Sentimentologia – Excursão IV


Epitímia

A epitímia, o desejo ou o desiderium latino, é o sentimento que completa uma tríade composta ainda pela eutímia, ou tranquilitas e a protímia ou perseverantia, de que já falámos.

Começámos pela tranquilitas e pela perseverantia, por estes sentimentos se acomodarem sem dificuldade de maior no léxico habitual do nosso convívio quotidiano. Agora, cabe falar da epitímia e, também, do que está na origem desta tríade sentimental, o timo, ou tumo, e o que há a dizer poderá soar bem mais estranho.

Mais estranho, pois do timo resta-nos a memória escassa de umas poucas palavras, quase todas longínquas e obscuras. Este apagamento do timo vem de longe, mas foi reforçado modernamente pela ciência positiva, já que esta ciência não encontra, da acção do timo, rastros químicos ou físicos que possa identificar e incluir na sua tabela de causas e efeitos e comprovem a sua importância para o desenvolvimento e a saúde do corpo humano. Logo, em relação ao timo a ciência, hoje, parece limitar-se a dizer-nos que se trata de uma modesta glândula, oculta e esquecida por detrás do coração, que apresenta forma semelhante a uma borboleta e se desenvolve apenas até ao termo da puberdade, não dando evidência de desempenhar outra função que não seja a de segregar um elemento essencial ao sistema imunitário.

Na Antiguidade, porém, do tumo provinha uma das energiais vitais mais primárias e profundas que, como veremos adiante, nos deixou frequentes sinais da sua presença. Esses sinais, hoje, parecem ter desaparecido. Curiosamente, porém, sem que lhe façamos referência directa, o tumo mantém-se subterrâneamente presente, pois é bem nas nossas entranhas que, por vezes, somos desagradavelmente surpreendidos pelo pânico que nos provoca o mais temido inimigo da saúde humana! Falamos daquela forma natural que cresce rápida, desordenada e, por vezes, letalmente, a que vinculamos o timo, ou tumo, já que lhe chamamos um “tumor”.

E, agora como desde o seu remoto aparecimento na Hélada, o timo dá-nos um fruto que irrompe do âmago da nossa vitalidade e nos deixa a perturbante questão de sempre: será benigno, ou maligno?

Contrariando, pois, o actual menosprezo para com o timo e, quem sabe, talvez contrariando também o medo atávico que nos instila o tumor, vamos percorrer a tessitura temática do timo e da epitímia. Talvez venhamos a surpreender o leitor, não só com a variedade e profusão de simbolos e legendas que, sobre o timo e os seus sentimentos, iremos retirar da história e da cultura que nos legaram, como porventura surprenderá que algumas das palavras da nossa Língua, afinal, ao tumo directamente se refiram.


O timo

Comecemos, então, pelo timo. A Grécia Antiga dá-nos profusa referência ao timo, que é, desde os mais antigos documentos, o nome de um originário, impetuoso e efervescente assomo de energia e vitalidade.Orelha de Diónisos

Tudo começa nos Mitos, mais precisamente nos mistérios órficos, cuja narrativa nos conta como os Titãs tentaram matar Diónisos, ilustre nascido do divino e do humano. Os monstros titânicos, forças naturais indomáveis e hostis, esquartejaram-lhe o corpo e comeram-no aos bocados.... Mas esqueceram-se do coração dele, palpitando sobre o altar da imolação!

A deusa Athena leva, então, esse coração palpitante a Zeus, que faz Diónisos renascer da sua coxa para, em renovado alento, punir o crime dos Titãs.

O Diónisos renascido, todavia, já não era o mesmo Diónisos que fora esquartejado. Tendo perdido o corpo bravio e animalesco com que vivera no tempo, a chegar ao fim, dos Titãs, Diónisos ganha na coxa de Zeus nova natureza - o timo, a in-timidade ou memória do espaço, antes externo, agora interior, protegido, reflexivo. È o mesmo, mas que se reconhece outro, renascido.

