpreende, então, que se perca a noção missionária, esquecidas as preces de protecção às mães, às gestações e aos nascituros, afastados os pais exemplares para longínquas paragens e tormentosos negócios? A protímia, se reduzida, pelos maiores, a virtude menor, dilui-se inevitavelmente pelos mais humildes e silenciosos.

Fevereiro 2010