As traduções Árabes de Aristóteles

(Nota: este texto foi publicado na sequência de alguns artigos publicados no 'blog' de Gonçalo Magalhães Colaço e na 'Leonardo')
Caro Gonçalo Magalhães Collaço,

Este seu texto é uma excelente contribuição para um rico manancial de temas e teses que espero ver desenvolvido na Leonardo, aproveitando o "balanço" que aqui fica dado, tanto com este seu artigo como com o de Miguel Bruno Duarte (ver textos sobre este tema arábico aqui e aqui).

Antes, porém, de participar também com algum escrito para esta temática que me toca particularmente, dado o meu próprio percurso religioso no Islão, queria só deixar-lhe uma pequena nota quanto ao que diz na seguinte frase:«Há, naturalmente, quem defenda ter sido a filosofia grega passada aos ocidentais por via árabe, com Avicena, Al Farabi, Averróis, e por aí adiante, justificando eventualmente uma outra fonte de influência. Todavia, desde Gilson ao mais recente livro de Sylvain Gouguenheim, 'Aristote au Mont de Saint-Michel', bem sabemos como essa tese não representa senão uma procura mais de diminuição da tradição ocidental do que de qualquer veracidade, pelo que não valerá a pena tomarmo-la demasiado em conta.»

Ora bem: se ler o artigo de Louis Jacques Bataillon incluído em "L'Islam Medieval en terres chretiennes - science et ideologie nº26", titulado "Sur Aristote et le Mont Saint-Michel, notes de lecture", verá que este refuta com alguma linearidade as teses de Gougenheim, mostrando os erros básicos das suas "provas" e, especialmente, negando a tese central da existência de uma equipa de tradutores de Aristóteles em Mont Saint-Michel, onde se encontraram, copiadas pelo seu próprio scriptorum, apenas as seguintes obras do Estagirita: Physica, De Anima e De Memoria.

Sobre esse tema valerá também a pena ler o excelente artigo de Coloman Viola intitulado, exactamente, 'Aristote au Mont Saint-Michel'. Tão habituados estamos à menorização da Península no contexto da cultura Europeia, e tão convictamente nos obrigam as universidades estrangeiradas que temos em Portugal a acreditar na impecabilidade das escolásticas europeias, nomeadamente a Francesa, que naturalmente nos disponibilizamos para tomar por verdadeiras quaiquer teses que ostentem essa chancela, mesmo quando alguma dessas teses menoriza e desvirtua a cultura peninsular, e a Portuguesa em particular.

Felizmente, e valha-nos isso, alguns franceses se encarregam, por vezes, de refutar o seu próprio chauvinismo.


Por outro lado, no livro 'Space between words: the origin of silent reading', de Paul Saenger, lê-se: «Um novo corpus de saber científico...brotou numa outra zona periférica (do Império Romano, nota minha), a Espanha Moçarábica.(...) Na cultura Arábica, a Lógica Aristotélica e o cálculo tinham sido apoiados e desenvolvidos, enquanto permaneciam dormentes na Europa». Depois, acrescenta Saenger, de forma lapidar: «Para a história da leitura e do livro a cultura Arábica esteve para o Ocidente Latino Medieval como, na Antiguidade Clássica, a Cultura Grega esteve para o Império Romano».

E o Autor explica depois que, para entender a veracidade dessa afirmação, há que não esquecer que os textos Gregos e Latinos eram manuscritos em "scriptura continua", e assim foram copiados e/ou traduzidos, na Alta Idade Média, onde imperavam os textos da Patrística.

Entretanto, traziam os textos Àrabes, mais tarde traduzidos para Latim, a grafia que impunha espaços entre as palavras e sinais específicos do fim das mesmas. E foi o prestígio dessas obras Árabes, traduzidas na Europa além-Pirinéus para Latim o que, segundo este autor, promoveu, e explica, a muito rápida alteração e fim, nos centros europeus de transcrição de manuscritos, da 'scriptura continua' nos séculos onze e doze...

Resta lembrar que esta característica da escrita Árabe, comum também ao Hebreu, de desde a mais remota escrita ter marcado sempre espaços e separações de palavras, se deve ao facto de as vogais, nas línguas semitas, serem geralmente omitidas na escrita... Se as palavras não fossem separadas, a leitura tornar-se-ía, conclui Saenger com a razão do bom-senso que nenhum de nós pode contraditar, simplesmente impraticável!

Eu acrescentaria também que, sendo a escrita Islâmica radicalmente baseada no Corão, tal como a Hebraica na Bíblia, não surpreende a exigência sófica e pística de se escreverem os Nomes de Deus em palavras cuja grafia esteja exemplarmente completa, distinta e reconhecível. A revelação do Nome não impõe a sua forma? Não determina a sua evocação?

Mas já estou a alongar-me. Além de separar as palavras,também temos de separar os textos.

João Seabra Botelho

Abril de 2009