A história brutal de Diónisos e dos Titãs pode ler-se, então, como sendo a certidão de nascimento da in-timidade, filha do sacrificio ou imolação do corpo selvagem de Diónisos e do posterior resgate do seu coração tímico no renascimento do seu corpo, por intervenção dos deuses. E nessa intimidade, que os deuses propiciaram, Diónisos tem agora uma actividade psíquica consciente, pois combina, em formas únicas e singulares, a individuada percepção do cosmos exterior com a memória e o reflexo interior da intervenção dos deuses.

Cabe lembrar aqui que, em Homero, a palavra psuquê era usada sómente para descrever a presença dos mortos. Os vivos, enquanto tal, eram referidos como sôma, ou corpo! E o thumos, em Homero, é ainda uma loucura momentânea com que os deuses arrebatam os homens, para estes agirem cegamente; foi o thumos que Agamenon invocou, para desculpar-se perante Aquiles do seu gesto de lhe raptar a companhia feminina.

Mas Diónisos já fora sacrificado, e o timo desenvolvia a sua nova natureza.

Não tardou, então, que Heraclito nos desse a primeiríssima expressão da una singularidade do antrópico composto psicossomático; e diz esse enigmático sábio, no seu fragmento 45: “não se encontram os limites da psique, mesmo percorrendo todos os seus caminhos! A psique provêm de um logos muito profundo!” Eis o ín-timo, o ente presente num renascido espaço psíquico, que se revela tão profundo como o logos que o diferenciou. Nele, um dos novos regentes é o timo, de que irradia o desejo, a epitímia.

A epitímia é, então, a energia que emana e se afasta (epi) do timo, tal como o sangue se afasta do coração para circular pelo corpo. Logo no feto, que se desenvolve no paradisíaco seio materno, o timo forma-se como concha do coração. A epitímia alastra para fora do seu dínamo tóraxico, e actualiza-se como faculdade táctil das células, que orienta, como se fora uma sábia visão, dirigindo a imperativa formação dos orgãos; desenvolvem-se as vísceras, e logo os membros, e depois os orgãos genitais, onde, da sua mais simples forma de apetite vegetativo, a epitímia se transforma na libido própria do género ou sexo do novo ser, mantendo depois, durante toda a vida, a capacidade en-tumescente dos orgãos genitais, preparatória da actividade sexual.

A epitímia percorre também o movimento inverso, de regresso ao timo, e como desejo interfere no sistema nervoso. É o desejo que conhece o que é prazer e o que é dor. E só por isso que o desejo conhece pode o corpo tornar-se sensível, ou simpático, ao exterior.

Este périplo vadio da epitímia, descendente e ascendente, mantém-se activo mesmo no corpo que já nasceu e cresce. E quando este crescimento corporal culmina no transtorno que o completa, a puberdade, acende-se o modo mais intenso do desejo, que será a forma erógena da potência que vai consumar o Amor.

Seguir agora o percurso da epitímia como Desejo Amoroso leva-nos até ao afamado Symposium, ou Banquete, o diálogo de Platão em que Plotino, segundo testemunho de seu discípulo Porfírio, encontrou e entendeu as fases, talvez faces, do movimento para o templo, a via da contemplação.

O Banquete tem por tema o daimon Eros. E como podemos, sobre este tema, entender Platão, se o filósofo estava num alvorecer da in-timidade, e nós não?

Talvez uma intemporal memória, quase fetal, nos permitisse invocar com alguma acuidade o que era a ténue e translúcida in-timidade da era Platónica, onde afluiam as pulsões mais primárias e as mais sublimes in-tuições! Embora estejamos condicionados aos contornos da nossa época, impotentes reféns das diferenças na densidade interior, tentemos compreender a epitímia Platónica, já que a sua morte e enterro, ou sacrifício, aí mesmo, no Banquete, se estavam já a decidir... Afinal, Atenas não se constrói na inocência do pletórico desejo, mas na memória da contrapolar violência titânica, que de forma medonha quebrou o sonho da harmonia e da beleza do Cosmos.Só o Logos, a apolínea visão da Ordem, o poderia voltar a pacificar e a humanizar.

A epitímia, a acção primordial e genesíaca do apetite, o desejo mais antigo, vivaz e primaz, que extravaza a solidão ou solidez do mineral e engendra o organismo, que se aperfeiçoa no sentido táctil dos seres vivos superiores, com o qual se determina imediato, certo e presencial con-tacto com o meio ambiente e os outros, a epitímia que finalmente se manifesta fluente e imperativa como desejo amoroso – também à epitímia se vai impôr que conviva com as exigências da aretê, virtude, e do logoiko, a inteleção.

Platão deixa, no Banquete, descrito e reposto na ordem cósmica o animal superior cujo organismo se ordenou num composto dito “antrópico”, e que tal composto apresentaria três centros, vértices ou vórtices: o epitímico, o tímico e o logístico (lógico). É o timo que ocupa o lugar central, vitalidade principial e remota que move a epitímia descensionalmente até ao baixo ventre da ardente paixão erótica e a reorienta ascensionalmente, para assim relacionar sensações e emoções com o Logos, o vértice superior. Dessa fusão resultam os sentimentos superiores como a eutímia, a protímia, ou a philia, (que, se fôr filia do saber, se chama filosofia...), resulta até a suprema aretê ou virtude a que um humano pode aspirar nesta vida, a eudaimona.

No Banquete, os convivas vão discursando, um a um, sobre Eros, o Amor. É, afinal, o louvor ao que, no mesmo, anseia pelo outro e que, logo, é também o mesmo que se anseia outro. É o deus que tudo relaciona – e haverá ser que não se relacione? – mas por também relacionar o baixo com o alto, o mal com o bem, nisso se torna suspeito e potencialmente perturbador.

Quando chega a vez de Sócrates, este confessa-se ignorante sobre o tema, e passa a relatar o que lhe dissera uma sábia mulher, Diotima, essa sim, conhecedora do amor. Este nome, Diotima, usa-o Platão por ser, em si mesmo, desde logo a nomeação do caminho que descreve no diálogo - “através do timo”. Segundo a natureza tripartida da alma humana, diz-nos Platão que só a ascese da epitímia ao timo, e do timo ao logos, permite ao homem natural (aner, andros) tranformar-se num verdadeiro ser humano (antropos).

Tratava-se, como terá lido Plotino, não de recusar e refrear com racionalidade estéril o fluxo epitímico do desejo, mas de o intensificar e reorientar, sublimando-o em amor, eros ou philia; são estas as energias amorosas e unitivas que, só elas, alimentam e potenciam o intelecto passivo que, na in-timidade, o espírito noético purifica, atrai e sustenta. A finalidade deste exercício é acender o Logos fátuo que Prometeu roubou aos deuses para dar aos humanos. Como se acende esse fogo?

È aqui o momento de lembrar novamente o sacrificio canibalístico a que os Titãs sujeitaram Diónisos, pois impõe-se constatarmos que o thumo esteve sempre, sempre, ligado ao verbo thuein, ligado à acção de sacrificar; e o esquartejamento de Diónisos, como o de todas as ví-timas dos sacrifícios, fazia-se sobre o thumelê, que era o altar e o túmulo!

Nesses sacrifícios acendiam-se as puras ou piras rituais, e um fogo purificador ou pirificador queimava lentamente a quase indestrutível madeira aromática, a thuia, a arbor vitae, que alguns dizem ser também o milenar cedro do Líbano que Salomão usou na construção do templo, e os egípcios em sarcóphagos. Os phagos, as vítimas a sacrificar, eram trazidas em cortejos e imoladas kata ta patria, à maneira dos antepassados; e nos oferentes o en-tus-iasmo era despertado pelo aroma inebriante da thuia e por cânticos de exaltação sacrificial; este en-tusiamo permitia então es-timular a reorientação do fluxo epitímico, fazendo-o ascender do originário ardor carnal para a consciência logóica superior.

Ordenavam-se assim, com os ritos sacrifíciais, caminhando pela beira do precipício, os mais intensos impulsos e emoções que, se desordenados, fariam cair os oferentes no mais pavoroso e insólito abismo da selvageria. Nesta duplicidade agónica nasce a tragoidia, a tragégia, a tardia representação simbólica, já em espaço citadino, da morte do trago ou bode que, segundo memória antiga, era imolado em familiares recintos tribais, das tribos ainda não separadas em dema, das famílias e dos clâs de origem tímica, não logóica. Os cortejos, os coros sacrificiais, as máscaras ou personagens, reagrupam-se no anfiteatro e recriam mais um episódio do confronto epitimial.

Invocando regularmente os exemplares deuses ou heróis, os sacrifícios conseguiam encurtar a distância entre os tímidos mortais, constantemente enredados no tumulto dos seus mais baixos e degradantes impulsos, e esses magníficos representantes da mais alta ordem cósmica, o outro em que os humanos se querem tornar; hêroikas timas, honra aos heróis, gritava-se no fim dos grandes sacrifícios da pólis Ateniense! O thumos Homérico, ainda loucura, ira ou euforia com que os deuses deixavam os humanos em transe, transformou-se, pelo poder ordenador dos sacrifícios, em timê, honra, isto é, reconhecimento, testemunho do valor ou aretê dos heróis exemplares.

Herói, sem dúvida, terá de ser aquele que queira e ouse controlar, sem anular, o dionísico desejo, que ameaça sempre decaír, nos tempos antigos como nos de hoje, na violência, na antropo-phagia, na orgia. Herói, sem dúvida, terá de ser aquele que consiga, no orgasmo, redirigir para o timo, ou tino, e deste para a pineal, ou pinha, a irradiante energia amorosa, para que esta ilumine a consciência e permita activar o intelecto passivo.

Para esta finalidade dois percursos se apresentam plausíveis. Apesar desta ascese ter sido interpretada e protagonizada em todas as culturas e cultos, nas mais diferentes formas, creio que ela se reduz, ao fim e ao cabo, apenas a duas vias contrárias, a saber:

- uns, como seria o caso, por exemplo, dos Cátaros, cumpririam a necessidade de sublimar em puro sentimento amoroso o desejo erótico, mantendo e aperfeiçoando um intenso jogo de sedução e entrega, mas extirpando-lhe qualquer efectiva actividade sexual; e, em caso extremo, como no Tantrismo, chegando mesmo esta prática a querer evitar radicalmente a ejaculação, por considerá-la uma perca lastimável de energia vital, metabólica e metamórfica. Esta “via negativa” preconiza então que a energia erástica, retrocedendo e não se transmitindo ao parceiro amoroso, suba pela árvore da espinal medula e efloresça na copa, ou cérebro, para soltar a alma do corpo, soltar os sentimentos dos sensos, soltar a inteligência da mente. A “via negativa”, que mais aspira à philia que ao eros, podendo socorrer-se dos phil-tron, filtros ou poções vegetais capazes de potenciar, no sistema nervoso vegetativo, o inebriante anelo amoroso, estigmatiza, óbviamente, a consumação do desejo sexual. Os primórdios míticos da humanidade, com suas sodomas e gomorras, lembram a incontornável necessidade de uma redenção - redimir ou re-timir.

- outros, porém, consideram como exemplar a união singular dos amantes, e tomam a presença do Desejo que os atrai como uma emanação do Amor Divino que se manifesta na Criação e nas criaturas que nela perduram e para ela contribuem. Nesta “via positiva”, portanto, podem ser ordeiras a união sexual e a consequente “multiplicação” das criaturas, e assim são alegremente celebradas pelos deuses, como afirma Platão no seu Symposium em louvor a Eros, ou plenamente abençoadas pelo Único Deus, na sacral tradição adâmica, consagrada a partir do hanif Abraham e sua santa prole, e relatada em Livros Sagrados.

Ora, muito pouco seria dito sobre esta “via positiva” se, como até aqui, continuássemos centrados sómente em temas Helénicos, porquanto esta via desidérica não teve feliz continuidade na Grécia, apesar de Platão e do seu Banquete. A sociedade Helénica, como é sabido, veio a constituir-se, desde as reformas de Clístenes, num regime de vizinhança, não de consanguinidade familiar, e assim se desenvolveu. As tribos, rigorosamente divididas e espalhadas pelas dema, foram hábilmente forçadas pelos seus argutos arcontes e legisladores a desenvolver novos laços de convivência, laços políticos, consensuais mas não consanguíneos, de base dialogante mas abstracta, já que abstraída dos laços epitímicos do sangue, do costume e da empatia da proximidade.

Assim se foram implantando os usos e os orgãos da Polis, desfazendo e substituindo os laços originários da consanguinidade familiar. A Ágora substituíu a reunião em torno das comuns ofertas sacrificiais. A Academia substitui a refeição e o convívio familiar dos pais com os filhos.

Neste assomo da sociedade gregária e urbana, é tempo, então, de novos heróis.

É tempo do herói protímico, cultor da preserverantia, como um Demóstenes! Vêmo-lo a correr na praia, a ganhar fôlego, com a boca cheia de pedras para treinar a dicção e superar a gaguez; tem de ganhar novo ser, nova dimensão, pois já não se trata de dirimir o pleito da herança paterna, perante o modesto juiz da sua dema, e em que se reconheceu como orador. Trata-se agora de discursar na imponente assembleia de Atenas e decidir momentosas questões como a resistência aos poderes opressores de Persas ou Macedónios.

O daimon Eros vai cedendo a sua aura divina, perante o Logos a que recorrem os novos heróis para, na Ágora, en-tusiasmar os Atenienses. O timo, coração do desejo, ouve as batidas fortes do coração sanguíneo, o coração da vontade férrea e marcial

É tempo, também, do herói eutímico, cultor da tranquilitas, como um Aristóteles! Em nada, é certo, deprecia Aristóteles a relação marital e o amor, e no silogismo pratica até a conjugação dos logismos no amor à verdade! Mas, no seu notável sistema tanto eleva e desenvolve o saber logóico, o discurso e a racionalidade, que os seus epígonos acabam também por esquecer e cobrir de silêncio os antigos e misteriosos processos sóficos, a entusiamente tradição sacrifical órfica e dionísica. Nos séculos vindouros, de que não se viu ainda o fim, cede-se a primazia à apolínea aretê, educam-se as almas jovens para desejar e alcançar virtuosos e fleumáticos, senão apáticos, estados de espírito, e assim se aconselham os citadinos a que se aquietem e imobilizem numa plácida eudaimona, ou felicitas.

O contrário, diríamos, se passou com os Hebreus. Igualmente propensos, como os gregários Helenos, à inspiração pela Palavra, mas sempre nómadas ou em diáspora, tribais, de inquebrantáveis raízes familiares assentes em sangue purificado pela circuncisão e pelo rigorosíssímo controlo do vínculo maternal, o povo Hebreu viveu na Antiguidade, e exaltou como nenhum outro, a “via positiva” da relação amorosa. Desde logo, relacionando amorosamente todo o Povo com o seu Deus e, daí, desenvolvendo depois toda a via mística de consagração do amor entre os humanos.

Não que os Hebreus não tivessem também testemunhado os demoníacos excessos do orgiástico desejo, mas estes foram lavados com a baptismal água do Dilúvio; também sofreram a erupção desregrada dos tumores linguísticos, os dialectos que o vapor tímico, subindo a traqueia ou torre de Babel, espalhava pelas terras do mundo, em profana ocultação da fala adâmica. Até que chega a nova era, do segundo pai adâmico, o hanif Abraham.

Interpretam alguns autores o sacrifício de Isaac como simbolizando o fim dos sacrifícios humanos. Creio que é bem mais do que isso!

Não faz sentido procurar entender o sacrificio de Isaac sem atender a que este sacrifício é a sequência imediata, e culminante, de uma anterior intervenção divina.

Abraham e Sara confrontam-se com a esterilidade, o pior castigo. Perante a frieza tímica da mulher, Abraham concebe um filho com Hagar, mulher africana. Até que, um dia, uns estranhos visitam Abraham e sentam-se com ele ao crepitar da lareira que o pastor viandante diáriamente acende para assistir ao poente transversal. Na tenda, estava Sarai, a princesa que ri, preparando a refeição, quando ouve um desses visitantes dizer que ela iria conceber. E riu-se. Na sua idade, há muito sem ciclo menstrual, essa profecia era irrisória.

Nada mais é dito sobre o que se passou e como recuperou Sarai a fertilidade. Mas Isaac nasceu. E Abraham vê-se duplamente enobrecido no seu poder paternal, pai natural com Hagar e Ismael, pai sobrenatural com Sarai e Isaac. E regozija-se com a generosidade divina, e nesse regozijo se alimenta a semente secreta do orgulho, qual gota do sangue dos Titãs.

Chegados a este ponto, divergem as interpretações dos Irmãos Semitas! Uns, os que descendem directamente de Isaac, dizem deste o que mais o honra; os que descendem directamente de Ismael, deste dizem o que a este o mais honra também. Que importam as divergências? Honra aos profetas! Vai consumar-se o sacrifício.

Abraham, como José, o Carpinteiro, assiste ao milagre da paternidade sem dele participar em espírito activo, já que fora Sarai, e não ele, quem recebera sobrenatural benção no mais íntimo das suas entranhas, tal como, já antes, naturalmente abençoada fora a sua outra mulher, Hagar, e não Abraham!

Abraham, que sabia estar atento ao Espírito Angélico nas solitárias noites estreladas, não sabia estar atento a esse Espírito na intíma união marital, no entusiasmo orgástico em que concebera seus filhos. A epitímia, a energia viril assim sentida, nada revelara ainda à sua consciência... Faltava o sacrifício...

E foi assim que, um dia,Abraham, Isaac e o Anjo já os filhos criados, Abraham é chamado pelo Espírito Santo, em imperativa voz íntima, a concluir o ciclo da sua era! Eis o saber recordado na nova lição: se o homem concebe, ou nasce, é por mando divino. Se o homem mata, ou morre, é por mando divino.

Abraham presta-se, submisso ou islam, a cumprir a outra face da revelação! Primeiro, toma o filho Ismael e a mãe, a egípcia Hagar, mulher africana que não cumpre os preceitos sacrificiais dos Hebreus, e leva-os ao Vale Sagrado, onde os deixa entregues ao deserto, à morte ou à vida, conforme o Desejo Divino.

Depois, segundo a tradição do seu Povo, prepara com Sarai a vítima sacrificial, Isaac, o filho do riso. Sabia já Sara, intimamente - mas não o disse a Abraham, não saberia como! - que não era a Issac que se destinava o sacrifício da morte, dado que Isaac já nascera como filho do espírito, não da carne. O sacrifício destinava-se a Abraham, naquele momento ainda imbuído do natural vitae nescisque potestas, o poder de vida ou morte do pai de família!

Com este sacrifício, Abram iria transmutar-se, seria Abraham, o Patriarca, o que firmou b´rit, ou convénio, com o Altíssimo. Por isso, quando Sarai viu pai e filho afastarem-se em direcção à pira, no topo da montanha, não se angustiou. E um breve sorriso tocou-lhe a face.

“Sarai, a princesa que ri”, pensou Abraham, quando se voltou para trás, nesse momento, acenando em despedida, com sombria e tumular tristeza, e vê a mulher, ao longe, com um eutímico sorriso nos lábios.

O que depois se passou é Tradição; enquanto Hagar dava sete voltas ao Vale, à procura de socorro, e Abraham levantava Isaac e o deitava sobre o altar, aconteceu a intervenção Angélica, do roh al-Qudus.

Ao contrário da intervenção do Espírito Santo, roh al-I’dhafi, que vem do interior do mais íntimo, e ilumina cada um em si, do mesmo para o mesmo, antes de ser aparente aos outros ou deixar vestígios como a pomba, a voz interior, a aura, ou a flama que paira sobre a cabeça, o Espírito Angélico vem do mais exterior do externo, do outro enquanto outro, que já é aparição antes de ser compreensão e logo marca, muda, manda, impõe, com suas espadas flamejantes!

Para Hagar, o Anjo fez jorrar a água do poço Zam Zam, e Ismael sobreviveu. Para Sarai, o Anjo trouxe o cordeiro, que entregou a Abraham, e Isaac sobreviveu.

Assim creio que se animou, e sobreviveu através dos tempos, a via do timo.

Pois não separou Moisés as águas do Mar Vermelho, como quem separa o vermelho coração sanguinolento e voluntarioso das águas do coração tímico, obediente e sacrificial?

E não é, séculos depois, nesse mesmo coração aquoso ou linfático que um soldado romano, num momento de eterna solenidade, espeta a lança do destino, assinalando aos esperançosos caminhantes que, no seio da já infernal vida entre os nascidos da carne, se mantém aberto o portal para a ascensão ao céu dos renascidos do espírito?

E não tinha dito Jesus aos discípulos, umas horas antes da Cruz: "Com desejo ardente desejei celebrar este repasto de Páscoa convosco, antes de sofrer."
Lucas, 22:15

Em aramaico, está bem dizer: “com desejo ardente, desejei”. Não é erro de tradução! Trata-se da epitímia, transfigurada na Páscoa, com a consumação do sacrifício tragoidico ou trágico do Agnus Dei, o Verbo que é Amor, não só Razão.

E não foi Thomé, o discípulo thumico, que nessa chaga aquosa tocou? Para certificar-se que o Mestre estava vivo, não era um espectro, Tomé usou o tacto, filho do timo, o senso primacial. O que se conta sobre Tomé deixa suspensa a nossa ignorância sobre o muito que ainda há por tocar...

E não foi de Muhammad, o Profeta, que recebemos explicação dos sacrifícios, ao dar voz a esta fala Divina:  - "Quem Me procura, encontra-me! Quem Me encontra, conhece-Me!  Quem Me conhece, ama-Me!  Quem Me ama, Eu sacrifico!  A quem Eu sacrifico, devo compensação de sangue.  A quem Eu devo a compensação de sangue, a compensação sou Eu!

Na actual perspectiva rectilínea da ciência Evolucionista, foi em muitíssimos milhões de anos que se deu a formação dos astros e das espécies, sendo a espécie humana filha de um certo desenvolvimento das funções cerebrais que supostamente cresceram e se foram ampliando, gerando o epifenómeno da consciência.

Quem nos descreve, então, o movimento inverso, de involução, que levou uma glândula, o timo, a retroceder? Hoje, os Cientistas apenas constatam que o timo só se desenvolve até à puberdade, e que depois, sem causa identificada, entra em degradação, até ao fim da vida. Tão atreitos e atentos à causalidade glandular, estranho é que nada digam sobre as consequências desta involução.

Entretanto, constatam outros: a Razão associa-se à Vontade, em desfavor do Desejo, da epitímia, que queda desvalorizada como luxúria, libido, mero apetite. Para a Razão Animada, contudo, uma coisa parece certa: o Logos, sem Amor, queda Razão Hirta. E os Titãs, de hoje e de sempre, que se escondem, como os jinn, no tempo vertical, vão tentando esquartejar o nosso corpo. Embrenhados em nossos dias rolantes, servos do tempo horizontal, saberemos esconder deles o nosso coração aquoso?

in Leonardo, revista de filosofia portuguesa, Fevereiro 2010